Ponte de Pedra: parte da história de Niterói é revelada por voluntários do Parnit

Monumento, construído por africanos escravizados na década de 1830, integra a Trilha Colonial e recebe a chancela da Secretaria de Meio Ambiente da cidade

A remoção de 52 metros cúbicos de terra, que se acumularam por décadas, revelou uma verdadeira joia do patrimônio histórico dentro do Parque Natural Municipal de Niterói (Parnit): a Ponte de Pedra, construída por africanos escravizados, localizada na Trilha Colonial, que também foi passagem de indígenas e mercadores no período colonial. O trabalho de escavação foi realizado durante quatro meses, de forma independente, por um grupo de cinco voluntários que atuam no parque. Para reconhecer o trabalho que os voluntários realizaram, devolvendo para a cidade um pedaço importante da sua história, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Sustentabilidade (SMARHS) irá instalar uma placa para marcar a ação de resgate do monumento.

A placa, além de marcar um dos eventos da Semana do Meio Ambiente, pretende chamar a atenção para um período da história da cidade e manter viva a memória dos anônimos escravizados que a construíram, valorizando o legado que deixaram para a história do município. No dia 5 de junho, também será lançado um vídeo sobre a trilha e a ponte apresentando oficialmente o local para moradores da cidade.

“Com a entrega desse patrimônio para os niteroienses, nosso objetivo será unir esforços para aprofundar o estudo sobre o passado daquela região. É importante atuarmos para integrar o olhar ambiental ao histórico”, explica o secretário Rafael Robertson.

A pesquisa mostra que o local remonta ao cotidiano da região entre a Serra da Barra de Piratininga, de um lado, e o Morro da Viração do outro, onde ocorria a ligação entre as antigas freguesias rurais de Nossa Senhora de Bonsucesso de Piratininga e de São Sebastião de Itaipu, com as demais freguesias do Recôncavo da Guanabara até o final do século XIX. Revela mais um recanto bucólico da cidade que tem que ser preservado.

Até dezembro de 2020, somente uma pequena área da Ponte de Pedra era visível. Com o monumento revelado pelos voluntários, andar pela Trilha Colonial deixa de ser apenas uma possibilidade de contato com a natureza. É também uma verdadeira viagem no tempo que se confunde com a história do Brasil, pelo caminho que era usado para o escoamento da cana de açúcar e do café que saíam das fazendas situadas onde hoje fica a Região Oceânica de Niterói em direção ao Porto do Rio. As mercadorias eram levadas em carros de boi ou carregadas por escravos.

Profundo conhecedor das trilhas da cidade, o gerente de vendas aposentado e montanhista Ezequiel Vicente Gongora, o Ziki, 73 anos, foi quem teve a ideia de fazer a escavação de toda a Ponte de Pedra. Ao lado de quatro amigos, também voluntários, removeram a terra e o mato que encobriam a edificação e revitalizaram todo o seu entorno e o mirante de pedras naturais que descortina uma bela vista da Lagoa de Piratininga. Após os 30 minutos de caminhada na trilha, chega-se a uma espécie de oásis no meio da mata.

O doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF), professor Henrique Barahona, se juntou ao grupo de voluntários para contar essa história. Ele explica que a Ponte de Pedra e o caminho que leva até ela têm vocação para integrar o conjunto do Patrimônio Histórico de Niterói.

“Essas artérias conectavam as aldeias e acampamentos dos dois lados do maciço, a mais próxima em São Francisco, quando ali chegaram os primeiros colonizadores portugueses para a montagem dos seus engenhos de açúcar, com destaque para o Engenho da Piratininga, ainda no início do século XVII. Da Ponte de Pedra ainda é possível ver a igreja de Nossa Senhora de Bonsucesso, num outeiro que ficava outrora às margens da lagoa homônima, compondo a paisagem cultural do lugar e que ainda está preservada”, disse.

Henrique conta que, por aquelas estradas, passaram primeiro os indígenas, depois os africanos escravizados, que construíram a Ponte de Pedra, e os mercadores.

“As estradas eram necessárias para romper a íngreme Serra da Barra de Piratininga, até descerem pela Viração e chegarem às águas calmas da Baía de Guanabara, e vice-versa. Pelo trajeto, grotas e córregos precisavam ser vencidos para que o gado e os carros com o açúcar e depois o café pudessem trafegar com mais rapidez e segurança. Por isso, a construção da Ponte de Pedra sobre um regato que brota ao lado, onde ela está desde pelo menos a década de 1830, e também a pavimentação de pedras encontradas em algumas partes da Trilha Colonial. Sem falar que aquele não era apenas um lugar de passagem, já que várias famílias moravam e cultivavam as terras na Serra da Barra, Imbuhy e Viração”, explica.

Guardiões da Ponte de Pedra – O primeiro encontro de Ezequiel Vicente Gongora, o Ziki, com a Ponte de Pedra foi há quatro anos. Montanhista experiente e voluntário do meio ambiente desde a década de 1970, ele conhece com a palma da mão todas as trilhas de Niterói. No entanto, quando fazia a Trilha Colonial ficava intrigado com a edificação. Sabia que ela tinha muita história para contar.

“Até que um dia conversei com outros voluntários e decidimos que iríamos escavar e revelar toda a ponte. Em dezembro do ano passado, começamos a tirar toda a terra e o mato, num trabalho braçal que fazíamos duas vezes por semana”, explica.

E foi assim que Ziki e os amigos Fábio José Uzeda, (51); Luciano Cunha (57); Lucas de Vargas Ribeiro (35); e José Francisco Marques (65) desenterraram a ponte e resolveram transformar o lugar num marco dentro do Parnit. Além da escavação, o grupo revitalizou o entorno da ponte: eles canalizaram a água do antigo rio que passava pelo local, fizeram canteiros com bromélias e abriram o mirante em cima das pedras, que antes tinha uma densa vegetação que encobria a vista da Lagoa de Piratininga.

O grupo também cuida da Trilha Colonial, mantendo o caminho acessível para qualquer pessoa, com a retirada de galhos, troncos e espécies invasoras, como a Zebrina ou “orelhinha de rato”. Na Ponte de Pedra, Ziki e os amigos fizeram um pequeno memorial em homenagem aos africanos escravizados que construíram a Ponte de Pedra.

“Fizemos todo esse trabalho por amor à natureza e para que a população de Niterói conheça uma parte da história da cidade que ficou coberta de terra e mato por décadas”, afirma Ziki, que vai todos os dias ao local.

O encontro de Ziki com o professor Henrique Barahona foi uma feliz coincidência. O montanhista sabia que era importante a presença de um especialista para ajudar a contar a história da ponte. Já Barahona é apaixonado pela ocupação histórica e a dinâmica social daquela região e começou a pesquisar documentos antigos sobre o tema após conhecer a comunidade originária da Aldeia Imbuhy.

“Eu fiquei sabendo sobre o trabalho do Ziki na Ponte de Pedra por um amigo em comum. Tem tudo a ver com a pesquisa que eu faço sobre a ocupação daquela região e para mim é um orgulho participar deste estudo e contribuir para revelar para os niteroienses uma parte importante da história da cidade”, afirma Barahona.

Como chegar – O acesso à Ponte de Pedra é feito pela Trilha Colonial, uma caminhada que dura 30 minutos e percorre 1,3 quilômetro. A trilha tem como referência o portão de entrada para o Parque da Cidade, sede do Parnit, localizado na Estrada Nossa Senhora de Lourdes, s/nº, em Charitas, Zona Sul de Niterói.

A Colonial é uma trilha sinalizada considerada fácil, com poucas bifurcações e caminho bem definido.

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