Henry disse que Jairinho ‘ia pegá-lo’ se não o obedecesse, e babá combinou sair de casa com ele para escapar de agressões

Um trecho da conversa entre Monique Medeiros, mãe do menino Henry Borel, e Thayná de Oliveira Ferreira, babá da criança, que descrevia em tempo real uma suposta sessão de tortura praticada pelo padrasto, o vereador Dr. Jairinho (sem partido), mostra que as agressões eram frequentes.

“Então, [Henry] me contou que [Jairinho] deu uma banda [uma rasteira] e chutou ele, que toda vez faz isso”, disse a babá, na tarde de 12 de fevereiro.

“Falou que não pode contar, que tem que obedecer ele, senão vai pegar ele”, emendou Thayná.

A babá relatou ainda a Monique que Henry estava mancando e que ele reclamou de dores na cabeça. Ela também sugeriu à mãe dele um “plano de fuga” para evitar episódios como aquele.

No dia seguinte à troca de mensagens, Monique levou Henry a um hospital em Bangu e alegou aos médicos que o filho tinha caído da cama.

Os prints dos diálogos de WhatsApp haviam sido apagados da galeria do telefone de Monique, mas a polícia conseguiu recuperar o conteúdo graças a um software israelense chamado Cellebrite Premium.

‘Rota de fuga’

O trecho destacado pela polícia vai das 16h30 às 18h03 de 12 de fevereiro. Nas primeiras mensagens, Henry está trancado com o padrasto na suíte do casal. Às 16h33, Thayná relata que Jairinho abriu a porta do quarto, e Henry vai para o colo dela.

Monique tenta detalhes, mas Thayná avisa que Jairinho rondava pela sala, “prestando atenção” no que estavam fazendo.

Às 17h, o vereador liga para a namorada, dizendo que tinha acabado de chegar em casa. “Pô, já chegou [tem] um tempão”, ressalta Thayná. “Estranho demais, responde Monique.

Às 17h03, Jairinho sai de casa, e Henry finalmente relata o ocorrido meia hora antes.

Thayná sugere à patroa uma “rota de fuga” para evitar novas agressões.

“Combinei com ele agora: toda vez que Jairinho chegar e você [Monique] não tiver, eu vou chamar ele para a brinquedoteca, e ele vai aceitar ir”, escreveu a babá.

“Porque estou aqui para proteger ele. Aí eu disse: ‘Se você confia na tia, me dá um abração. Aí ele me deu.”

Imagem recuperada pela polícia mostra Henry de braço dado com Thayná, a babá, depois de uma suposta sessão de tortura por Jairinho — Foto: Reprodução

Imagem recuperada pela polícia mostra Henry de braço dado com Thayná, a babá, depois de uma suposta sessão de tortura por Jairinho — Foto: Reprodução

23 lesões por ação violenta

O laudo da reconstituição da morte do menino Henry Borel, que o Fantástico deste domingo (11) mostrou com exclusividade, descartou “a possibilidade de um acidente doméstico (queda)”, a exemplo do que já tinha apontado a necropsia do corpo do garoto.

Os peritos afirmaram que as 23 lesões encontradas em Henry “apresentavam características condizentes com aquelas produzidas mediante ação violenta (homicídio)”. Entre essas lesões, estão, por exemplo, a laceração no fígado, danos nos rins e a hemorragia na cabeça.

Na última quinta-feira (8), foram presos o vereador carioca Dr. Jairinho (Solidariedade), padrasto da criança, e Monique Medeiros, mãe do garoto. A prisão se deu pela suspeita de homicídio duplamente qualificado –com emprego de tortura e sem chance de defesa para a vítima –, por atrapalhar as investigações e por ameaçar testemunhas para combinar versões.

Henry — Foto: Reprodução

Henry — Foto: Reprodução

A reprodução simulada do dia da morte do menino foi feita no dia 1º de abril. Policiais civis e peritos testaram todas as possibilidades de queda no quarto — como sustentaram o vereador carioca Dr. Jairinho (sem partido) e a professora Monique Medeiros, padrasto e mãe de Henry, em depoimento à polícia.

“Não há a menor hipótese de ele ter caído, quer seja da cama, quer seja da poltrona, quer de uma estante, que tem 1,20 metro de altura”, afirmou Denise Gonçalves Rivera, perita criminal da Polícia Civil do RJ.

“Fizeram todas as medições e viram que, em nenhuma dessas circunstâncias, ele teria essas lesões que a necropsia apresentou”, emendou.

Ainda segundo o laudo da reprodução, há lesões de baixa e de alta energia, provenientes de ações violentas entre 23h30 e 3h30. No depoimento, a mãe afirmou que o filho acordou três vezes com o barulho da televisão da sala, onde Monique e Jairinho assistiam a uma série.

“É possível que Henry tenha sido agredido cada vez que ele ia reclamar”, disse Denise.

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