Flamengo nacionaliza captação de promessas e mira América do Sul em busca de novos craques

Quando ficou sem Gerson para o jogo contra a LDU, na última terça-feira, o técnico Rogério Ceni escolheu o jovem João Gomes para substituir um dos principais jogadores do Flamengo. A opção revelou-se acertada: o volante de 20 anos, criado nas divisões de base rubro-negras desde os oito anos, foi um dos destaques da partida e consolidou-se como uma alternativa sólida num elenco recheado de estrelas.

O perfil de João Gomes, um atleta que chegou criança, cresceu e se desenvolveu na base do Flamengo, é apenas uma das facetas do trabalho de formação do clube. Sem deixar de lado suas raízes no Rio de Janeiro, a captação rubro-negra se expandiu nos últimos anos, criou processos de observação e aumentou ainda mais o leque de candidatos a craques.

Se Gomes e Hugo Souza são exemplos clássicos da formação tradicional, no mesmo elenco que viajou ao Equador havia também símbolos desta captação nacional do Flamengo: o lateral-direito Matheuzinho, trazido do Londrina para o sub-20 em 2019, e o atacante Rodrigo Muniz, contratado ao Desportivo Brasil em 2018.

É o que o gerente de futebol da base do Flamengo, Luiz Carlos, chama de meia confecção. Uma forma de trazer jogadores na fase final de formação, através de parcerias com os clubes de origem.

– Entendemos que a gente consegue trabalhar de forma paralela tanto a captação mais ampla lá embaixo, abaixo do sub-15, com futsal, escolinhas, projetos menores, e a captação meia confeccção, com clubes que entendem que o Flamengo é uma baita vitrine. Matheuzinho e Muniz são exemplos no elenco profissional. Temos um alinhamento com o futebol profissional muito claro, entendendo que o principal objetivo da base é atender a nossa equipe principal – afirmou o dirigente.

Carrossel Flamengo

DE OLHO NOS VIZINHOS

Antes de ser efetivado na gerência geral no início do ano, Luiz Carlos era o coordenador do departamento de captação do Flamengo. O setor vem crescendo e ampliando seu alcance. O último exemplo foi a contratação do volante paraguaio Fabrizio Peralta, de 18 anos, que agradou aos observadores em campeonatos sul-americanos de base.

Peralta foi observado in loco no Sul-Americano sub-17, no Mundial sub-17 e na Libertadores sub-20. Ele simboliza o próximo passo que o Flamengo pretende dar: ampliar ainda mais sua rede de observação rumo a outros países da América do Sul. Antes dele, o clube trouxe o volante Richard Rios, que se destacara pela seleção colombiana de futsal.

– Estamos presentes em todas as grandes competições da América do Sul. Tivemos scouts no Sul-Americano sub-15, no Mundial sub-17, no Sul-Americano sub-17, na Libertadores sub-20. Queremos ter um olhar mais atento para o mercado sul-americano. O Flamengo acaba sendo uma vitrine de referência – completou Luiz Carlos.

A estratégia rubro-negra é conseguir bons jogadores do futebol sul-americano a custo baixo, apostando no potencial de revenda. Peralta, por exemplo, veio por empréstimo com opção de compra. O Flamengo entende que, com sua visibilidade, pode convencer clubes sul-americanos de que, em vez de uma venda direta para a Europa, é mais vantajoso ter um segundo passo na América do Sul, preservando um percentual na segunda venda.

– Só podem vir para o Brasil atletas a partir de 18 anos. Mas nós já fazemos acompanhamento com garotos de 14, 15 anos da América do Sul – exemplificou Vitor Zanelli, vice-presidente da base do Flamengo.

Fabrizio Peralta, volante paraguaio contratado pelo Flamengo - Alexandre Vidal / Flamengo
Fabrizio Peralta, volante paraguaio contratado pelo Flamengo

POR TODO O PAÍS

O olhar do Flamengo, porém, não está voltado apenas para outros países da América do Sul. Dentro do Brasil, o clube ampliou sua rede de observação. Hoje, são 10 observadores espalhados em cinco regiões definidas pela captação. Além disso, há uma parceria exclusiva com o Trieste, tradicional clube formador do Paraná, que abrange todo o Sul do Brasil.

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Atualmente, o elenco sub-20 do Flamengo é dividido em dois grupos: A e B, sendo este segundo o antigo sub-18. Neste universo, por exemplo, 26 dos 64 jogadores nasceram no Rio de Janeiro. Todos os demais são de outros estados, a grande maioria oriunda do processo de captação. Há casos como o do atacante Werton, nascido em Benjamin Constant, uma cidade a três dias de barco de Manaus, capital do Amazonas.

– Há duas formas de conseguir atletas: passivamente, esperar que o atleta bata à sua porta. Temos o Cefan, que é um projeto passivo, todos aqueles que queiram fazer testes podem se inscrever lá. Passam por lá na faixa de 2 a 3 mil atletas por ano.

