Propina cobrada de lojistas de Petrópolis, em esquema chefiado por delegado, bancou até festa de fim de ano de policiais, diz MP

O esquema de recolhimento de propina que, segundo o Ministério Público do Rio (MPRJ), era chefiado pelo delegado Maurício Demétrio Afonso Alves, chegou a bancar, conforme relataram testemunhas, uma festa de fim de ano dos policiais que integravam a organização criminosa. Preso na manhã desta quarta-feira, Demétrio é acusado de tentar atrapalhar investigações internas que apuravam o pagamento ilegal feito por comerciantes de Petrópolis, na Região Serrana do Rio, para que não virassem alvo de operações da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), comandada pelo delegado por cerca de três anos, entre o início de 2018 e março de 2021. Durante esse período, de acordo com os promotores, integrantes da especializada cobravam valores periódicos de lojistas que vendiam produtos piratas para que não fossem realizadas apreensões dos materiais irregulares.

A denúncia oferecida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) detalha um episódio ocorrido em 12 de dezembro de 2019, em uma loja na Rua Teresa, principal polo comercial petropolitano. Na ocasião, uma lojista teve uma discussão com Ana Cristine de Amaral Fonseca, também denunciada pelo MP, porque se recusou a pagar a propina exigida por ela para “custear a celebração de final de ano de policiais”. Descrita como uma comerciante local, Ana é apontada pelo MP como uma das intermediárias entre os vendedores obrigados a ingressar no esquema e os agentes da especializada, muitas vezes chegando a recolher ela própria os valores.

O bate-boca entre as duas mulheres foi captado em três arquivos de áudio e vídeo registrados pelo sistema de monitoramento da loja de Rodrigo Ramalho Diniz, mais um que consta entre os denunciados, acusado de exercer o mesmo papel de Ana na quadrilha. Enquanto Ana e a lojista discutiam, as câmeras do estabelecimento flagraram ainda a chegada de um outro lojista, não identificado, que entrega um pagamento de propina em espécie para Rodrigo. No momento do recebimento, Rodrigo chega a apagar as luzes do estabelecimento, de modo a dificultar a visualização da transação. O Gaeco aponta ainda a existência de um terceiro comerciante responsável por fazer a interlocução entre comerciantes e policiais: Alex Sandro Gonçalves Simonete, marido de Ana Cristine.

Delegado Maurício Demétrio chega à sede da Polícia Civil
Delegado Maurício Demétrio chega à sede da Polícia Civil

Segundo a denúncia, Rodrigo, Alex e Ana chegaram a convocar uma reunião com alguns “pirateiros” da região da Rua Teresa. Durante o encontro, os lojistas foram advertidos de que estavam obrigados a pagar R$ 250 semanais, que seria repassados a policiais da DRCPIM, “sob pena de represálias por parte dos agentes públicos, notadamente a apreensão do material vendido”. Uma testemunha contou aos investigadores que, apesar de ter optado por não comparecer à reunião, foi procurada pouco tempo depois por Rodrigo, “que exigiu o pagamento regular do referido valor”. A lojista aquiesceu e entregou o valor por alguns meses, mas acabou desistindo de desembolsar o dinheiro.

Na ocasião, ainda de acordo com os promotores, Rodrigo afirmou que “atuava sob o comando de Ana Cristine” e que a propina era repassada por Alex para Celso de Freitas Guimarães Junior, policial civil que ocupava o posto mais importante abaixo de Demétrio na DRCPIM, citado como homem de confiança e braço direito do delegado no esquema. Celso também está entre os denunciados, assim como outros dois agentes lotados à época na especializada: Vinicius Cabral de Oliveira e Luiz Augusto Nascimento Aloise. Segundo a denúncia, Vinicius tinha “relevante atuação nas operações realizadas como forma de punição e coação dos lojistas”, enquanto Luiz Augusto “também integrava o núcleo operacional”.

A mesma lojista que decidiu deixar o esquema voltou a ser procurada por Rodrigo meses mais tarde, quando estava abrindo uma segunda loja na região. Ela conta ter ouvido que precisaria retomar os pagamentos por conta do novo ponto, mas que novamente se recusou. No dia seguinte, 14 de fevereiro de 2019, a comerciante foi alvo de uma ação da DRCPIM “em que muitas peças foram apreendidas”, conforme consta na denúncia. A mulher foi, então, até a sede da especializada, na Zona Norte da capital, onde um policial, posteriormente reconhecido por foto como Celso, cobrou o retorno dos repasses. Em seguida, após concordar, ela recuperou “praticamente todo o material falsificado que havia sido arrecadado”, exceto “algumas poucas peças dentro de uma bolsa”.

A liberação dos produtos, no entender dos promotores, explicitou a atuação de mais um elemento da quadrilha: o perito criminal José Alexandre Duarte. O Gaeco afirma que ele foi arregimentado para “dar verniz de legalidade” aos materiais falsificados apreendidos e, depois, devolvidos aos comerciantes. “Tal cenário revela o quanto entranhada na estrutura da especializada estava a organização criminosa, a ponto de contar com expert em seus quadros para elaborar laudo pericial materialmente falso”, pontua a denúncia.

Pagamentos feitos por 15 anos

O relato de outras testemunhas também foi fundamental para que os investigadores entendessem o modus operandi da quadrilha. Um comerciante, por exemplo, chegou a afirmar, em um primeiro momento, que “nada sabia sobre o recolhimento de ‘caixinha’ para a DRCPIM”. Na ocasião, ele estava depondo na companhia de um advogado que também viria a defender parte dos agora acusados. Dias depois, contudo, o lojista voltou sozinho e pediu para oferecer um novo relato.

O homem justificou o retorno afirmando “que preferia prestar novas declarações sem o advogado que outrora havia se oferecido para acompanhar o ato”. O defensor, segundo ele, é “muito amigo” do casal Ana Cristine e Alex Sandro. No novo depoimento, o comerciante reconheceu que “vende roupas ‘piratas’ na Rua Teresa há aproximadamente 15 anos, sempre tendo pagado propina para a loja funcionar”. Ele afirmou ainda que, no período mais recente, o valor cobrado era de R$ 250 por semana, mesmo montante citado por outras testemunhas. Segundo o depoente, “o recolhimento era feito em nome dos denunciados Ana e Alex”, e o dinheiro era “remetido para a ‘delegacia do Rio de Janeiro'”, numa referência à DRCPIM.

Em outra ocasião, narrada pelos donos de uma estamparia em Petrópolis que presta serviços a vários lojistas da região, a devolução de telas utilizadas para impressão das roupas foi condicionada à “indicação de ‘uma confecção grande’ para entrar no esquema da propina”. A exigência não foi atendida, ainda conforme consta na denúncia, que frisa o fato de que testemunhas “romperam a barreira do silêncio imposto pelo medo e narraram a existência do esquema espúrio de arrecadação de propina na Rua Teresa”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: