Mais de 90 funcionários serão demitidos após rejeição de acordo; Botafogo não fez contraproposta

Mais de 90 funcionários serão demitidos pelo Botafogo. Os desligamentos, tidos como inevitáveis em razão da combalida situação financeira, foram comunicados no início da manhã desta terça-feira. Há uma semana, o clube tentou um acordo para redução salarial, que foi rejeitado. Não houve contraproposta, e a ala que defendia a necessidade de demissões ganhou força.

O clube trabalhou em cima do acordo nos últimos meses para evitar um número grande de demissões. A ideia era que, com a redução salarial, a soma não passasse de 20 pessoas.

Mesmo antes da tentativa de acordo, a possibilidade de demissões já estava no horizonte alvinegro. A princípio, a proposta era elaborar um Plano de Demissão Voluntária para reduzir o quadro de empregados com maior segurança jurídica e menos custos, mas a falta de recursos impediu a implantação.

Agora, o receio dos funcionários é justamente sobre como o clube vai arcar com os custos das demissões. A reportagem apurou que o Botafogo quer usar parte do dinheiro destinado ao acordo de pagamento de salários em dia para quitar as indenizações e não deixar pendências com os trabalhadores desligados. O Ministério Público do Trabalho e o Tribunal precisam autorizar a transação.

Desde o fim do ano passado, o Botafogo passou a ter salários em dia graças a uma decisão judicial após um longo período de instabilidade. O acordo foi renovado em abril, com a possibilidade de juntar até R$ 39 milhões livres de outras penhoras. A folha salarial geral do clube no último mês era de R$ 3,6 milhões.

A recusa dos funcionários pela redução salarial surpreendeu o clube e até mesmo parte do Sindicato dos Empregados em Clubes, Federações e Confederações Esportivas e Atletas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro (Sindeclubes). A proposta já era vista como um sacrifício pelo setor financeiro e, no comunicado, o Botafogo dizia que o acordo era a maneira de evitar demissões em massa.

– Cabe ressaltar o esforço e comprometimento da gestão que têm se traduzido em salários em dia mesmo diante de um cenário bastante crítico. A situação, contudo, é insustentável e medidas urgentes são necessárias para a continuidade do clube – comentou o clube em 29 de abril.

CEO Jorge Braga e presidente Durcesio Mello  — Foto: Vitor Silva/Botafogo

Funcionários esperavam demissões

Com a rejeição, os trabalhadores entenderam que o corte seria questão de tempo. Muitos tinham o dinheiro contado para honrar os próprios compromissos, e uma redução de 25% comprometeria significativamente a renda familiar. Nos corredores de General Severiano e do Nilton Santos, o assunto dominou as rodas de conversas nos últimos dias.

– Tenho muitos amigos que só têm esse trabalho e são o provedor da casa. A cabeça fica como? – questionou um funcionário ao ge.

– Fico me perguntando como vão economizar mandando embora um monte de porteiros e vigias – pontuou o trabalhador, que relatou um cenário de desconfiança e incerteza.

CEO foi contratado pelo Botafogo em março para ajudar na reestruturação do clube

A falta de conversa foi uma reclamação de parte dos trabalhadores. A proposta paliativa não foi vista como suficiente por esse grupo. A nota do Botafogo também não pegou bem, já que chegou antes de os colaboradores serem anunciados sobre os desligamentos. Há quem esteja de licença ou de férias e só saberá quando voltar ao trabalho.

No clube, o ar pesado pela expectativa das demissões pairava há algum tempo. Alguns funcionários e, agora, ex-funcionários consultados já ouviam de superiores e pessoas do clube que a “barca ia passar”, que a “lista estava pronta” e outras coisas do tipo.

– Não teve conversa nenhuma, só ameaça, ameaça e ameaça. Estou indignado – resumiu um colaborador.

Clube promete ajuda

Na mesma nota em que comunicou as demissões, o Botafogo disse que prezava “para que o momento seja respeitoso e humanizado” e informou que “foi contratada uma empresa de Consultoria Estratégica em Recursos Humanos para prestar toda assistência a se recolocarem no mercado”.

O clube pretende oferecer workshops e treinamentos para facilitar a busca por novas oportunidades. A empresa responsável pelo processo será a mesma que organizou o reposicionamento dos funcionários do Vasco, que demitiu 186 trabalhadores em março.

Para quem ficou no clube, a promessa é de estabilidade. O recado passado é que os cortes necessários já foram feitos. Quem ficou, a princípio, não corre mais risco. Mas tudo vai depender dos desafios financeiros que vão se apresentar durante o ano.

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