– E temos nossa busca, que acreditamos que tem que ser muito ativa. Buscamos várias estratégias: parcerias, temos que abrir vitrines, temos que ter parceiros, pontos de captação em locais onde o mercado é significativo, temos que ter observadores cobrindo todos os campeonatos – explicou Zanelli.

No momento, apenas o Norte do Brasil não tem um observador específico. Quando um jogador é identificado na região, um funcionário é deslocado para acompanhar o atleta. É um processo parecido com o utilizado fora do país, quando observadores veem os principais torneios.

A ideia, porém, é ampliar ainda mais a rede.

– Cada vez mais buscamos mais parceiros, mais pontos de captação. Temos identificadas diversas áreas que são de extrema relevância no mercado. Temos mapeadas no Brasil e sabemos diversas áreas em que existe potencial. Temos observadores e parceiros e buscamos cada vez mais ampliar esse grupo de parceria, essas frentes de observação – afirmou Zanelli.

DESAFIO NA PANDEMIA

Com a pandemia da Covid-19, o Flamengo precisou se adaptar no trabalho de captação. Categorias do sub-15 para baixo não tiveram competições. O deslocamento para acompanhar os poucos campeonatos que se mantiveram ficou mais difícil.

Assim, o departamento de captação passou a focar em parcerias com outros clubes, no processo de meia confecção. Só do Sport, que ficou sem calendário na base em 2020, vieram três atletas no fim do ano. Ferramentas de acompanhamento de jogos online tornaram-se ainda mais fundamentais para os observadores, que passaram a trabalhar de casa.

– Nós tivemos que nos readequar. A partir dos 16, 17 anos, temos trabalhado com meia confecção. Temos feito negócios com clubes tradicionalmente formadores, como Nova Iguaçu e Desportivo Brasil. Durante a pandemia, a gente se concentrou neste modelo de captação. Como não tivemos campeonatos ou treinos, usamos nossas ferramentas, e pontualmente, em clubes parceiros, mandamos scouts para ver treinos e acompanhar jogos – explicou Luiz Carlos.

O Flamengo estima ter trazido mais de 70 jogadores neste período – em todas as categorias, dentro de um universo de 350 a 400 atletas de base do clube. Nomes como o goleiro Gustavo e o lateral-esquerdo Zé Welinton, que vieram do Desportivo Brasil, foram campeões sul-americanos sub-15 com a seleção brasileira. Outros, como o lateral-direito Luan (Atlético-GO) e o atacante Gabriel Barros (Ituano) já atuavam em suas equipes profissionais.

– Alguns clubes pararam o trabalho de base, outros terminaram o trabalho de base. Muitos clubes precisavam de receita. Algumas coisas favoreceram a movimentação de mercado, e por isso a gente conseguiu trazer bons jogadores, excelentes, jogadores de seleção – completou Zanelli.

Gabriel Barros atuava no profissional do Ituano antes de ser contratado pelo Flamengo - Miguel Schincariol / Ituano
Gabriel Barros atuava no profissional do Ituano antes de ser contratado pelo Flamengo

OS DESAFIOS EM CASA

Apesar da ampliação do leque, o Flamengo também mantém atenção a suas raízes. A captação no Rio de Janeiro segue sendo uma das principais fontes de novos jogadores para a base. Dos 10 observadores rubro-negros, cinco ficam no estado.

Neste caso, o trabalho é direcionado para idades cada vez mais precoces. Os observadores veem de perto torneios de futsal, vão a clubes-satélites que têm parceria com o Flamengo e também acompanham projetos que o clube tem com a prefeitura do Rio, nas vilas olímpicas municipais e em comunidades.

A parceria mais recente foi com a subprefeitura da Grande Tijuca. O projeto, já iniciado, permite ao Flamengo observar talentos em comunidades da região.

– Sempre soubemos que precisávamos entrar de alguma forma nas comunidades. É um trabalho social, que ajuda o município a tirar criança da rua, a fortalecer o trabalho das vilas. Ao mesmo tempo, temos essa possibilidade de chegar mais perto dos jovens de baixa renda. Temos que fazer isso, por dois motivos: é nossa responsabilidade social e também há a questão de se aproximar. Historicamente, nós temos inúmeros atletas formados no Flamengo vindos de comunidades. A gente acha que esse percentual pode aumentar, com a gente entrando e conseguindo vários novos craques para o clube – afirmou Zanelli.

O ex-jogador Andrade é padrinho de um dos projetos do Flamengo na Grande Tijuca - Gilvan de Souza / Flamengo
O ex-jogador Andrade é padrinho de um dos projetos do Flamengo na Grande Tijuca

Além do trabalho nas comunidades, o futsal é outro celeiro importante no programa rubro-negro. Nessa área, o clube busca atletas cada vez mais jovens.

– No futsal fazemos captação em todo o Rio de forma excelente. Temos um perfil de trabalho específico, trabalhamos a fase de iniciação, buscamos dominar o Rio nisso – disse Zanelli.

