Minoria árabe em Israel entra no confronto e agrava conflito militar

Palestinos de Jerusalém Oriental costumam nutrir ressentimentos em relação aos árabes que têm cidadania israelense e são criticados por se manterem à margem do conflito. Desta vez, contudo, o palco de confrontos se deslocou do campo militar, alastrando-se por cidades árabes ou mistas, como Lod, a sudeste de Tel Aviv, onde jovens incendiaram três sinagogas, lojas e mais de 30 carros.

A noite violenta nestas cidades expressou a fúria da minoria árabe, que compõe 20% da população israelense e agora pega carona na onda de protestos que começou na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, na reta final do Ramadã.

O apoio aos palestinos ameaçados de despejo por colonos judeus no bairro de Sheikh Jarrah mobilizou até os drusos, que geralmente se abstêm do conflito palestino, mas agora tomaram partido. Trata-se de mais um ingrediente para alimentar a explosiva relação entre Israel e palestinos

“Estamos observando uma situação que nunca vimos antes nas cidades mistas, inclusive durante os incidentes de outubro de 2000”, afirmou o chefe da polícia israelense, Kobi Shabtai, referindo-se à Segunda Intifada. Confrontos violentos foram registrados também em Acre, em Ramle e no bairro de Jaffa, em Tel Aviv.

Judeus retiram escrituras de uma sinagoga que foi incendiada na cidade de Lod, em 12 de maio de 2021 — Foto: Ronen Zvulun/Reuters
Judeus retiram escrituras de uma sinagoga que foi incendiada na cidade de Lod, em 12 de maio de 2021

Diante do cenário de batalha campal nas ruas do município, o prefeito de Lod falou em guerra civil e fez uma comparação emblemática para os judeus– a Noite de Cristais, em 9 de novembro de 1938, quando lojas, sinagogas e casas da comunidade judaica foram danificadas por forças paramilitares nazistas, sob o olhar indiferente do governo alemão.

“Todo o trabalho de coexistência que fizemos durante décadas foi pelo ralo”, resumiu em tom de desespero o prefeito Yair Revivo, pedindo o envio de tropas do Exército à cidade para fazer frente aos tumultos. O governo de Netanyahu está pronto para implementar o toque de recolher nas cidades árabes e mistas do país.

A sempre frágil convivência entre judeus e árabes nessas cidades não resistiu às investidas de grupos radicais dos dois campos. E também à série de más decisões governo israelense durante o mês do Ramadã, conforme assinalou em editorial o jornal “Haaretz”: a instalação de postos de controle no Portal de Damasco da Cidade Velha em Jerusalém, para impedir a entrada de palestinos, a ameaça de expulsão de resistentes no bairro de Sheikh Jarrah e a permissão para que radicais judeus realizassem uma marcha provocativa pelo bairro muçulmano no Dia de Jerusalém.

O discurso nacionalista foi fortalecido com o apoio de Netanyahu a extremistas de direita, banidos desde a década de 1980 da política israelense, que conseguiram reingressar no Parlamento nas últimas eleições. “Essa estratégia desastrosa agora está explodindo na cara de Israel”, atestou o “Haaretz”.

O momento explosivo inviabiliza também qualquer esforço para a entrada de um partido árabe pela primeira vez no governo israelense. As negociações com a Lista Árabe Unida ou Ra’am, um partido muçulmano conservador, estavam em andamento, mas foram enterradas pela expressão mais violenta da realidade do Oriente Médio.

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