fbpx

José Antonio Kast testa no domingo o peso do nazismo e do pinochetismo no Chile

Ancorado na família, o ultradireitista José Antonio Kast revive o espectro do nazismo e do pinochetismo em sua campanha para a Presidência do Chile. Na reta final da corrida eleitoral que elegerá neste domingo o sucessor de Sebastián Piñera, veio à tona o documento que comprova a filiação do pai, Michael Kast Schindele, ao Partido Nazista.

Simpatizante do ditador que comandou o país entre 1973 e 1990, o candidato da extrema direita professou insistentemente o lema de ordem, segurança e paz para combater o crime, o tráfico de drogas e o terrorismo. Seu mantra seduz parte da população, tendo em vista a disputa acirrada no segundo turno entre ele e o representante da esquerda, o deputado Gabriel Boric, que está ligeiramente à frente, segundo as pesquisas.

Kast consolida capital político numa base eleitoral obcecada pelo medo da desestabilização política e econômica no país. Como avaliou ao g1 o jornalista e escritor Javier Rebolledo, essa parcela do eleitorado encontra no discurso conservador e populista do candidato do Partido Republicano, soluções fáceis e rápidas, calcadas na coerção e na falta de liberdade dos cidadãos.

Rebolledo investigou a fundo as violações aos direitos humanos no Chile e dedicou ao clã Kast boa parte de seu livro “À sombra dos corvos”, que esmiúça o envolvimento dos civis no golpe e no regime militar. A leitura traça um panorama do passado nazista de Michael Kast, que migrou na década de 1950 para o município rural de Paine, na região metropolitana de Santiago, forjando falsos documentos da Cruz Vermelha, após participar da invasão da Rússia e de missões em Crimeia, Áustria e Itália.

José Antonio Kast se prepara para debate em 10 de dezembro — Foto: AP/Esteban Felix

Em Paine, ele e a mulher Olga criaram os dez filhos e estabeleceram-se como fabricantes de embutidos e donos do restaurante Bavária. O patriarca cultivou a imagem de empresário respeitado, católico e anticomunista, contrário à reforma agrária patrocinada pelos governos do país entre 1962 e 1973.

De acordo com a investigação de Rebolledo, quando os militares derrubaram o presidente Salvador Allende, Paine se transformou num reduto da repressão e extermínio de opositores do regime. Calcula-se que pelo menos 70 camponeses e trabalhadores foram torturados e assassinados na cidade e arredores. O número representa, segundo o livro, a maior quantidade de vítimas da ditadura, em nível nacional, em proporção à densidade populacional.

O patriarca Kast e família deram apoio à caçada dos supostos terroristas, implementada na delegacia da cidade. Dois de seus filhos – Miguel e Christian – são apontados como colaboradores da Dina, a temida polícia política de Pinochet. Testemunhas contaram que Christian levava refeições para os policiais em serviço e participou de interrogatórios de presos.

A ditadura e o clã se imiscuíram de forma simbiótica. Mentor do grupo de economistas conhecido como Chicago Boys, que formulou a política econômica liberal do regime, o primogênito Miguel Kast liderou a Oficina de Planejamento Nacional (Odeplan) e o Banco Central.

“Miguel aparece como assessor da Dina, mas é também considerado uma espécie de messias por boa parte da direita chilena. Este é o homem que transformou os dirigentes políticos, que eram conservadores em temas sociais e nas questões econômicas, em conservadores nos valores, mas liberais na economia”, atesta Rebolledo.

Em busca dos votos da direita moderada, o caçula José Antonio Kast, de 55 anos, tenta, como candidato, aparar arestas incômodas de seu passado familiar. Nega os crimes de Paine e refere-se ao pai como um soldado inocente, que foi arrastado, como os demais jovens alemães, para a Segunda Guerra. No entanto, o registro obtido pela agência Associated Press mostra que, aos 18 anos, ele também se alistou voluntariamente ao partido liderado por Hitler.

Imagem de uma carteira de identidade emitida pelo Arquivo Federal da Alemanha que mostra que um jovem de 18 anos chamado Michael Kast ingressou no Partido Nazista em 1º de setembro de 1942. Embora o Arquivo Federal não pudesse confirmar se Michael Kast era o pai alemão do candidato presidencial chileno José Antonio Kast, a data e o local de nascimento listados no cartão correspondem aos do pai de José Antonio, que morreu em 2014. Uma cópia da carteira de identidade, identificada com o número de associação 9271831, foi postada anteriormente nas redes sociais pelo jornalista chileno Mauricio Weibel.  — Foto: Associated Press/Arquivo Federal da Alemanha

A conjunção entre nazismo e pinochetismo atua como atrativo para a base eleitoral cativa de Kast. “Pinochetistas têm em comum com os nazistas um anticomunismo declarado. Consideram que sempre a solução mais simples é destruir e torturar e podem chegar ao extermínio”, resume o escritor.

Por isso, no seu entender, há uma parte da população chilena que está “disposta a aceitar as soluções mentirosas” propagadas pelo candidato da extrema direita, votando no domingo em torno da segurança, do conservadorismo, do emprego, do crescimento econômico e da erradicação da delinquência. O confronto eleitoral deste domingo mede a dimensão do medo nos dois campos adversários do Chile.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: