Muito além da vaga na final: por que City x PSG envolve também geopolítica no Oriente Médio

Política. Petróleo. Gás natural. Monarquias. Status. Dinheiro. Muito dinheiro. E até futebol. Acredite, tudo isso envolve Manchester City x PSG. Os dois clubes decidem, nesta terça, quem será o primeiro finalista da Champions. E um possível título do torneio seria a coroação para esses projetos bilionários financiados por duas nações rivais: Emirados Árabes e Catar.

Manchester City x PSG começa às 16h (de Brasília), nesta terça-feira, na Inglaterra, com Tempo Real no ge

Ambos nunca foram campeões da Champions. O City busca sua primeira final. Vice na temporada passada, o Paris tenta sua segunda decisão. Com o 2 a 1 na França no jogo de ida, o time inglês avança com um empate ou até mesmo derrota por 1 a 0. Os parisienses levam para a prorrogação com vitória por 2 a 1. O time de Neymar passa com um triunfo por um gol de diferença, desde que faça três ou mais gols (3 a 2, 4 a 3, etc).

“The Oil Derby”. Ou o “Clássico do Petróleo”, em bom português. Assim os torcedores ingleses nomearam a semifinal. Mas é muito mais do que isso. O jogo envolve geopolítica de todo o Oriente Médio. Emirados Árabes e Catar não tiveram relações diplomáticas entre junho de 2017 e janeiro deste ano. E a tensão não diminuiu (saiba mais abaixo sobre a crise na região).

 — Foto: Infoesporte/ge.globo

Antes de mais nada, não estranhe: ligar o nome das duas monarquias árabes aos dois clubes não é exagero. O Manchester City pertence desde 2008 ao xeque Mansour bin Zayed Al Nahyan, membro da família real de Abu Dhabi e vice-primeiro ministro dos Emirados Árabes.

O Paris Saing-Germain foi adquirido em 2011 pelo Qatar Sports Investments (QSI), empresa ligada ao governo catari e presidida por Nasser Al-Khelaifi, que é muito próximo ao Emir do país, Tamim bin Hamad al Thani. O PSG é do Catar.

Os dois clubes receberam a injeção de mais de um bilhão de euros em contratações cada (veja mais abaixo). Ganharam tudo nacionalmente. O Manchester City conquistou quatro de suas seis taças do Campeonato Inglês depois que foi vendido. E caminha para levar a quinta no período. O PSG sentiu o mesmo impacto. Ganhou sete de seus nove troféus do Francês a partir de 2011. Para ambos, falta a Liga dos Campeões.

 — Foto: Infoesporte/ge.globo

Clássico do “sportswashing

Mas o que levou duas monarquias árabes a injetarem bilhões de euros em dois clubes que, no início do século, jamais sonhariam em poder decidir uma Champions? Engana-se quem pensa em lucro. Manchester City e PSG representam casos claros do que especialistas nomeiam de “sportswashing”.

O termo em inglês criado por organizações de direitos humanos junta duas palavras: sport (esporte) e wash (lavagem). Ou seja, é o uso do esporte como forma de apagar – ou esconder – ações que governos não querem que sejam conhecidas pelo resto do mundo.

Comentarista de política internacional da GloboNews e especialista em Oriente Médio, o jornalista Guga Chacra não tem dúvidas de que essas são as intenções dos donos dos dois semifinalistas da Champions.

– São dois grandes exemplos sem dúvida nenhuma (de sportswashing).Tanto Catar quanto os Emirados Árabes, ou Abu Dhabi, são duas ditaduras. São monarquias absolutistas”— Guga Chacra, comentarista de política internacional da GloboNews e especialista em Oriente Médio

– Na prática são ditaduras, sim, onde mulheres são tratadas como cidadãs de segunda classe. Onde não há democracia nenhuma. As pessoas não votam nem para eleição de síndico. E eles buscam melhorar a imagem deles com uma série de maneiras, e o futebol é a principal delas – comentou Guga, no “Redação SporTV”.

