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Presidente da Anvisa defende atuação de fiscal que interrompeu o jogo e nega ‘espetacularização’

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) voltou ao centro do noticiário no último domingo ao interromper a partida entre Brasil e Argentina pelas eliminatórias da Copa do Mundo, após descumprimento da legislação sanitária brasileira por jogadores do país vizinho. Na ocasião, em transmissão feita pela TV Globo, o diretor-presidente da instituição, Antonio Barra Torres, explicou ao comentarista Galvão Bueno a decisão. Em longa entrevista ao GLOBO, na manhã desta quarta-feira (08), o médico defendeu a medida e brincou que imagina que os argentinos não estejam felizes com ele.

Questionado sobre as críticas de que a Anvisa deveria atuar com o mesmo rigor em eventos promovidos pelo presidente Jair Bolsonaro, afirmou que toda denúncia feita à agência contra “quem quer que seja, inclusive o presidente” será tratada e terá “começo, meio e fim”.

Barra afirmou que não conversou sobre a interrupção do jogo com Bolsonaro ou qualquer autoridade do Planalto ou do Ministério da Saúde. O diretor-presidente da Anvisa também afastou as especulações de que sua relação com o presidente esteja estremecida após seus posicionamentos em defesa das medidas sanitárias. Disse porém que quem quer agradar a todos tem que buscar outra função e não um “trabalho ligado à Ciência”.

Durante a conversa, o médico também afirmou que a decisão de ir a Itaquera no domingo foi técnica e nega que a Anvisa tenha tentado “espetacularizar” a situação:

— A Anvisa tem o interesse de continuar no trabalho silencioso que fazia antes da pandemia, porque é muito mais simples, menos desgastante e produz efeitos de maneira mais tranquila para nós. (Não houve) nenhuma intenção de esperar jogo começar para entrar em campo. Absolutamente. É um comentário profundamente infeliz — diz.

Quando o senhor ficou sabendo que haveria interrupção do jogo?

Foi uma decisão em que a questão é tão direta que sequer sobe para avaliação de diretoria. Imagine se cada decisão dessa nos incontáveis aeroportos e portos do Brasil tivesse que haver manifestação da diretoria colegiada, ia ser a coisa mais burocrática do mundo e ineficaz. Então foi uma decisão realmente da fiscalização local. Lógico que diante de tudo que acabou acontecendo na sequência as instâncias superiores foram sendo acionadas, no sentido de tomar conhecimento do que estava acontecendo. E quando chegou no nível de diretoria colegiada e direção-presidência nós demos apoio ao nosso servidor depois de ouvir dele todo relato da situação. Essa questão (da interrupção) ficamos sabendo quando tomamos conhecimento de que os quatros jogadores não se encontravam no hotel e tinham se dirigido ao estádio. No início da tarde de domingo. A interrupção do jogo nunca foi foco da agência. O foco foi: quatro cidadãos estavam descumprindo regras sanitárias sequencialmente. Eles precisavam cumprir. Tudo que daí decorre não era da alçada da Anvisa. Se teriam que botar substitutos, reservas, interromper o jogo, se o time teria que se retirar. Essas ações não fazem parte da esfera sanitária, não temos como opinar sobre isso.

O fiscal teve seu trabalho dificultado?

O que recebi de relato verbal em relação a isso é que tanto a equipe da Anvisa e quanto a Polícia Federal chegam ao estádio, aproximadamente, 60 minutos antes do início (da partida), portanto, algo em torno de 15h. Que é um tempo mais do que suficiente para uma ação ter execução. Então infiro que houve resistência. Não consegui ver completamente as cenas no momento, porque me encontrava atendendo às demandas de imprensa, durante a minha própria fala com o senhor Galvão Bueno não estava diante da tela da TV, mas, depois, vendo as reportagens fica nítido que nosso servidor não foi gentilmente recebido no estádio, conduzido ao árbitro e que o árbitro teve com ele conversa fluída. Havia várias pessoas de terno e gravata e outras sem com linguagem corporal demonstrando algum grau de contrariedade.

Boa parte da população não acompanhava o trabalho da Anvisa, de repente há uma projeção nacional durante um jogo que o Brasil todo estava vendo. Como é esse novo momento para agência?

Por favor, complete a frase: O Brasil é o país do…

Futebol.

Está respondido.

