Reforços, Miguel, Marcos Paulo, Laranjeiras, voto online… Mário abre o jogo no Fluminense

Após completar dois anos à frente do Fluminense, Mário Bittencourt recebeu o ge nas Laranjeiras para fazer um balanço da gestão até aqui. A primeira parte da entrevista, que durou ao todo três horas e 47 minutos, foi ao ar na última quarta-feira. Nesta segunda parte, o presidente tricolor entrou em temas polêmicos e respondeu perguntas que movimentam debates entre torcedores nas redes sociais.

Mário Bittencourt completou dois anos de gestão à frente do Fluminense — Foto: Lucas Merçon / Fluminense FC

Veja as perguntas e respostas:

ge: É incomum ver presidentes de clubes participando do vestiário. De onde vem esse estilo “boleiro”? Você se inspirou em alguém?

– Eu estou no clube, com algumas interrupções, há 22 anos. Fui estagiário do departamento jurídico, advogado, gerente do departamento de futebol e vice-presidente de futebol. Sempre fui um cara de dentro desse ambiente. Como sou um presidente formado na casa, em outros momentos eu já fui subordinado a pessoas que hoje são subordinadas a mim. A única maneira que vejo de fazer essa gestão do dia a dia é que as pessoas entendam que eu estou presidente, mas que vim de dentro daquele ambiente, por isso me mantenho ali. Mas quem comanda o dia a dia do futebol é o diretor executivo.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

– E não acho que sou o único presidente, não (com esse estilo). O (Guilherme) Bellintani (Bahia), o Marcelo Paz no Fortaleza, o Andrés Sanchez era um cara total de vestiário (no Corinthians). Você não pode, na minha opinião, ter uma interseção. Entre o presidente e o diretor executivo não pode ter outra pessoa fazendo política, não pode. O jogador precisa olhar e saber: “É aquele cara ali o executivo que manda e acima dele o presidente do clube”. Tem um ditado chinês que diz que gato que tem sete donos morre de fome. O primeiro dono passa, vê que não tem leite, e fala que o segundo vai colocar. O segundo passa e acha que o primeiro já colocou e o gato já bebeu.

Mário é uma figura sempre presente no vestiário do Fluminense — Foto: Reprodução / FluTV

As contratações elevaram o nível do time. Mas por que o pacotão de reforços chegou em cima da hora na Libertadores, correndo o risco de não dar tempo de se entrosarem?

– Eles chegaram mais em cima do laço justamente porque a gente tem dificuldade financeira. A gente batalha para fazer pelo menor preço possível, e eles são jogadores que interessavam a outros clubes. O Abel Hernández é um exemplo, tinha proposta muito boa do México, mas gostava do Brasil. O que ajudou muito nessas contratações foi o nosso ambiente.

“Mas por que demora? A gente precisa construir na cabeça do atleta o convencimento dele vir. Infelizmente neste momento não temos como pagar tudo aquilo que o atleta pede. O Abel, por exemplo, veio ganhando a mesma coisa que ganhava no Inter, mas outros vieram por menos. E esse ano a temporada começou uma semana depois da outra. E quando o Brasileiro acabou, a gente só foi saber se ia para a fase de grupos da Libertadores 15 dias depois, por conta da Copa do Brasil.”

Mesmo com esse pacotão de reforços, o aumento da folha salarial foi dentro dos 30% planejados? Está em quanto?

– Foi abaixo de 30%. Uma coisa importante é que a gente trabalha o exercício, toda folha oscila o ano inteiro. Quando a gente trouxe esses jogadores, a gente ainda tinha no elenco Michel Araújo e Fernando Pacheco, esses dois caras saíram e nós não estamos pagando esses dois salários. O Yuri também saiu. Por isso agora ela está menos de 30%. Isso vai variar. Ano passado, ela girava em torno de R$ 3,2 milhões. Isso é folha líquida: salário mais imagem. Agora, está em R$ 4 milhões.

Fluminense anunciou oito reforços em 2021 até o momento — Foto: Divulgação

Há espaço nesse orçamento para contratar reforços para as oitavas de final da Libertadores? Vocês tentaram o Ronaldo agora…https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

– Tem, a gente está avaliando, mas dentro das nossas condições. O Roger quer um volantão ali e trabalhou com ele (Ronaldo) no Bahia. Foi um pedido do Roger, porque a leitura dele é que tanto o Martinelli quanto o Yago são dois volantes que saem para jogar. No momento não tem nenhum (negociando), mas a gente deve fazer mais duas a três contratações para as oitavas.

