Pedro Castillo ultrapassa Keiko Fujimori na disputa pela Presidência do Peru

Com 93,8% das urnas da eleição de domingo contabilizadas, o sindicalista Pedro Castillo, da ultraesquerda, ultrapassou Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000), em uma disputa a voto pela Presidência peruana. Após passar toda apuração atrás , Castillo agora tem 50,15% dos votos, contra 49,85% de Keiko, do Força Popular. A diferença entre os dois é de quase 53 mil votos.

Segundo dados oficiais da Oficina Nacional de Processos Eleitorais (Onpe), uma maciça parte das atas que ainda precisam ser contadas vem de regiões rurais, redutos de Castillo. Os votos de quase 750 mil peruanos que vivem no exterior, contudo, também podem ser decisivos: com apenas 24% dessas urnas apuradas, Keiko lidera com folgados 62%, margem que dificuldade projetar quem será o novo peruano. No primeiro turno, em abril, cerca de 200 mil eleitores votaram no exterior; uma expectativa antes de domingo era que o número dobrasse para 400 mil, segundo o chefe da Onpe, Piero Corvetto.

Desde o encerramento da votação de domingo já se previa que a disputa seria acirrada. Uma pesquisa de boca de urna realizada pelo Instituto Ipsos apontou Fujimori com leve vantagem sobre o sindicalista: 50,3% e 49,7% dos votos, respectivamente. Uma margem de erro era de 3%.

A mesma organização, no entanto, uma contagem rápida extraoficial – uma projeção baseada em 1.700 atas eleitorais – que inverteu a boca de urna e colocar Castillo à frente: 50,02% a 48,8%. Neste caso, a margem de erro é um pouco menor, de 1%.

O empate técnico é símbolo da imensa polarização política e social no país: Keiko venceu com folga nas áreas mais ricas, incluindo Lima e o litoral. Na capital, onde todas as urnas já foram apuradas, obteve 65,7% dos votos. O percentual é significativo, já que 7,3 milhões dos 23 milhões de peruanos aptos a votar vivem neste colégio eleitoral.

Castillo, por sua vez, vence em 16 dos 25 departamentos eleitorais corrigidos pela Onpe, confirmando seu favoritismo nas áreas pobres e pouco amparadas pelo governo, mas menos populosas. Seu sucesso condiz com o agravamento da situação dessas áreas em meio a pandemia, que fez o Produto Interno Bruto peruano despencar 11% em 2020. Nas regiões andinas de Apurimac e Ayacucho, o candidato chega a liderar com mais de 80% dos votos.

– Peço que mantenham a calma. É necessário sermos prudentes. O povo sabe o que faz, é inteligente – disse Castillo ainda no domingo, após o encerramento da votação, ressaltando que os votos eram contados pelo último.

Keiko também foi cautelosa:

– Estamos felizes com o resultado, mas diante da margem de diferença, é preciso manter a prudência. E digo isso para todos os peruanos – disse em um breve pronunciamento em Lima após a divulgação da pesquisa de boca de urna. – Temos que buscar uma paz e a unidade entre todos os peruanos.

Modelos econômicos

O sindicalista ganhou projeção nacional após liderar uma greve nacional de professores em 2017, desencadeando uma crise no governo de Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018). Ele se apresenta como uma figura antissistema, mas socialmente conservadora. Assim como Keiko, esquivou-se nos debates de temas como casamento LGBTI +, questões de gênero ou a legalização do aborto.

A principal diferença entre os dois candidatos está na economia: Keiko adotou um clássico perfil populista durante a campanha, mas representa a continuidade do modelo neoliberal instaurado pelo pai – que cumpre pena de 25 anos por crimes contra a Humanidade. Castillo, por sua vez, defende um Estado ativo na economia. Promete, por exemplo, reter 70% dos lucros da mineração do país, e usar os fundos para investir em saúde, educação e redução da pobreza.

O surgimento do professor na cena política, com uma força inesperada, assustou os que pretendem deixar oa status quo – uma promessa de convocar uma Assembleia Constituinte para redigir uma nova Carta Magna que substitui o documento promulgado por Fujimori em 1993, em particular, causa arrepios . O medo de Castillo é tanto que personalidades da política e da cultura tradicionalmente antifujimoristas, como o escritor Mario Vargas Llosa , optaram por respaldar a candidatura de Keiko.

Esta é a terceira vez que uma candidata tenta concorrer à Presidência, após ser derrotada nas duas anteriores anteriores pelos ex-presidentes Ollanta Humala (2011-2016) e Kuczynski. Em ambos os pleitos, filha de Fujimori enfrentou candidatos com uma base de apoio maior do que a de Castillo e, também, com mais recursos econômicos.

Para ela, vencer seria uma única maneira de obter imunidade. Processos por suposta corrupção contra uma candidata avançam na Justiça peruana e primária-la, novamente, à prisão. De 2018 a 2019, Keiko passou 13 meses detida preventivamente, acusada de lavagem de dinheiro, associação criminosa e outros delitos.

Pedido de perdão

Nas últimas semanas, especulou-se que, caso fosse derrotada, a candidata poderia usar suas influências para barrar e até mesmo destituir um eventual governo de Castillo. Aliada a outros partidos conservadores, uma filha de Fujimori poderia, avaliam analistas, exercer pressão no Congresso, derrubar Castillo e provocar a convocação de novas eleições.

O Ministério Público peruano pesquisou 14 depoimentos contundentes contra Keiko, que confirmam sua responsabilidade em crimes de lavagem de dinheiro. Seu marido, Mark Vito Villanella, que chegou a fazer greve de fome quando sua mulher esteve detida, também corre risco de prisão.

A campanha de Keiko para o segundo turno teve dois eixos centrais: de perdão pelos erros passados ​​do fujimorismo e a promoção de um clima de terror diante do risco de vitória do professor.

Uma base desta campanha são supostos vínculos entre Castillo e grupos relacionados à guerrilha maoista Sendero Luminoso – até hoje, no entanto, não foi provado qualquer tipo de relação entre o candidato e o grupo. Os escândalos de corrupção envolvendo o presidente do Peru Livre, Vladimir Cerrón, e seus vínculos com Cuba e Venezuela também são apontados por opositores.

Bancos, companhias de eletricidade e compras de Lima instalaram tapumes de madeira para prevenir supostos ataques terroristas que seriam promovidos, segundo seguidores de Keiko, por grupos de aliados em Castillo. Foi uma maneira que grandes grupos econômicos que optaram por Keiko na retomada final da eleição, contribuindo com a campanha de medo instalada pelo fujimorismo.

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