O trabalho da agência ganha uma nova dimensão?

O trabalho é o mesmo que sempre foi, o que ocorre de maneira óbvia é que não havia pandemia e agora há. Hoje em dia há essa palavra “pandemia”, a outra palavra “covid”, e a outra palavra “coronavírus” que são pronunciadas nas redes de comunicação de grande público milhares de vezes no mesmo dia. A Anvisa faz parte do grande tema “saúde no Brasil”. Então, é uma consequência natural, na medida em que há a pandemia, qualquer órgão ligado a nível federal, nacional, ao enfrentamento do problema vai ter uma projeção temporária atrelada à situação mundial. E que tão logo cesse, entendo que voltamos ao mesmo trabalho digno, importante e sério, que era feito antes da pandemia porém sem visibilidade. É o que eu imagino que vá acontecer. O trabalho se intensifica e se avoluma, mas na essência não muda. Ele se atualiza, tivemos que fazer uma série de atualizações e quebras de paradigmas que antes embora contribuíssem muito para solidez aumentavam tempo de análise. Tudo isso foi alterado para melhor. Mas a essência do trabalho regulador em saúde continua a mesma. Recentemente, ouvi a colocação de que o presidente da Anvisa mudou. Fazendo comparação com um evento de março de 2020 em que eu estava no Palácio do Planalto ao lado do senhor presidente, que me convidou. Está sendo colocado que eu mudei depois, eu não mudei absolutamente nada. Quem tem 57 anos e muda, acho que não é estatísticamente frequente nas pessoas que já estão praticamente na sexta década de vida efetuem mudanças. Então, eu também não mudei. As minhas ações que começam na Anvisa em agosto de 2019 e esse evento ocorre em março de 2020 têm a mesma linha de coerência. Se quer repetidamente atrelar meu nome àquele evento. Entendo os motivos e os conheço. Não mudei absolutamente nada. Sou a mesmíssima pessoa daquele dia, como não mudou a essência do trabalho da nossa agência. Sou muito velho para mudar. Sou cachorro velho. Cachorro velho não aprende truque novo.

Mas há a percepção de que houve uma mudança.

Essa percepção é para quem não me conhece. Se você consultar a marinha, onde fiquei 32 anos, eles dirão: não tem uma novidade, não mudou absolutamente nada.

Objetivamente, naquele episódio em março o senhor acabou comparecendo naquele evento e foi criticado…

Eu não compareci a evento. Estava ao telefone com o presidente e decidimos continuar a conversa pessoalmente. Nem ele estava na casa dele, me parece, e eu estava na rua. Aí então (ele diz): vou ao Palácio do Planalto, e eu (digo): estou perto, passo lá. Não estava de verde e amarelo, não carreguei cartaz. “Ah, mas estava sem máscara”. Sim, a torcida do Flamengo, do Corinthians você via sem máscara, porque naquela época ainda não havia essa questão. Se olharem as filmagens nas quais apareço, e são várias, estou distanciado. Exceto no momento final que fiquei lado a lado ao presidente, cumprimentei com o cotovelo, enfim… Mas sempre se quer voltar àquela época e sempre citando a questão da máscara, o que é uma maldade porque é só consultar regramento daquela época e não estava previsto isso naquela época. Não havia nem a questão das informações que depois vieram falando fortemente a favor inclusive da máscara de pano. Mas há sempre essa referência, como talvez haja agora a referência de “ah, aquele que esteve em março com presidente no Palácio do Planalto e que também interrompeu o jogo com a Argentina…” E, detalhe: não foi o dr. Barra que interrompeu o jogo com a Argentina, não foi a diretoria colegiada. Foi uma açãode fiscalização no nível aeroporto, que cumpriu com seu dever com grande coragem física e moral, mas talvez agora, além da questão lá, haja essa outra situação.

Após a medida da Anvisa no jogo, o presidente Jair Bolsonaro chegou a te ligar? Vocês conversaram sobre isso?

Estive com o presidente ontem (terça-feira) na cerimônia de hasteamento da bandeira (no Palácio da Alvorada). A Presidência da Anvisa foi convidada pelo cerimonial da Presidência para estar lá. Conversamos muito rapidamente, basicamente um cumprimento, mas não tratamos desse assunto de maneira nenhuma. Recebi muitos cumprimentos em nome da Anvisa pela atuação diante das infrações cometidas, mas com o presidente propriamente não. Até porque ele era o anfitrião do evento e aí tem que ficar recebendo um monte de gente.

