Nem de Ceni, nem de Renato: um Flamengo sem identidade venceu na Argentina

O Flamengo desenvolveu o curioso hábito de entrar nos mata-matas da Libertadores com um treinador recém-chegado. Repete o experimento pela terceira temporada seguida, mas em nenhuma das anteriores a transição resultou num vazio de proposta de jogo tão escandaloso quanto o desta quarta-feira, em Buenos Aires. E nem é possível olhar para a área técnica e apontar o dedo para Renato Gaúcho.

Não se exibiu na Argentina nem o Flamengo de Rogério Ceni, tampouco o de Renato, até porque este dirigiu apenas um treino antes de viajar. Dadas as peculiaridades que marcam a sua carreira, nem é possível cravar como será o time de Renato. E, aliás, ainda é preciso ponderar que, diante do Defensa Y Justicia, jogou um rubro-negro que ainda convive com desfalques pesados. Em campo, a ideia pareceu se resumir a defender e torcer para que, enfim, o novo treinador pudesse usufruir do fato de ter os tais R$ 200 milhões a seu favor. Ou seja, que uma combinação entre os jogadores talentosos resultasse em gol. Nada disso ocorreu. Mas como o futebol é um esporte único, o Flamengo ganhou o jogo num lance em que Michael errou o domínio, errou o chute e acertou o ângulo. Se a atuação gerou preocupações, é fato que na atual fase da Libertadores o valor de uma vitória não pode ser subestimado.

Michael disputa a bola no duelo com o Defensa y Justicia — Foto: Gustavo Garello-Pool/Getty Images

O que mais chamou a atenção foi como a troca de comando fez surgir um Flamengo descaracterizado em Buenos Aires. O time não teve qualquer capacidade de retenção de bola, apelava aos chutes longos assim que era pressionado em sua saída de bola e entregava seus destinos a contragolpes em que buscava um desfecho rápido. Todo o oposto do que fazia antes. Com Rogério Ceni, mesmo quando perdeu inúmeros titulares, o Flamengo conservou um modelo, um estilo. Não significa que a ideia de jogo usada diante do Defensa Y Justicia seja, por definição, um erro. O futebol permite vencer de diversas formas. A questão é que tampouco foi uma proposta bem executada. O caso é que o Flamengo foi um passageiro do jogo, não ditou ritmo: deixou-se levar pelas vontades de um adversário que, taticamente, se impôs amplamente. Foi refém de um time argentino que tem bem menos talento à disposição.

Se algo da partida na Argentina aponta para o futuro, apenas o reforço da sensação de que Renato tem uma predileção pelo 4-2-3-1. O que deve levar Bruno Henrique para a ponta esquerda, com Arrascaeta fazendo o papel de um meia centralizado. Para que o jogo de Gabigol não seja sacrificado, ele precisará ter a liberdade de movimentação que insinuou em partes da primeira etapa. Além disso, as bolas aéreas do Defensa Y Justicia foram sempre perigosas, o que pode ter influência da inclinação do novo treinador por uma marcação individual – algo que já rendeu a Renato algumas dores de cabeça.

O Flamengo teve grande dificuldade para sair jogando, devolveu a bola rapidamente e, quando era atacado, lidou mal com o jogo de constantes apoios junto ao homem da bola do time argentino. Em seguida, usando a largura do campo, o Defensa Y Justicia buscava a inversão das jogadas, fugindo da pressão rubro-negra com certa facilidade. E a defesa do Flamengo nunca cuidou bem da largura do campo.

Seria injusto cobrar de Renato um padrão, um modelo autoral, uma imposição de marca. É cruel dar a ele a responsabilidade pela má exibição. Mas até a expectativa de uma transição gradual ficou comprometida pelo jogo de ontem. Afinal, muito pouco se viu do padrão que o Flamengo cultivou com Ceni. Aliás, o Flamengo nunca esteve tão distante do time de 2019, que há algum tempo já não existe, mas segue como uma eterna sombra. O primeiro passo será recuperar os lesionados e, aos poucos, reconstruir um time minimamente reconhecível.

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