Para salvar o Rio Guandu é necessário investir R$ 1,4 bilhão até 2042, estima planejamento

Rio Guandu nesta quarta-feira Foto: Brenno Carvalho / Agência O GLOBO

O verde intenso do Rio Guandu, que tinge todo o sistema de captação de água da Cedae, vem do forte despejo de esgoto in natura no manancial. Somente os municípios de Nova Iguaçu e Queimados, seus principais poluentes, despejam diariamente 56 milhões de litros de matéria orgânica por meio de três afluentes, os rios Poços, Ipiranga e Queimados. É como se 22 piscinas olímpicas cheias de sujeira fossem colocadas ali todos os dias. Segundo a engenheira ambiental Daiana Gineleti, um plano elaborado pelo Comitê do Guandu (do qual faz parte, ao lado de outros representantes da sociedade civil e do poder público) estima que é necessário um investimento de R$ 1,4 bilhão só para o saneamento da região, o que exigiria obras até 2042.

Para resolver o problema da falta de saneamento em Nova Iguaçu e Queimados, o poder público teria que investir R$ 776 milhões. Não há, no momento, qualquer obra prevista.

— Historicamente, os municípios no entorno da Bacia do Guandu cresceram sem planejamento. O despejo irregular de esgoto é um dos resultados dessa expansão. É claro que isso se reflete também no gasto que a Cedae tem para tratar a água — explica a engenheira ambiental.

Para se ter uma ideia, em Queimados, apenas 3,4% do esgoto é tratado e, em Nova Iguaçu, 35,7%. O Plano Estratégico de Recursos Hídricos do Comitê da Bacia Hidrográfica do Guandu, elaborado em 2018, também prevê, além de R$ 1,4 bilhão, a destinação de R$ 158 milhões para restauração e conservação de áreas verdes e R$ 340 milhões para ações voltadas ao abastecimento de água.

Recursos escassos

Dos investimentos necessários, apenas uma pequena parte já conta com estudos prontos para licitação. Os recursos, no entanto, são escassos. A Agência Nacional de Águas (ANA) avaliou, em 2017, que o Estado do Rio teria de aplicar cerca de R$ 11 bilhões para universalizar o tratamento de esgoto até 2035. O estudo mais recente foi elaborado pelo BNDES, que fez a modelagem para a venda de Cedae.

No projeto, o banco estipula a necessidade de um investimento de R$ 32,5 bilhões em todo o sistema da empresa, sendo que R$ 20,7 bilhões seriam apenas para infraestrutura, incluindo gastos com elevatórias e substituição e implantação de redes coletoras. Dessa forma, a Cedae chegaria a uma cobertura de 90% no tratamento de esgoto.

Nesta quarta-feira, o governador Wilson Witzel admitiu não ter recursos para arcar com as obras que poderiam evitar problemas como o da contaminação da água da Cedae por geosmina, substância produzida pela proliferação de algas que, desde o início do ano, tem provocado queixas de consumidores no Rio. Especialistas já alertaram que a presença da geosmina não explica a coloração escura da água em alguns pontos da rede, o que pode estar relacionado à alta concentração de esgoto no Rio Guandu. Witzel disse que a solução definitiva passa, obrigatoriamente, pela privatização da companhia, e adiantou que o detalhamento do processo será divulgado em fevereiro:

— A questão não se resolve sem investimentos, que virão com o leilão da Cedae.

O plano estratégico do Guandu lista oito agendas prioritárias e 40 programas que exigiriam R$ 2,2 bilhões. O estudo aponta que o rio “encontra-se em situação vulnerável em relação à qualidade e à sua proteção no local de captação”, pois “o Queimados e o Ipiranga são extremamente poluídos”. Além dos despejos de esgoto domiciliar, foi destacado o risco de acidentes com lixo industrial, já que a região teve recente incremento da atividade por meio do polo de Queimados.

Fundo não resolve

A Bacia do Guandu conta com investimentos de cerca R$ 30 milhões por ano, arrecadados de empresas que usam a água do rio e fazem pagamentos ao Fundo Estadual de Recursos Hídricos, mantido pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Além de custear projetos, a verba é usada para educação ambiental e reflorestamento. Em relação à necessidade de obras de infraestrutura, só foram liberados R$ 17 milhões para a construção de uma estação de tratamento em Piraí. A obra deve começar este ano.

O presidente executivo do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, diz que o problema do Rio de Janeiro é semelhante ao de outros estados:

— Houve investimentos para universalizar a oferta de água, mas não de esgoto tratado. Entre as regiões mais críticas, estão justamente as cidades da Baixada, que acabam poluindo o Guandu.

De acordo com o último balanço da Cedae, de 2018, apenas 36,82% dos imóveis dos 64 municípios cobertos pela empresa no estado são conectados à rede de esgoto.

Professor de recursos hídricos da Coppe/UFRJ, Paulo Canedo classifica a situação do saneamento básico como “vergonha nacional”. Ele diz que, hoje, a prioridade deveria ser a despoluição dos rios Poços, Queimados e Ipiranga.

Adacto Ottoni, professor de engenharia sanitária da Uerj, alerta que é cada vez maior o risco de a Cedae não conseguir tratar a água, tamanho o aumento da poluição:

— O problema principal é a falta de saneamento. Temos que priorizar a recuperação dos mananciais para dar segurança hídrica à população. Em Nova York, fizeram essa escolha e hoje a população de lá bebe água da torneira.

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