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Oficiais da PM podem estar por trás de comércio ilegal de cigarros na Pavuna

Cigarros falsificados apreendidos em operação na Feira da Pavuna

Uma investigação sobre um atentado a um inspetor da 39ª DP (Pavuna) revelou laços de um grupo, incluindo oficiais da PM, com o mercado clandestino de cigarros. A emboscada foi motivada pela insatisfação de um grupo de PMs com investigações conduzidas pelo inspetor sobre o comércio de cigarros ilegais na Feira da Pavuna, na Zona Norte. Em dezembro passado, cinco praças foram presos como executores do crime. Documentos obtidos pelo Jornal EXTRA revelam que a investigação também encontrou provas da participação de oficiais egressos do Batalhão de Polícia Rodoviária (BPRV).

O atentado aconteceu em abril do ano passado. O policial civil Bruno Rodrigues chegava em casa, em Vila Valqueire, na Zona Oeste do Rio, quando foi interceptado por um carro ocupado por três praças da PM, que atiraram mais de 20 vezes. O agente foi baleado na perna, mas reagiu e conseguiu sobreviver.

Dados armazenados na nuvem do e-mail de um dos praças presos sob a acusação de ser um dos executores do crime mostram que dois oficiais do BPRV participaram do planejamento da execução: o capitão Thiago Moraes de Souza, então chefe de operações do batalhão, e o tenente Pedro Augusto Nunes Barbosa. Segundo o relatório da investigação que levou os praças à cadeia, Souza foi o criador de um grupo no WhatsApp usado para monitorar os passos do policial antes do crime.

Além de Souza, integravam o grupo o tenente Barbosa e dois praças acusados de estarem no carro que emboscou a vítima, o cabo Sérgio Basile e o sargento Joamilton Ribeiro. Os quatro agentes são egressos do BPRV, onde trabalharam juntos no primeiro semestre de 2019.

O grupo, chamado de “Amigos do Futebol”, foi criado por Souza em novembro de 2019, quando o BPRV era alvo de uma investigação da 39ª DP sobre comércio de cigarros clandestinos na Feira da Pavuna. O inquérito foi instaurado em setembro, quando o policial Bruno Rodrigues recebeu denúncias de que policiais estavam coagindo comerciantes a vender uma marca de cigarros e flagrou agentes do BPRV à paisana no local.

No grupo, os PMs usavam uma linguagem cifrada para conversar sobre a vigilância do policial civil. “Preciso que um de vocês vá até o campo amanhã para ver se o juiz tá lá”, escreveu o cabo Basile em 16 de fevereiro. Na verdade, segundo a investigação, Basile estava mandando um dos colegas ir até a 39ª DP monitorar os passos do agente.

O capitão Souza ainda responde que “se for escala 24×72, deve estar na terça” — ou seja, como os PMs já estavam vigiando o agente, sabiam que ele foi à delegacia na sexta-feira anterior e, por isso, achavam que ele teria três dias de folga. Basile responde que ele atua “no expediente” e está na unidade em todos os dias úteis, o que de fato acontecia. “Assim que constatar que ele está lá, avisa para podermos ir na direção. Não pode sair de lá, para poder monitorar”, completa Basile.

Coronel questionou abordagem

A ação de PMs do BPRV à paisana na Feira da Pavuna — que motivou o atentado, segundo a investigação — era de conhecimento do comando do batalhão. É o que mostra um documento assinado pelo então comandante da unidade, coronel Sérgio Amâncio de Souza Porto, que faz parte do inquérito. Logo após o policial civil Bruno Rodrigues e um colega da 39ª DP abordarem dois agentes da unidade no local, em setembro de 2019, o oficial enviou um ofício à delegacia“rogando possíveis medidas que julgar cabíveis” e questionando a ação.

No documento, Porto — que, à época, era chefe do capitão Souza, criador do grupo usado para vigiar a vítima — alegou que havia uma “ordem de busca” do batalhão que amparava a presença dos PMs na feira e afirmou que os policiais civis que participaram da abordagem agiram “de forma truculenta”. Disse ainda que o batalhão vinha combatendo o “cigarro contrabandeado” na região”. A ação de seus subordinados, entretanto, apresentou várias irregularidades, segundo a Polícia Civil.

Quando foram abordados após as denúncias de comerciantes, os cabos Marcos Fernando Bezerra e Fabio Henrique da Silva, lotados na P2 (serviço reservado) do BPRV, afirmaram que pararam na Feira da Pavuna apenas para que um deles comprasse um cordão. Os PMs, que estavam à paisana, num carro branco descaracterizado, negaram estarem acompanhados de outros policiais.

Era mentira. Localizado minutos depois, o sargento Valter Sobreira Filho, lotado em outra unidade, o 15º BPM (Caxias), confirmou que chegou ao local com a dupla e não soube explicar as versões conflitantes. Semanas depois, quando compareceram à delegacia para prestar depoimentos, nenhum deles citou a ordem de busca mencionada pelo coronel, que ampararia sua presença no local. As divergências motivaram a abertura do inquérito para investigar a ação do batalhão na feira.

Série de exonerações

Em dezembro passado, a Polícia Civil prendeu os cabos Sérgio Basile, Mauro Simões de Castro e Euclydes José do Prado Filho e os sargentos Fagner Alves da Silva e Joamilton Ribeiro pelo atentado. Segundo inquérito, Basile, Ribeiro e Mauro estavam no carro que interceptou o policial. Os demais participaram da preparação do crime.

Meses antes de serem presos, o cabo Basile e o sargento Ribeiro — integrantes do grupo “Amigos do Futebol” — foram transferidos do BPRV para o 7º BPM (São Gonçalo). Eles acompanharam o tenente-coronel Gilmar Tramontini, que saiu do BPRV, onde era subcomandante, para assumir o comando do 7º BPM. Na nova unidade, Basile e Ribeiro recrutaram o cabo Mauro e o sargento Fagner para a empreitada. Já o cabo Euclydes, do Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE), teria sido convidado por Basile, de quem é amigo.

O capitão Thiago de Souza e o tenente Pedro Nunes estavam cedidos à Operação Barreira Fiscal na época das prisões, onde tinham a atribuição de fiscalizar a entrada de mercadorias no estado. Ambos foram exonerados no dia seguinte à operação e voltaram à PM.

Na corporação, passaram a trabalhar novamente sob o comando do coronel Sérgio Porto no Comando de Polícia Ambiental (CPAM). Três semanas depois da operação, Porto perdeu o cargo. Sua saída foi seguida da exoneração de outros dez oficiais da unidade — o capitão Souza e o tenente Nunes entre eles. Atualmente, Porto e Souza estão na Diretoria Geral de Pessoal (DGP), a geladeira da corporação. Nunes está lotado no 18º BPM (Jacarepaguá). Eles são alvos de uma nova investigação.

Procurada, a PM afirmou que “está acompanhando o inquérito e colaborando para elucidar os fatos”. Segundo a corporação, a troca no comando do CPAM “faz parte da rotina da corporação”.

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