Guga Chacra fala sobre investimentos de Catar e Emirados Árabes no duelo PSG x City

Para o professor Maurício Santoro, chefe do departamento de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, há uma diferença entre os dois casos que envolvem a semifinal desta terça. O PSG faz parte de um projeto maior para o Catar.

– Tanto para o Catar quanto para os Emirados, o futebol ficou importante. Mas no Catar virou projeto de Estado, especialmente com a Copa do Mundo e a criação da Academia (Aspire), que é questionável em vários aspectos. O Catar chamou atenção para si, é uma aposta arriscada. Estamos vendo muitos protestos de seleções, times e torcidas sobre questões de direitos humanos – opina Santoro.

Rivalidade aflorada por crise diplomática

Para entender a tensão política que envolve as duas nações por trás de Manchester City e PSG é possível usar o… futebol. No dia 29 de janeiro de 2019, o Catar goleou os Emirados Árabes por 4 a 0 na semifinal da Copa da Ásia. Em Abu Dhabi, casa dos donos do City.

Em certo momento do jogo, sapatos foram atirados pelos emiradenses presentes nas arquibancadas. Vale ressaltar: jogar um calçado em alguém é uma ofensa gravíssima na cultura árabe. Mas não foi uma surpresa. Afinal, cidadãos cataris estavam proibidos de entrar no país.

Jogadores do Catar reclamam com torcedores dos Emirados Árabes, em Abu Dhabi, que atiraram sapatos em campo, em jogo de 2019: cataris não eram aceitos no país — Foto: Reuters

Em junho de 2017, Emirados Árabes, Arábia Saudita, Bahrein, Egito, Líbia, Maldivas e Iêmen romperam relações diplomáticas com o Catar. O bloco acusou o país de apoiar grupos terroristas, como a Irmandade Muçulmana.

Incomodava – ainda incomoda – também a estreita relação com o Irã xiita, principal inimigo dos sauditas, e a atuação da emissora “Al Jazeera”, poderosa rede de televisão do governo do Catar e, com folga, a mais influente na região. Aviões saíam de Doha e não podiam cruzar o espaço aéreo dos países vizinhos.

A crise teve fim com um acordo em janeiro deste ano. Mas a relação do Catar com o grupo ainda está estremecida. Para o professor Maurício Santoro, é inevitável não considerar tal cenário em um jogo como o desta terça-feira.https://datawrapper.dwcdn.net/F0T1Z/1/São várias camadas de rivalidades. Além da disputa normal entre dois grandes clubes europeus, há uma série de conflitos vitaminados pelas tensões políticas entre Catar e Emirados Árabes, de como o futebol global virou mais uma arena na qual essas disputas estão em jogo”— Maurício Santoro, chefe do departamento de Relações Internacionais da Uerj

Correspondente internacional da Globo em Londres e Paris por mais de uma década e com ampla experiência em coberturas no Oriente Médio, o repórter Marcos Uchôa concorda. É como se os dois clubes fossem rivais de bairro em busca de um título inédito. Um título expressivo. O maior deles. Ninguém quer ver o outro ganhar antes.

– Neste jogo, não só quem ganha se sente bem, mas quem perde se sente mal. A rivalidade é grande. As famílias reais da Arábia Saudita, do Catar, dos Emirados, Bahrein, todos eles têm laçosUm dos grandes problemas no Catar e nos Emirados é que as relações entre os países podem até voltar, mas que uma mágoa entre pessoas talvez fique para sempre. Existe uma coisa pessoal”— Marcos Uchôa, correspondente internacional da Globo em Londres e Paris por mais de uma década

Prováveis escalações

Em campo, o lado do Catar tem problemas. Mbappé viajou para Manchester com desconforto na panturrilha. O técnico Maurício Pochettino considera incerta a sua escalação. Expulso no jogo de ida, Gueye é desfalque. Draxler e Icardi podem ser novidades no PSG. O time pertencente aos emiradenses vai com força máxima. Guardiola deve repetir a escalação do City que venceu em Paris por 2 a 1.

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