Quando menos é mais: futebol deve trocar 90 por 60 minutos

Com o intuito de tornar o jogo mais interessante, a fim de não perder a atenção de uma juventude cada vez mais exigente em estar entretida todo o tempo, autoridades do futebol estudam mudanças nas regras do esporte mais popular do planeta.

Por autoridades do futebol, nesse caso, entenda-se o Ifab (International Football Association Board), órgão com sede em Zurique (Suíça) que é o responsável por autorizar ou não modificações no esporte.

O Ifab tem um encontro anual, no qual discute o andamento do jogo e a necessidade de testar inovações que podem vir a ser aprovadas. O polêmico VAR (árbitro assistente de vídeo) foi a mais profunda alteração vista pelo futebol recentemente.

Por que polêmico? Porque, com o intuito de impedir erros claros e óbvios, não tem cumprido à risca esse papel, havendo inúmeros casos em que sua interferência é desnecessária, o que atrasa o andamento da partida. E o que é pior: nem sempre a marcação final é a correta.

Fundado em 1886, o Ifab é formado por cinco federações, sendo quatro delas britânicas: a da Inglaterra, a da Escócia, a da Irlanda do Norte e a do País de Gales, com um voto cada uma. A Fifa, entidade máxima do futebol, completa o quadro, tendo direito a quatro votos.

Para que uma modificação ou implementação de regra ocorra, é necessário haver seis votos favoráveis.

No seu encontro mais recente, neste mês, em Doha, no Qatar, país-sede da Copa do Mundo masculina deste ano, o Ifab aprovou definitivamente uma medida implantada provisoriamente durante a pandemia de Covid: a permissão para cada time fazer cinco substituições, e não só três, por jogo.

Outra mudança é o número de jogadores envolvidos em uma partida de futebol. O Ifab decidiu que que o número de reservas em cada uma pode, se o organizador do torneio assim desejar, ser 15 –o limite atual é 12. A Copa do Mundo adotará a nova fórmula.

Isso é para já, mas a alteração mais significativa, e que fará muita diferença na dinâmica do futebol, deverá ocorrer num futuro próximo, depois de testes mostrarem o óbvio: que ela é boa.

Trata-se da redução do tempo da partida de 90 para 60 minutos. Parece não fazer sentido, mas faz. Pois menos será mais.

Por quê? Porque esses 60 minutos serão de bola em jogo. Como no basquete, se o jogo para, o cronômetro também para.

Cada vez que a redonda não estiver em movimento –em faltas, pênaltis, substituições, quando sair pelas linhas laterais ou de fundo, ou por qualquer outra razão, incluindo os gols–, nada de tempo correndo.

E o melhor de tudo: será a morte da cera, que nocivamente sempre fez parte do jogo, desde que ele passou a ter 90 minutos cronometrados, no século retrasado.

O time que está em vantagem não terá mais esse artifício para enrolar, seja demorando para bater um tiro de meta ou uma falta ou um escanteio, seja um jogador simulando uma lesão, seja o técnico solicitando substituições.

No Campeonato Inglês, um dos mais prestigiosos do mundo, a média de bola em jogo tem sido de 55 minutos por encontro, sendo que um duelo, entre West Ham e Brentford, arrastadíssimo, registrou menos de 42 minutos de bola em movimento.

Nesse novo futebol, que existirá, serão duas etapas, de 30 minutos cada uma, com efetivamente meia hora de bola rolando. Sempre, sem exceção.

Possivelmente, como no basquete, um mesário cuidará do cronômetro, e os torcedores poderão saber a minutagem pelo placar eletrônico –nos estádios em que ele existir.

Essa, aliás, é uma questão fundamental. Deixar às claras, para todos os participantes da partida em questão –os jogadores, os treinadores, os torcedores–, o cronômetro. Essencial para evitar questionamentos e/ou reclamações.

Se não houver isso, a regra só poderá ser introduzida em competições que tenham capacidade financeira para viabilizar a própria regra. Isso tornará o futebol (mais) desigual, o que é indesejável, nas diferentes praças do planeta.

Infelizmente, esse cenário certamente ocorrerá, pois o dinheiro que há na Europa ocidental, nos EUA e em parte do Oriente Médio (todos abastados) difere de forma gritante do que há nos países de Terceiro Mundo, África e América Latina incluídos.

O VAR, mencionado no começo deste texto, sempre foi para poucos. O cronômetro exibido a todos igualmente o será, a não ser que se ache um meio de expandir rapidamente e de forma confiável a tecnologia. (Você e eu sabemos que não ocorrerá.)

Resumindo: afora a problemática da desigualdade nos campeonatos, que não parecer ter solução, a ideia é ótima, e tomara que venha logo.

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Em tempo: Outras propostas discutidas pelo Ifab e que deverão ser testadas em competições de categorias de base são a cobrança de laterais com os pés (alvo de críticas da mídia especializada) e o árbitro dar explicações de certas decisões no decorrer do jogo, como no futebol americano (adequado, mas, se o objetivo geral é tornar a partida mais ágil, não é o melhor caminho).

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