E o Ganso, ainda pode sair? A negociação com o Santos melou?

– A gente teve uma primeira conversa há uns 15, 20 dias. Na verdade, o Santos procurou o empresário dele, e o empresário entrou em contato conosco. As condições chegaram a ficar pré-acertadas, mas não fomos mais procurados. Isso é um triângulo: tem a vontade do jogador, a vontade dos clubes. Na ocasião, ,o jogador mostrou interesse em ouvir a proposta, é um lugar onde ele já jogou. Mas nós gostamos muito do futebol dele, e ele está sendo útil, tem nos ajudado.

Dos jogadores do elenco, quem surpreendeu e virou uma espécie de reforço interno foi o Caio Paulista. Há algum movimento para comprá-lo?

– A gente não tem opção de compra. O empréstimo do Caio é um empréstimo de um ano seco. Ele foi um jogador que recebeu “centenas” de propostas para sair: Ceará, Fortaleza, o próprio Bragantino… A gente não liberou, apostou, fez mais um ano. Ele não teve muitas oportunidades ano passado, mas treinava muito bem, e colocamos mais um ano. Já estamos em conversas com os representantes para ver se a gente consegue estender o empréstimo, e aí colocar uma opção de compra.

Caio Paulista comemora seu gol na vitória sobre o River Plate na Argentina — Foto: Divulgação / Conmebol

Quem está muito valorizado é o Nino. Não seria ideal renovar com ele antes das Olimpíadas?

– Ele tem contrato até o fim de 2022., ainda é um contrato longo. Mas já estamos em conversas tentando a renovação. Ele é muito feliz no clube, é um cara muito correto, e estamos conversando já tem um mês mais ou menos, negociando a renovação.

E com relação ao Miguel? Em que pé está a situação na Justiça e como vocês enxergaram tudo isso?

– Ele entrou com uma reclamação trabalhista pedindo a rescisão indireta do contrato de trabalho. Pediu uma liminar que foi negada, depois pediu uma reconsideração que foi negada novamente, então ele já perdeu duas vezes. Uma das alegações dele é de que não recebeu reajuste salarial, que estava previsto, e ele recebeu sim. Isso está lá no processo. Eu lamento que tenha chegado a esse nível, mas foi uma escolha e decisão do jogador e da família do jogador. A gente tem 270 jogadores em Xerém, temos dezenas de jogadores formados na casa jogando no time profissional e todos eles estão com contratos renovados, quiseram permanecer no clube, independentemente de estarem jogando ou não.

“Foi uma decisão unilateral do jogador. A gente já notificou três vezes para retornar ao trabalho, ele não retornou ainda. Já recebeu notificações oficiais do clube como determina a legislação trabalhista. O departamento jurídico já o notificou três vezes, e ele até agora não retornou. Estamos avaliando quais medidas tomar de agora em diante pelo não comparecimento dele””.

Miguel tenta a rescisão com o Fluminense na Justiça — Foto: Mailson Santana / Fluminense FC

Vocês ganhando o processo, teria clima para o Miguel voltar ou pretendem negociá-lo?

– Nós temos todo interesse que ele retorne. A gente fez uma proposta no final do ano de 2020, uma excelente proposta de renovação, ele não quis aceitar. Desde sempre se recusou a ouvir as propostas do Fluminense. É uma pergunta que deve ser feita a ele. Mas se houver a vitória nossa na Justiça, temos todo o interesse que ele possa retornar ao clube e cumprir o contrato dele aqui.

Outro jogador que não joga mais pelo Fluminense é Marcos Paulo. No fim, nenhuma tentativa deu certo: renovação, venda ou taxa de vitrine. Fica alguma decepção com ele ou seus empresários?

– Fiquei decepcionado, sim, porque o atleta e seu estafe poderiam ter tentado buscar uma proposta. Até porque o atleta se acertou financeiramente com um clube francês, o Lille, no meio de 2020, em uma reunião que não teve a participação do Fluminense. Acertou primeiro com o clube e depois comunicou ao Fluminense. A gente não se opôs, fui informado pelo estafe do atleta que iria chegar uma proposta de € 10 milhões de euros, nós aceitamos, mas a proposta nunca chegou. Depois teve uma proposta do Torino que a gente também aceitou, trocou documentos, mas o Torino desistiu.

