Menina diz à polícia que Jairinho a torturou em possível motel

Um lugar com a parede escura, com uma cama, TV, banheiro, piscina do lado de fora. Para entrar, era necessário abaixar a cabeça dentro do carro. Assim a menor K.; que na época tinha entre 3 e 5 anos de idade, descreveu aos policiais da Dcav (Delegacia da Criança e Adolescente Vítima) um dos locais em que foi levada, sozinha, por Jairo Souza, o Dr. Jairinho. Nesse quarto, a possível descrição de um motel, K. disse que foi obrigada a ficar nua, entrar debaixo do chuveiro, e teve sua cabeça batida contra a quina da parede por diversas vezes por Jairinho, que vestia apenas uma sunga. Segundo a menina, não houve abuso sexual.

Foto tirada em 2012 mostra Jairinho ao lado de N; sua então namorada, e a filha dela, K., em viagem a Mangaratiba. Criança, na época com cerca de 5 anos, relata ter sido torturada , diversas vezes, pelo vereador.

No relato, realizado no último dia 23 de abril, a jovem, agora com 13 anos, relembrou diversas agressões que Jairinho teria praticado entre os anos de 2010 a 2013, inclusive uma que resultou em um braço engessado. Na época, Jairinho namorava N., sua mãe, que tinha 19 anos. A narrativa consta no relatório policial enviado ao Ministério Público, na sexta-feira, e obtido com exclusividade pelo DIA. A promotora do caso, Eliza Fraga, denunciou Jairinho por tortura majorada, no mesmo dia.

O depoimento foi cedido a um policial especializado, de acordo com a Lei Federal 13.341/2017. Nele, foi usado o método ‘Peace’, que é um interrogatório humanizado e possui os seguintes fundamentos: “evitar perguntas sugestivas, utilização de perguntas abertas, permitir o relato livre e espontâneo, tratar o entrevistado com cordialidade e estabelecer confiança”, diz trecho do documento.

O relatório, de 67 páginas, não possui a transcrição do depoimento de K., mas destaca em curtas frases o que a jovem contou na especializada. “Ele me batia; me afogava; falava que eu atrapalhava ele e a minha mãe; batia com a minha cabeça nos lugares; me chutava; me afogava assim, por cima; torcia o meu braço; me levava para os lugares, lá ele me batia”, escreveu um agente, sobre as agressões relatadas.

Com relação à prática de agressões relacionadas a lugares específicos, K. disse: “ele entrava de carro; mandava eu ficar abaixada, debaixo do banco dele; ele entrava, tinha um quarto, tinha uma cama, na parte de fora tinha uma piscina; ele me afogava lá na piscina, no chão, com o pé (quanto a isto, K. apontou para região da própria barriga, como sendo a região na qual Jairinho colocava o pé); tinha parede escura; tinha cama, tv; ele batia a minha cabeça na quina da piscina; eu ficava no chão da piscina; jogava eu na piscina; ele entrava, jogava eu no chão da piscina, pisava, assim (K. fez movimentos com a própria perna), eu ficava debaixo d’água”. 

A jovem contou que pelo menos duas vezes Jairinho a afastou de outras pessoas, uma delas de madrugada. “Ele tinha uma casa, tinha uma sauna, fora da casa; tinha um jardim. Eu me lembro que ele me levou lá de madrugada”. Os agentes acreditam que essa casa seja a de Mangaratiba, para onde Jairinho viajava com a mãe da menina. Fotos mostram o casal com K. na residência, como uma em que eles estão próximo a um lago.

Sua mãe, N., também prestou depoimento e disse que certa vez, em Mangaratiba, Jairinho lhe deu um remédio para dormir. Ela, desconfiada de que ele faria alguma ligação para a ex-mulher, fingiu cair no sono. E, ao levantar, flagrou Jairinho segurando K. pelos dois braços no sofá. A menina estava assustada, com os olhos bem abertos. Ao indagar o que havia ocorrido, Jairinho lhe disse que estava ajudando K. “Ela teve um pesadelo, não foi K.?!”. A criança, com medo, concordou.

A menina também disse que uma vez estava brincando no shopping, quando ele a levou para o estacionamento, para dentro do carro. Tanto na ocasião da saída de madrugada, quanto na do shopping, ela não se recorda do que ocorreu. No entanto, lembra exatamente das frases que ele dizia antes de espancá-la. “Antes ele falava que eu atrapalhava muito ele e a minha mãe; que a relação deles seria mais fácil sem eu no meio; que eu atrapalhava a minha mãe em tudo; era sempre antes (referindo-se às agressões)”, diz outro trecho do documento.

As frases são semelhantes às relatadas pelo menino Henry Borel, de 4 anos, morto espancado dentro do apartamento do vereador Jairinho, no dia 8 de março deste ano. Henry chegou a ligar para a mãe, Monique Medeiros, no dia 12 de fevereiro, após ficar por cerca de 10 minutos dentro do quarto com

Jairinho, em um dos episódios de agressão. À babá, ele relatou que apanhou no cômodo e, ao ligar para a mãe, somente perguntou “Mãe, eu te atrapalho? O tio disse que eu te atrapalho”. Monique, então, liga para Jairinho, exaltada, e fala para ele nunca mais dizer que Henry a atrapalha. A polícia diz não ter dúvidas de que ela tinha conhecimento das agressões. Tanto ela quanto Jairinho estão presos pela morte de Henry.

Já k. somente relatou as agressões de que estava sendo vítima um ano após o término do relacionamento da sua mãe com Jairinho. Na ocasião, ela assistia TV com a avó e, ao ver o programa ‘Fala que eu te escuto’, da TV Record, que no dia abordava violência contra crianças, passou a chorar copiosamente e relatou o que tinha sofrido. Foi nessa ocasião, que ela lembrou que Jairinho a deixou nua no motel, mas que não sofreu abuso sexual.

A criança foi afastada da convivência de Jairinho pela avó, ainda enquanto ele namorava N. Isso porque a avó notou o comportamento nervoso e assustado da neta com o namorado da mãe, que, assim como Henry, vomitava e chorava na presença dele.

Veracidade do relato

O investigador que ouviu K. afirmou que a jovem “apresentou relatos que não denotam que foi sugestionada influenciada ou preparada por terceiros. Apresentou, durante as declarações, reações emocionais involuntárias, observados através do tom de voz, expressão facial, gesticulações e expressões corporais, demonstrando que o tema a mobilizava (…) e ainda durante a oitiva não compareceram elementos relatados como contraditórios ou dissimulados”.

Além da avaliação psicológica feita no depoimento especial, a menina contou que, determinada vez, Jairinho torceu tão forte o braço dela, que machucou o ombro. Ela, com medo, disse que se machucou na aula de Jiu Jtsu que praticava, e foi levada pela mãe quatro vezes a um hospital, até engessar o braço. A polícia conseguiu localizar todos os prontuários médicos, datados de 2011, que apontam a lesão no ombro. A polícia localizou o professor de Jiu Jtsu que, em depoimento, negou que K. tivesse se machucado em sua aula.

O caso de K. só passou a ser investigado após a mãe, N., procurar a polícia ao saber da morte do menino Henry. Atualmente, a Dcav investiga outro caso de agressão e tortura de Jairinho a uma criança.
A defesa de Jairinho afirmou, na sexta-feira, que não iria se pronunciar sobre os casos investigados pela Dcav.

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