Januário Garcia, fotógrafo de capas célebres de discos e militante do movimento negro, morre de Covid no Rio

Januário em foto que ele postou em seu Instagram em uma exposição sua: 'Um fenômeno raro pra descontrair. O fotógrafo - simultaneamente - por trás e pela frente das fotos' — Foto: Reprodução/Instagram/@januariogarciaoficial

O fotógrafo Januário Garcia morreu na noite de quarta-feira (30), vítima da Covid-19. Aos 77 anos, ele estava internado no Hospital São Lucas, em Copacabana, na Zona Sul do Rio.

Garcia era reconhecido pela atuação no movimento negro, na luta contra o racismo (veja fotos dele no fim da reportagem). Sobre o tema, participou dos livros: “25 anos do Movimento Negro”, “Diásporas Africanas na América do Sul”, e “História dos quilombos do estado do Rio de Janeiro”.

Como fotógrafo, passou pelas redações dos jornais O Globo, Jornal do Brasil e O Dia, e também fez fotos para álbuns de grandes artistas da música brasileira durante as décadas de 1970 e 1980. Entre eles, Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, Fagner, Belchior, Fafá de Belém, Leci Brandão, Raul Seixas e Edu Lobo.

“A foto é um veículo de transformação social”, costumava dizer.

Januário Garcia deixa quatro filho. O corpo dele será cremado, mas ainda não há informação sobre a data e local.

Januário Garcia também fez fotos para álbuns de grandes artistas da música brasileira durante as décadas de 1970 e 1980 — Foto: Reprodução

Januário Garcia também fez fotos para álbuns de grandes artistas da música brasileira durante as décadas de 1970 e 1980

Repercussão

A cantora Leci Brandão, lamentou a morte do amigo em suas redes sociais.

“Com muita tristeza, recebemos a notícia da morte desse grande amigo, Januário Garcia, por Covid. Januário foi muito importante na minha vida, além de fazer quatro capas de LPs, também propunha os títulos dos discos e dava opiniões sobre o repertório”, disse Leci.

“Foi ele quem me apresentou a musicalidade e as cores do Olodum, além de introduzir na minha vida o pensamento de Lélia Gonzales. Só tenho de agradecer a Deus por ter colocado ele na minha vida. Sou muito grata por tudo! Januário Garcia, presente!”, completou a sambista.

A deputada federal Benedita da Silva (PT), também lembrou da luta de Januário no movimento negro brasileiro.

“O dia começa cheio de tristeza com a partida precoce do querido Januário Garcia, por causa da covid. Fotógrafo e professor, foi parte da formulação e ativismo de todas as lutas recentes do Movimento Negro. Que Deus conforte o coração da família e amigos”, disse Benedita.

A jornalista Flávia Oliveira também lamentou a morte: “Perdemos para a Covid-19 o grande Januario Garcia, fotógrafo que documentou com maestria a trajetória dos negros brasileiros. São décadas de memórias. Uma lástima”, postou.

Mais de 100 mil fotos

Ao longo dos anos como artista, Januário produziu um acervo com mais de 100 mil fotos, documentando brasileiros afrodescendentes nos mais diversos aspectos da vida: social, político, cultural e econômico.

Segundo informações publicadas em seu site oficial, as fotos contam a história contemporânea dos negros do Brasil.

“As imagens retratam a luta diária do negro para conseguir se inserir nessa sociedade, seu cotidiano, sua cultura, a alegria durante o carnaval entre tantos outros momentos. São registros que nos permitem adentrar suas casas e transitar pela história de lutas e conquistas do movimento negro no Brasil. Através destas imagens é possível serem encontradas, ainda nos dias de hoje, marcas e reflexos de um passado não superado”, diz um texto publicado no site oficial de Januário.

Exposição “Herança viva”

Em 2019, o fotógrafo mineiro apresentou a exposição “Herança viva”, fruto de mais de 40 anos dedicados a olhar para populações negras no Brasil. Entre as obras, imagens dos aspectos culturais, sociais, políticos e econômico dos afrodescendentes.

Garcia foi ex-presidente do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras e da Rede Brasileira de Iconografia e Documentação de Matrizes Africanas no Brasil.

Fotos da exposição "Herança Viva" — Foto: Januário Garcia

Fotos da exposição “Herança Viva” — Foto: Januário Garcia

Capa do álbum 'Metades', de Leci Brandão — Foto: Januário Garcia

Capa do álbum ‘Metades’, de Leci Brandão — Foto: Januário Garcia

O Rio de Janeiro registrava, até a manhã desta quinta, 55,4 mil mortes por Covid-19. No país, eram 518 mil mortos até o início a tarde.

Fotos de Januário

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