– Por causa da legislação, a gente fica na mão do atleta. Nós tentamos nessa saída ficar com um percentual, mas o Atlético de Madrid não aceitou. Não o colocamos para treinar em separado, fizemos um acordo com o estafe do jogador de que ele iria ficar treinando somente, até porque ele não queria correr risco de se lesionar. E sendo justo, ele também deu quitação de algumas verbas que o Fluminense devia a ele do passado. Então além desses R$ 3 milhões, R$ 4 milhões do training compensation, ainda tem mais alguns valores que ele abriu mão de receber.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

“Desejo todo sucesso para ele, que seja muito bem-sucedido na Europa. Gosto dele pessoalmente, tinha uma ótima convivência e espero continuar tendo. Quem sou eu para fazer essa avaliação, mas acho que estrategicamente talvez não tenha sido a melhor decisão, já está há muito tempo sem jogar. Jogador que fica muito tempo sem jogar é complicado”.

Marcos Paulo viajou nesta semana para se apresentar ao Atlético de Madrid — Foto: Reprodução / Instagram

E como ficou a situação do estudo que encomendaram para a reforma de Laranjeiras? Qual foi a conclusão?

– Contratamos esse estudo porque quando chegamos aqui foi nos dito que a arquibancada de cima estaria condenada, mas quando pedíamos os laudos para as pessoas que estavam aqui nunca aparecia. O diagnóstico foi surpreendente positivamente, o estádio está de pé. Obviamente precisa de reforços estruturais, mas está tudo em total condição de ser utilizado. A gente fez ainda um outro trabalho, que foi percorrer os estádios de pequeno porte, autorizados para o Campeonato Carioca, para ver quais são as necessidades que nós teríamos de adequações. A estimativa olhando, ainda sem fazer um orçamento, tudo para deixar o estádio apto para jogos custa uns R$ 15 milhões. E estamos viabilizando que pelo menos 50% seja de projeto incentivado, com dinheiro que não é do clube.

“Em razão da pandemia, da demora que está tendo, a estimativa é que tenhamos possibilidade de voltar a jogar aqui, uns cinco jogos por ano, no Estadual de 2023. Essa é a tendência”.

Patrocínio master, reforma de Laranjeiras… As promessas de campanha que a torcida mais cobrava estão aparecendo, mas ainda tem uma que os tricolores batem muito na tecla: o voto online. Vocês ainda pretendem fazer?

– Sim. A gente vem fazendo testes de votação online, como por exemplo a adesivação do ônibus. Do ponto de vista técnico, não leva muito tempo para implementar, isso já vimos. Só que a gente esbarra hoje em alguns debates. O artigo 139 do Estatuto diz que é proibido voto por procuração. Quando você entrega a senha para uma pessoa votar, ele pode transferir essa senha para uma outra pessoa. A gente montou uma comissão interna, com advogados, e depois vamos buscar um parecer externo. Em outros clubes que têm voto online, o Estatuto não veda o voto por procuração.

Eleições no Fluminense são por urna eletrônica e fiscalizadas pelo Ministério Público desde 2010 — Foto: Mailson Santana / Fluminense FC

– E tem outra questão: a decisão de como vai ser a fórmula da votação é do presidente da assembleia geral, que é o presidente que está no cargo. Minha preocupação é que mudanças estatutárias e eleitorais devem ser feitas só pela legislatura seguinte. Você vai dizer: “Se é você que decide, não precisa passar pelo Conselho (Deliberativo)”. Só que como é uma questão eleitoral e eu posso vir a ser um candidato à reeleição, nós montamos uma comissão para passar isso pelo conselho. Porque se eu tomo uma decisão unilateral, vai ter o voto online, aí posso ter uma alegação de nulidade.

“Mas nós somos a favor e já cotamos três empresas. Se o conselho entender que a implementação do voto online nessa legislatura não infringe nenhuma regra do Estatuto, nós vamos implementar já na eleição de 2022. Caso entenda que não, vamos implementar para 2025. Aí já faremos a alteração no Estatuto e deixamos pronto para lá”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: