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Nº de tiros na casa de João Pedro não bate com o de cartuchos

Um detalhe da perícia feita na casa onde João Pedro, de 14 anos, foi baleado, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, chamou a atenção do agentes que fez a inspeção do local no dia do crime: a discrepância entre a quantidade de marcas de tiros e os cartuchos recolhidos. Ao todo, 64 marcas deixadas por projéteis foram enumeradas no laudo de análise do local de crime, que faz parte do inquérito da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI). Já o número de estojos — parte do cartucho expelida pela arma no momento do disparo — achados no local é bem menor: apenas sete, sendo três de calibre 9mm e quatro de 762.

No laudo pericial, ao qual o EXTRA teve acesso, o perito Thiago de Azevedo Hermida apontou que “o número de estojos, de diferentes calibres, coligidos à hora dos exames periciais, em muito diverge dos impactos de projéteis de arma de fogo colimados por todo o cenário em tela”.Mapa faz parte do laudo pericial

De fato, havia mais estojos na cena do crime, que foram retirados da casa antes da chegada do perito ao local e, portanto, não foram citados no laudo. Quem alterou a cena do crime foram os próprios agentes investigados: como o EXTRA mostrou na semana passada, os policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) que fizeram disparos na casa entregaram, uma semana após o crime, 19 estojos de calibre 556 — nenhum cartucho desse tipo foi achado na cena do crime pela perícia de local — e outros cinco de calibre 762 na DHNSGI.

Na ocasião, os agentes voltaram à especializada para prestar novos depoimentos sobre o caso. Seus primeiros relatos foram feitos na noite após o crime, dia 18 de maio. Já no dia 25, além de entregar os estojos, os agentes mudaram suas versões sobre a quantidade de tiros que dispararam e as armas que usaram para disparar dentro da casa. No novo depoimento, o agente que mais deu tiros no imóvel, Mauro José Gonçalves, admitiu que atirou, dentro da casa, com um fuzil calibre 556 — informação que havia sido omitida no primeiro depoimento. A nova arma, que também só foi entregue à perícia uma semana após o crime, tem o mesmo calibre do projétil encontrado no corpo de João Pedro.

No segundo depoimento dos agentes, nenhum deles esclareceu e sequer foi perguntado sobre como aqueles estojos foram obtidos.

Mais detalhes do laudo

A maior parte das marcas de tiro encontradas na casa, segundo o laudo de local de crime, foi produzida por disparos feitos a partir do portão de entrada do terreno — justamente por onde os três policiais civis investigados pelo crime entraram no local.

A distribuição dos projéteis encontrados na casa “permite concluir se tratar de mais de uma arma com produção de tiros em sentidos opostos”, afirmou o perito Thiago Hermida no documento. No entanto, Hermida esclarece, também no laudo, que todos os projéteis foram entregues à perícia pelos próprios agentes investigados. Ou seja, os cartuchos não foram coletados pelo perito nos locais onde foram encontrados. Os agentes investigados também entregaram ao perito uma pistola calibre 9mm e três granadas.

Maior parte dos disparos foi feita do portão da casa, por onde os agentes entraram no imóvel

O local, ainda segundo o perito, foi “resguardado” pelo inspetor Mauro José Gonçalves, um dos três agentes investigados. Os outros são os também inspetores Maxwell Gomes Pereira e Fernando de Brito Meister. Os agentes, em depoimento, alegaram que as granadas e pistolas estavam em posse de traficantes que invadiram a casa. Amigos de João Pedro, no entanto, afirmaram que foram os próprios agentes que jogaram granadas pelo terreno e que não viram traficantes no local. Os explosivos estavam intactos.

Segundo o perito, o local de crime não se encontrava preservado para a perícia: “portão da garagem aberto, número de estojos divergentes a quantidade de impactos de projéteis, portamalas do veículo na garagem aberto, desalinho dos objetos e atendimento à vítima”.

As marcas de tiros descritas pelo laudo são: dez numa parede interna nos fundos da casa, produzidas por disparos feitos de fora para dentro do imóvel; três no lado esquerdo do portão da garagem, produzidas por disparos feitos dos fundos do imóvel; um num aparelho televisor na sala da casa; 21 na janela da frente do imóvel, sendo 20 delas produzidas por tiros feitos de fora para dentro, da direção do portão, e um de dentro para fora; dois na parede em cima da janela produzidas por disparos feitos do portão; três na parte interna do muro da frente, produzidas por disparos feitos da parte de trás do terreno; um numa pilastra, produzida por disparo feito da parte de trás do terreno; 23 na sala de estar, todas produzidas por tiros feitos da direção do portão de entrada.

Mancha de sangue no local onde João Pedro foi morto

Delegado que investiga caso participou da operação

Nesta quinta-feira, o EXTRA revelou que o delegado responsável pela investigação do homicídio estava na operação que culminou na morte de João Pedro. Allan Duarte, que é titular da DHNSGI, integrou o grupo de policiais que entrou na favela, no dia 18 de maio, dentro de um veículo blindado da Core — unidade onde os três agentes investigados são lotados.

A participação de Duarte na ação foi revelada pelo também delegado Sérgio Sahione, que era o titular da Core na época da operação, em depoimento ao Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp) do Ministério Público do Rio. Após o depoimento, prestado no início desta semana, Sahione pediu demissão da chefia da Core. O delegado Fabrício Oliveira assumirá o cargo.

Segundo o depoimento de Sahione, Allan Duarte aproveitou a operação no Complexo do Salgueiro para fazer um “reconhecimento do terreno”. O ex-titular da Core esclareceu que Duarte não participou do planejamento da ação nem estava na casa onde o adolescente foi baleado no momento do crime. De acordo com Sahione, o titular da DH chegou à cena do crime no blindado da Core após João Pedro ser baleado.

Após a revelação, a Polícia Civil decidiu afastar Duarte da reprodução simulada do caso, que também será realizada na casa.

João Pedro foi morto com um tiro disparados pelas suas costas

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