Mas no dia da interrupção da partida ou depois, por telefone, em algum momento falaram sobre isso?

Não.

E com nenhuma outra pessoa do Ministério da Saúde ou do Planalto?

Eu tive contato com a Polícia Federal no domingo. Não para solicitar o apoio, porque isso foi solicitado através de documento oficial, mas a gente gosta de pegar o telefone e reforçar. Então tive contato com delegados da PF daqui de Brasília por telefone naquela manhã. (Mas do Planalto) não. Tivemos manifestações públicas de apoio do parlamento. O senador Romário (PL) publicou um cumprimento. Pessoalmente na cerimônia tive vários cumprimentos também.

Como você avalia a postura da delegação da Argentina?

Eu não vou focar essa análise, porque não tenho absolutamente nada contra a Argentina ou aos argentinos. Nem contra o futebol. Em relação à delegação argentina não teço críticas, acho que cada um deve formar seu juízo. O que eu vejo é: qual o tema importante realmente? É o futebol. A quantidade de demandas que recebemos por conta desse evento está atrelada ao futebol, é desproporcional a inúmeras outras situações que já aconteceram de grande relevância no enfrentamento da pandemia em um país que tem quase 600 mil mortos. Traduzindo em miúdos: se não fosse um jogo de futebol entre Brasil e Argentina, se fosse um jogo de cricket, ou de xadrez, ou de water polo, será que teríamos a mesma questão? Se a infração sanitária fosse a mesma, o número de infratores o mesmo, as tentativas de burlar o sistema as mesmas, entretanto um outro esporte? É claro que não teria essa repercussão. Cansei de assistir depois às mais ferozes críticas, inclusive dos comentaristas de futebol. Um documento formal de três ministérios (Saúde, Casa Civil e Justiça) para defender seus cidadãos é ludibriado, inclusive com indícios de falsificação, com não acatamento de uma orientação de permanecer no hotel. (Os jogadores) desobedecem e vão ao treino. Do treino vão ao campo, do campo vão ao jogo, no jogo um tempo ainda com tergiversações. Parece que esse foi o grande problema e não os quase 600 mil mortos; a variante Delta… Alguns questionaram:” Por que a Anvisa fez isso? É uma tentativa de espetacularização.” A Anvisa tem o interesse de continuar no trabalho silencioso que fazia antes da pandemia, porque é muito mais simples, menos desgastante e produz efeitos de maneira mais tranquila para nós. (Não houve) nenhuma intenção de esperar jogo começar para entrar em campo. Absolutamente. É um comentário profundamente infeliz.

Ao mesmo tempo que houve elogios à atuação da Anvisa, também houve questionamento em relação à atuação da agência, por exemplo, em aglomerações e eventos convocados pelo presidente Jair Bolsonaro. Qual sua visão sobre essas críticas?

A Anvisa trabalha com denúncias, tirando as áreas em que é presente de ofício. Ela é presente de ofício em portos, aeroportos e fronteiras. Ela está lá. Então, tirando essas áreas não temos presença física e aí o trabalho é feito por denúncia recebida. Toda denúncia recebida aqui sobre quem quer que seja, inclusive o presidente, tem tratamento. Tem começo, meio e fim. Agora, não faremos espetacularização, absolutamente. Do mesmo jeito que digo que não foi espetacularização em relação ao jogo. Chegou aqui uma denúncia de que houve descumprimento, vamos atuar sem nenhum problema. Como, aliás, temos atuado. O trabalho é o mesmo e ele não se flexiona em função de estar com ibope ou não estar com ibope. Até porque ninguém é candidato a cargo eletivo. Nesse imenso Brasil temos as vigilâncias sanitárias dos 5570 municípios e as estaduais também. Então essa mesma pergunta deve ser abrangente com essas entidades. A Anvisa não tem como atribuição ser onipresente no Brasil inteiro desta maneira que você está falando.

O senhor compareceu às manifestações de 7 de setembro?

Eu fui na cerimônia cívica do hasteamento da bandeira. Depois voltei para o flat em que fico em Brasília.

Como está sua relação com o presidente? Vocês se falam com muita frequência?

