Hall da Fama consagra Kobe e Duncan, ícones de uma fase de transições

A cerimônia de introdução de Kobe Bryant e Tim Duncan ao Hall da Fama do basquete, que acontece neste sábado, em Connecticut (EUA), promete ser mais emotiva que o habitual no evento que consagra, ano a ano, as maiores estrelas do esporte. As homenagens póstumas ao astro do Los Angeles Lakers, morto num acidente de helicóptero em janeiro de 2020, incluem uma apresentação de Michael Jordan, responsável por fazer as honras a quem muitos consideram seu sucessor na NBA.

É provável que Bryant tenha mesmo sido a segunda encarnação de Jordan dentro de quadra, pela semelhança de perfis, a ética do trabalho duro e treinos repetitivos ao extremo, os movimentos clonados, os troféus e a lista interminável de prêmios individuais. Mas a coincidência da consagração paralela de Tim Duncan marca a eternização de outro encontro simbólico. Entre 1999 e 2010, Lakers e San Antonio Spurs conquistaram 11 títulos da Conferência Oeste em 12 possíveis, com nove anéis de campeão. Os astros foram além. Protagonizaram uma transição de culturas e conceitos, no basquete e fora dele, na virada para o século que nascia.

Kobe recebeu o bastão de Michael Jordan, aposentado em definitivo em 2003, e tratou de reproduzir o gosto pelos holofotes, pelo time que jogava para si e pelo último arremesso em suas mãos. Nos ares cinematográficos de Los Angeles, onde atuou por todos os 20 anos de carreira, emulou a figura do super-herói, de quem todos esperam as soluções improváveis. O brilho individual intenso provocou desentendimentos com o outro astro da companhia nos primeiros anos, Shaquille O’Neal. Após a saída do pivô e a chegada de Pau Gasol, outro grande parceiro, mas com ego menos inflado, ficou claro nas mãos de quem estava a franquia.

Kobe alcançou a final da NBA sete vezes. Ganhou cinco. Foi eleito MVP da temporada regular em uma oportunidade (2008) e MVP das finais em duas (2009 e 2010). Esteve no Jogo das Estrelas por 18 vezes. Nos últimos quatro anos de carreira, porém, os Lakers não chegaram sequer aos playoffs. Restava claro há tempos. Apostar em super-heróis não fazia mais sentido. Ainda mais num herói em fim de jornada, que anunciou sua aposentadoria um ano antes. Teve seu tour de despedida, seu jogo final de 60 pontos, em detrimento do rendimento de sua equipe.

Um mundo (e uma liga) em transformação

Tim Duncan foi à final da NBA seis vezes. Ganhou os mesmos cinco títulos de Kobe. Foi eleito MVP da temporada regular em 2002 e 2003, e MVP das finais em 1999, 2003 e 2005. Esteve no Jogo das Estrelas em 15 oportunidades. O San Antonio Spurs, seu único time na carreira, foi aos playoffs em todas as suas 19 temporadas. A aposentadoria foi anunciada sem alarde, ao seu estilo, logo após a campanha de 2016. Mesmo sem sua maior estrela, o time texano jogou os playoffs pelos três anos seguintes. Os Lakers amargaram mais três temporadas sem playoffs depois de Kobe.

Outro dado marcante da relação de Duncan com a franquia é a questão salarial. Seus vencimentos foram crescentes até a 13ª temporada, quando chegou ao patamar de 22 milhões de dólares. Em 2012-2013, porém, aceitou um contrato de 9,6 milhões para que a equipe pudesse manter o elenco do ano anterior, que perdera a final do Oeste. Os Spurs ganharam a conferência nos dois anos seguintes. Duncan manteve o patamar de 10 milhões de dólares por três temporadas e fez cinco milhões no ano seguinte, seu último como jogador. Para efeito de comparação, Kobe teve salários crescentes até o 18º ano, chegando ao patamar de 30 milhões. Recebeu 23 e 25 milhões nas suas duas últimas temporadas.

Tim Duncan foi a mais humilde e menos midiática das grandes estrelas da NBA em tempos recentes. Natural das Ilhas Virgens americanas, ilhotas localizadas no Caribe, encontrou em San Antonio o ambiente perfeito. A cidade texana conta um milhão e meio de habitantes. Sob a liderança do lendário técnico Greg Popovich, o único com quem Duncan trabalhou em toda sua carreira, os Spurs tornaram-se o símbolo da ampla abertura da NBA para estrangeiros. Seus companheiros mais marcantes, Tony Parker e Manu Ginobili, vieram da França e da Argentina. Eram franzinos. Em nada lembravam as demonstrações de virilidade e as tentativas de intimidação dos ídolos até então.

A amizade, a liberdade e o respeito às diferenças eram refletidos dentro de quadra. O jogo coletivo dos Spurs, com intensa movimentação de bola e versatilidade dos jogadores, na defesa e no ataque, rivalizou com os Lakers por mais de uma década e foi a grande inspiração para o revolucionário Golden State Warriors a partir de 2014. Steve Kerr, técnico e mente por trás da dinastia californiana, jogou por quatro temporadas com Duncan e Popovich. Com os novos tempos de análise de dados cada vez mais apurada, a eficiência coletiva passou a ser medida em números. Numa clara passagem de bastão, as duas últimas vezes em que San Antonio ganhou a Conferência Oeste precederam as cinco vitórias seguidas dos Warriors.

Por fim, se Kobe Bryant recebeu as bênçãos de Michael Jordan, Tim Duncan ensinou um ou outro truque a LeBron James. Na primeira final do possível novo “melhor de todos os tempos”, em 2007, lá estavam os Spurs a varrer os Cavaliers. Seis anos depois, nas duas decisões contra o Miami Heat, um empate em anéis. A fase de transição estava completa, e o novo Rei posto. Neste sábado, o mundo faz as reverências a quem trouxe o basquete e o século XXI até aqui. Não vai faltar emoção em Connecticut.

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