Prefeitura impediu desfile de bloco não oficial; mais de 150 ‘mijões’ já foram multados

Desfile do bloco Maria Vem Com as Outras em 2019 Foto: Caio Victor Desde janeiro, 20 blocos não oficiais já foram punidos pela Prefeitura do Rio por desfilarem no carnaval 2020. O valor da multa, aplicado no CPF dos organizadores dos cortejos, é calculado a partir da quantidade de lixo produzido pelos foliões. Mas essa não tem sido a única preocupação entre os responsáveis pelos blocos: no último sábado (15), por exemplo, um bloco não autorizado foi impedido de desfilar por guardas municipais e policiais militares. É o que conta uma integrante do Maria Vem com as Outras, que há quatro anos se apresenta nos arredores da Praça Tiradentes, no Centro.

A Policia Militar e a Guarda Municipal foram procuradas, mas ainda não se manifestaram sobre o ocorrido.

No dia seguinte, também na Praça Tiradentes, agentes da prefeitura descartaram o gelo e confiscaram latas de cerveja que seriam distribuídas aos músicos do Cordão do Boitatá. O caso foi contado pelo colunista Ancelmo Gois. Assim como nos cortejos passados, a bebida estava em uma Kombi onde três senhoras preparavam lanches e gelavam a bebida para os integrantes do bloco. A justificativa dos funcionários do governo era de que não era permitido comercializar bebidas ali.

Já na Praia do Flamengo, o Carimbloco foi impedido de usar o equipamento de som. Segundo os organizadores, agentes da Guarda Municipal ameaçaram apreender microfones e caixas de som, e o bloco — que reuniu cerca de 800 pessoas — preferiu não utilizá-los e recolhê-los. O cortejo seguiu sem incidentes e sem a aplificação dos instrumentos.

— Não queremos virar produtores de evento. Só gostaríamos de expressar nossa cultura durante o pré-carnaval no Rio. Apesar da falta do equipamento de som, o desfile foi lindo. A interação com o público acabou sendo ainda melhor — conta o mestre e fundador do bloco, Silvan Galvão, que pretende no próximo ano entrar com pedido de autorização na prefeitura.

Procurada, a Guarda Municipal informou que nenhum agente participou da ação na Praia do Flamengo.

Enquanto alguns enfrentam repressão na hora do cortejo, outros têm dificuldades antes mesmo do desfile. O Bloco de Segunda, que há 33 anos percorre as ruas Marquês, Voluntários da Pátria e São Clemente, em Botafogo, no mesmo dia e hora, precisou mudar de horário por determinação da Riotur. 

— Quando fomos fazer a inscrição do bloco para ser autorizado, foi imposta a condição que a gente tocasse pela manhã e não à tarde, como era de costume. Nunca teve nenhum problema com nossa apresentação, sempre foi tudo em família, entre amigos, agora as coisas apertaram — lamenta Lídia Pena, uma das fundadoras do bloco que pela primeira vez não terá carro de som por questões financeiras.

No último fim de semana, cinco blocos não autorizados foram multados pela prefeitura. Entre eles está o Trombetas Cósmicas e o Tambores de Olokun, que se apresentaram domingo, no Flamengo.

As multas variam principalmente de acordo com a quantidade de lixo recolhido, mas levam em conta também o número de pessoal destacado pela Comlurb para realizar a limpeza, bem como a quantidade de equipamentos usados (caminhão, carro-pipa etc). Segundo a companhia, os valores começam em R$ 1.322,97 para até um metro cúbico de lixo, que correspondente a dez sacos de 100 litros.

Os organizadores dos blocos são localizados ainda durante os desfiles por funcionários da prefeitura e, por meio do CPF, multados através de um processo semelhante ao do Lixo Zero, que prevê multa de até R$ 3 mil para quem descartar lixo irregularmente nas áreas públicas da cidade. De acordo com a Secretaria de Eventos, a identificação dos organizadores dos cortejos é facilitada pelo fato de a maioria ter iniciado o processo de cadastramento no sistema da Riotur. Já os organizadores dos blocos que nunca passaram por esse passo a passo de regularização já estão sendo identificados pelo setor de Inteligência da Secretaria Municipal de Ordem Pública.

Nesta terça-feira (18), o coletivo Desliga dos Blocos publicou uma nota em sua página em uma rede social repudiando os atos da prefeitura no último fim de semana, o que classificou como “censura”.

“Pequenos blocos foram impedidos à força de sair. O motivo alegado foi a falta de licença, mas na verdade o que vemos é a censura desse prefeito a tudo que não coadune com suas crenças políticas e religiosas. E definitivamente o povo na rua, alegre, celebrando a sua cultura está incluído. Chegou-se ao cúmulo de se utilizar, por vezes, mais agentes de segurança do que foliões que só estavam pensando em brincar seu carnaval”, diz um trecho da nota.

Mais de 150 ‘mijões’ multados

Em apenas duas semanas de cortejos de rua, 156 pessoas foram multadas por urinar em vias públicas. Apesar de o pré-carnaval já estar reunindo multidões desde meados de janeiro, guardas municipais da operação Lixo Zero só começaram a fiscalizar blocos no último dia 8. O maior número de “mijões” foi registrado no Desliga da Justiça (47), na Gávea, e no Bloco da Preta (29), no Centro. A multa é de R$ 607,54.

De acordo com a Riotur, 32.536 banheiros estarão disponíveis durante o carnaval de rua, entre banheiros químicos e contêineres distribuídos de forma proporcional de acordo com a expectativa de público informada pelo bloco.

Segundo a Comlurb, que compila os números da Lixo Zero, 44 pessoas também foram multadas durante blocos de rua por descarte irregular de lixo, no valor de R$ 221,75. A maior parte das multas foi aplicada no Bloco da Preta (11), na Banda de Ipanema, no Carnaval Square e no Simpatia é Quase Amor, onde seis pessoas foram multadas. 

No MetrôRio, que no ano passado registrou 14 “mijões” em vagões e estações, informou que até o momento nenhum passageiro-folião foi flagrado urinando em local inapropriado. No entanto, durante os eventos de pré-carnaval, 22 casos de vandalismo já foram registrados pela concessionária, como quebra de validadores e de uma escada rolante, a destruição de vidros de janelas e portas e até o furto de uma placa de ferro de uma escada rolante. 

Serviço

Quem for multado na operação Lixo Zero deve emitir, pela internet, em até 30 dias, o auto de infração e o boleto para pagamento. Os recursos devem ser protocolados presencialmente na sede da Comlurb, na Rua Major Ávila, na Tijuca. É importante lembrar que multas não pagas podem fazer o nome do contribuinte ser protestado e inscrito no Serasa.

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