Meta da OMS para vacinar está ameaçada e Brasil pode ser afetado

Com vacinas concentradas em poucos países ricos, a OMS admite que o mecanismo criado para distribuir doses pelo mundo dificilmente conseguirá cumprir seu plano original de abastecimento nos países em desenvolvimento para o mês de maio e sua meta para 2021 está ameaçada.

A crise pode afetar o Brasil. A cúpula da organização trabalha para tentar garantir 4 milhões de novas doses de vacinas da AstraZeneca para o país entre o final de maio e início de junho, além de outras 800 mil doses da Pfizer. Mas ainda não existe uma data confirmada. Tedros Ghebreyesus, diretor-geral a OMS, estima que, até junho, a distribuição pelo mundo ficará abaixo do esperado em 190 milhões de doses. De acordo com a Unicef, até agora, 65 milhões de vacinas foram enviadas para um total de mais de 130 países. Mas a meta era de que, nesta semana, a distribuição total tivesse atingido 170 milhões.

No caso do Brasil, o mês de abril já viu um atraso na entrega de vacinas. Mas, no início de maio, um carregamento com 4 milhões de doses chegou ao país. O Brasil aderiu ao mecanismo internacional, depois de hesitação por parte do ex-chanceler Ernesto Araújo. Quando o país passou a fazer parte, o governo comprou 42 milhões de doses, que seriam entregues até o final do ano de 2021.

Mas a crise não se refere apenas ao Brasil. A concentração de vacinas em países ricos e as barreiras de exportação na Índia diante da crise sanitária local geraram um terremoto no processo de distribuição. Uma parte significativa das vacinas do mecanismo internacional, conhecido como Covax, viria da AstraZeneca e de sua produção pelo Instituto Serum, na Índia. O governo de Nova Déli passou a proibir a exportação de doses, diante da dimensão da pandemia no país. Isso, na prática, significou que a Covax ficou desabastecida em 140 milhões até maio e pode sofrer mais um atraso de 50 milhões em junho.

No caso brasileiro, o fornecimento viria da Coreia do Sul. Mas com uma penúria mundial diante da explosão da pandemia na Índia, há uma pressão para que parte das doses coreanas seja redirecionada para países que não contam com qualquer outro tipo de abastecimento. Dos 130 países beneficiados pela Covax, pelo menos 30 deles dependem exclusivamente da OMS para imunizar suas populações.

Bruce Aylward, representante da OMS para vacinas, a realidade é que a meta de vacinar 20% da população dos países em desenvolvimento em 2021 está ameaçada. “Não estamos nesse ponto”, disse. Segundo ele, mesmo se a agência tivesse dinheiro, não teria como comprar doses. “A meta está ameaçada neste momento”, declarou. Aylward acredita que esse cenário pode ser revertido. Segundo ele, os países ricos têm condições de vacinar suas populações e ainda liberar doses para que sejam redistruídas aos países mais pobres. As estimativas da agência apontam que os países europeus, EUA e Japão poderiam liberar 153 milhões de doses de seus estoques se abrissem mão de apenas 20% de suas compras já feitas para junho, julho e agosto.

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