A relação está normal. Nunca nos falamos com muita frequência, porque ele é muito ocupado e eu também. Mas a relação está normal. Todo mundo comentou “depois da CPI, só não foi demitido porque tinha mandato”. Olha, eu nunca vou saber, porque de fato eu tenho mandato (ri). Mas eu diria que a relação encontra-se normal. Nós nunca nos falamos toda semana. Houve algumas semanas em que tive que despachar algum assunto mais proximamente. Isso tornou-se menos necessário, aconteceu mais no início do enfrentamento à pandemia, hoje eu acho que esse enfrentamento já se encontra em uma fase mais serena. Então, até por conta disso, não tenho mais tanto (contato) como antes. Mas sempre com respeito, educação e amizade. Considero um amigo pessoal e as amizades precisam ser regadas com o que rega qualquer amizade, que é o contato, proximidade, rir junto, conversar, coisa que não tem sido muito simples de fazer atualmente.

O senhor citou episódio do seu depoimento à CPI e sabe-se que sua fala gerou desconforto no Planalto. O que aconteceu depois disso?

Não falei nada que o presidente não soubesse. Se rememorar uma live em que o convidei para se vacinar, eu estava de máscara e ele sem. Então, não teve nenhuma novidade que ele não soubesse.Eu nunca defendi não usar máscara, nunca defendi aglomeração, nunca defendi não tomar vacina. Tudo isso ele já sabia.



O senhor soube qual foi a impressão do presidente sobre a interrupção do jogo?



Entendo que se fosse ruim ou efusivamente boa, ele não mandaria recado, ele próprio se manifestaria. Ele é um homem que gosta de futebol, ele entende de futebol e eu não sou grande conhecedor, então não tem esse assunto (entre nós). Infiro que naquele dia ele estava esperando para ver o jogo e não conseguiu ver (ri). Mas é o que eu sempre digo, o assessor do presidente para assuntos de saúde é o ministro da Saúde e não o presidente da Anvisa. E naquele domingo o ministro da Saúde recebeu o tal pedido de excepcionalidade e indeferiu. Então acredito que tenha havido algum contato entre eles. Inclusive eu estava na cerimônia do hasteamento da bandeira, que foi posterior. Acredito que se houvesse alguma rusga do mesmo jeito que você é convidado pode ser desconvidado. Interpretei (o convite) até como um reconhecimento pelo trabalho da agência. Nós recebemos a ordem nacional do mérito médico recentemente pós-CPI. Então tenho sinalizações diretas que me levam a crer que está tudo bem. Em relação ao presidente, continua tudo bem, porque é uma conversa muito direta.



Todos que adotaram uma postura de defesa da ciência acabaram alijados pelo presidente, mas o senhor, ao que parece, não. Qual o segredo?



Eu não sei. Sou muito transparente no que faço, na forma de pensar e de agir. Talvez ele identifique em mim uma sinceridade. Não tem um subterfúgio de estar fazendo uma coisa para conseguir outra. Isso talvez seja um fator. Nunca conversamos a esse respeito porque nunca vi na pessoa do presidente em relação a mim uma linguagem de contrariedade a ponto de eu chegar e perguntar: “presidente, está tendo algum problema? O senhor está aborrecido comigo?” Mas todas as ações que a Anvisa empreendeu até em questões que numa análise rápida pudessem levar a crer uma contrariedade por parte do presidente, creio que o decurso mostrou que a Anvisa estava correta. E não correta politicamente, mas sim sanitariamente, fazendo o que tinha que fazer. Então acho que isso ao longo do tempo passa comprovação de que se, por ventura, alguma coisa que a gente faça não seja do agrado, logo depois se comprova que fizemos o certo. Penso que isso possa influenciar também. Mas eu não fico perdendo tempo, nem um minuto, com reflexões dessa natureza. Tem uma frase do Roberto Carlos, que aliás é o rei e um artista excepcional, que diz: “Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar”. É o refrão. Eu não sou o Roberto Carlos para querer ter um milhão de amigos. Então, eu busco fazer o que é certo. Então se agradou ou não agradou, paciência. Tenho que fazer o que é certo. Seguramente tem hoje uma legião de pessoas, irmãos nossos da nossa querida argentina que não estão felizes comigo. Faz parte. Se for para buscar isso, tem que tentar outro tipo de trabalho que não um trabalho ligado à ciência.

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