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Rio: Carnaval fora de época em Paquetá após conclusão de experimento sobre vacinação divide moradores, que temem turistas de fora da ilha

População adulta da Ilha de Paquetá passará por experimento sobre a Covid-19

Um carnaval fora de época, com foliões aglomerados e sem máscara, parece ser uma cena ainda distante em tempos de pandemia. Mas a alegoria pode se tornar realidade no fim de setembro, na Ilha de Paquetá. O prefeito Eduardo Paes anunciou ontem que o bairro insular poderá receber o primeiro evento-teste da cidade 14 dias após a vacinação em massa da população contra Covid-19, como está previsto no estudo conduzido pela prefeitura, em parceria com a Fiocruz. No próximo fim de semana, será montada uma força-tarefa para imunizar toda a população adulta da ilha.

Dos 4.180 moradores de Paquetá, 3.530 maiores de 18 anos estão cadastrados no sistema de saúde da ilha. Deste total, 1.853 já haviam tomado a primeira dose até o fim de maio. A expectativa é que até domingo todos os maiores de idade tenham recebido a primeira dose da vacina. O imunizante utilizado no estudo será da AstraZeneca, e a segunda aplicação será feita 12 semanas depois. O evento-teste será realizado 14 dias após a segunda dose, caso não surjam novos casos da doença. Apenas as pessoas vacinadas no experimento poderão participar.

— Esse estudo vai servir para embasar a tomada de decisão não só para a cidade, mas para o país. A ideia é mostrar o potencial da imunização, e começar aos poucos a retomar a vida como era anteriormente, mas com muita cautela — afirma o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz.

Anúncio polêmico

O anúncio do carnaval fora de época foi antecipado pelo colunista Ancelmo Gois, pela manhã, e depois o próprio Paes confirmou em suas redes sociais. A novidade dividiu opiniões.

A associação de moradores de Paquetá, Morena, publicou uma nota em que classificou como um “desrespeito” o anúncio ser feito antes de a população ser consultada.

— A população foi pega de surpresa com o anúncio do carnaval fora de época em plena pandemia. Nós apoiamos o experimento de vacinação em massa e temos trabalhado para obter a maior adesão de voluntários possível. Mas acho que esse anúncio, feito dessa forma, pode atrapalhar — diz o diretor-geral da Morena, Guto Pires.

Nas redes sociais, moradores questionavam como seria feito o controle para que o evento não recebesse foliões de outras partes da cidade. A retomada das atividades culturais foi vista com bons olhos por representantes do turismo, mas o responsável pela agência Paquetur, José Lavrador Kevorkian, questionou a viabilidade de um carnaval sem turistas:

— O carnaval de Paquetá é tradicionalmente uma celebração onde o visitante é parte fundamental, compartilhando nossa alegria e irreverência, assim como, movimentando uma cadeia de fornecedores locais de produtos e serviços. Carnaval sem o turista é festa sem convidados.

Já o empresário Bruno Alves Vieira, de 31 anos, que há quatro anos inaugurou na ilha a pousada BruMar, comemorou o evento.

— Torço para que se comprove a eficácia da vacina e se reative o setor hoteleiro da ilha. De 14 pousadas, pelo menos cinco fecharam as portas na pandemia — disse.

Eventos-teste após experimentos de vacinação em massa não são incomuns. Uma experiência semelhante está sendo programada pela prefeitura de Serrana, na Região Metropolitana de São Paulo. A cidade, que foi escolhida para sediar estudo de vacinação em massa do Instituto Butantan, quer realizar um show com público a céu aberto em julho. No exterior, há outros exemplos. Em Israel, cerca de 500 pessoas vacinadas contra o coronavírus assistiram a um espetáculo ao ar livre, organizado pela prefeitura de Tel Aviv, no início de março.

Outros países fizeram experimentos clínicos antes da vacinação, com pessoas que testaram negativo para o novo coronavírus. Foi o caso da Espanha, que reuniu cerca de cinco mil pessoas em um show no final de março. Algo parecido foi repetido, há duas semanas, na Inglaterra.

— Essa proposta é muito parecida com o que já aconteceu em outros países, mas com uma população menor, restrita a uma ilha, em um ambiente totalmente protegido e com cobertura vacinal altíssima. Ainda assim, faremos o evento apenas se não houver nenhum registro de novos casos — explica Soranz.

Especialistas aprovam

O infectologista Alberto Chebabo explica que os eventos-teste fazem parte desse tipo de estudo.

— A ideia de criar esse protocolo de vacinar a ilha toda é exatamente para entender o que pode ser feito depois da cobertura vacinal completa. A partir disso, poderemos avaliar os riscos relacionados ao retorno das atividades. O estudo poderá embasar outras decisões, até mesmo sobre a realização do carnaval, quando houver uma cobertura vacinal completa na cidade e no estado — analisa.

O infectologista José Cerbino Neto, pesquisador da Fiocruz, ressalta que a realização do evento-teste depende do sucesso do experimento:

— A ideia é fazer um evento fechado para os residentes da ilha. A gente entende que, mesmo que exista uma pessoa infectada naquele ambiente, o fato de haver um cinturão de proteção, com um grande número de vacinados, vai impedir a transmissão do vírus. Isso é a imunidade vacinal. Poderemos medi-la.RECEBA A NEWSLETTER DO EXTRACADASTRAR Li e concordo com os Termos de Uso e Politica de Privacidade.

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