– A gente entende que o futebol de base está cada vez mais precoce. Se antes a gente captava atletas com 14 ou 15 anos, hoje entendemos que, se não for agressivo com 10, 11 anos… Hoje nosso futsal começa com sete ou oito anos – completou Luiz Carlos.

Jovens jogam futsal no Morro da Formiga, durante trabalho de captação do Flamengo - Marcelo Cortes / Flamengo
Jovens jogam futsal no Morro da Formiga, durante trabalho de captação do Flamengo

O PROCESSO

A busca do Flamengo por jogadores se explica também financeiramente. Nos últimos anos, as principais receitas rubro-negras vieram da venda de atletas formados em casa, como Vinicius Junior, Lucas Paquetá e Reinier: R$ 465 milhões ao todo, somando os três negócios.

Muito por conta disso, o principal critério na avaliação de jogadores é a parte técnica. O Flamengo tem um processo definido para ajudar na observação de atletas numa escala nacional.

– O principal critério é técnico. E, dentro deste critério, temos um caderno metodológico que a gente aplica na nossa avaliação. E, aí, vão entrando outros comportamentos: tático, físico, mental.

– Por exemplo: um zagueiro, hoje, para a gente avaliar, precisa ser rápido e que saiba construir jogo. Não podemos ter um zagueiro com dificuldade de construção de jogo. Todas as equipes de base do Flamengo jogam em linha alta e com zagueiro saindo para construir jogo. Um centroavante precisa saber sair da área e fazer jogo de pivô, não pode ter só a última bola. Um extremo tem que ter drible. Cada posição tem suas ações básicas muito bem definidas – contou Luiz Carlos.

– Para os mais novos, o critério técnico é fundamental, mas também pesam outras coisas, como idade maturacional, perfil do menino. O componente tático entra pouquíssimo. Não estamos preocupados com questão tática para um garoto de 14 anos para baixo. Queremos estimular nele a potencialidade técnica. Não adianta ter um extremo nesta idade com boa parte tática, mas que não saiba driblar, por exemplo – completou o gerente da base.

Lucas Paquetá, Reinier e Vinicius Junior renderam R$ 465 milhões ao Flamengo - ge
Lucas Paquetá, Reinier e Vinicius Junior renderam R$ 465 milhões ao Flamengo

Para chegar até a decisão de trazer ou não um menino, o processo de captação do Flamengo passa por diversas etapas:

  • Passo 1: Mínimo de cinco jogos de observação, com um relatório gerado a cada partida pelo observador;
  • Passo 2: Caso a avaliação atinja o critério mínimo definido pelo Flamengo, o atleta é observado por mais cinco jogos;
  • Passo 3: Após 10 jogos de avaliação, em caso de aprovação, o coordenador de captação leva o nome para a avaliaçao do gerente da base;
  • Passo 4: Se o gerente da base aprovar o nome, abre-se negociação com o clube do jogador observado.

O cuidado na observação é estratégico. A ideia do Flamengo é conseguir trazer cada vez mais jogadores de boa qualidade técnica, para que, com a estrutura oferecida pelo clube, eles possam se desenvolver da forma esperada.

– Se não captar bem, por mais que tenha um excelente modelo de desenvolvimento, é preciso ter jogador de altíssimo nível, precisa ter os melhores. E isso acaba sendo alinhado com a área técnica e de captação para que possamos ter os talentos aqui. Uma coisa soma-se à outra, sabendo que o sarrafo para poder jogar no elenco profissional do Flamengo, hoje, é altíssimo – ponderou Luiz Carlos.

– Buscamos aumentar cada vez mais a nossa capacidade de observação e melhorar os nossos critérios de avaliação. A gente quer cada vez jogadores melhores, estamos sempre dando um upgrade no nosso patamar – completou Zanelli.

ONDE FICAR?

Em caso de um jogador vindo de fora do Rio, há ainda a questão do alojamento, sensível desde o incêndio no Ninho do Urubu em 2019.

A estrutura atual do Flamengo tem um hotel com 24 quartos duplos, com refeitório, academia, sala de estudos, além de serviços de fisiologia, nutrição, psicologia, assistência social e pedagogia.

Módulo da base do Flamengo no Ninho do Urubu - Divulgação
Módulo da base do Flamengo no Ninho do Urubu

Entretanto, desde o início da pandemia, não há jogadores alojados no Ninho. Os atletas que vieram de fora no período estão morando com outros atletas ou foram hospedados em hotéis pelo clube.

A quetão do alojamento torna-se importante, porque, somente entre os jogadores com idade de sub-20 no clube, há mais jogadores nascidos fora do Rio de Janeiro do que no estado: 38 contra 26.

O número também reforça que o velho lema de que o Flamengo faz craque em casa tem agora uma atualização:

– A gente sempre acredita que pode ter um craque em qualquer lugar – afirmou Zanelli.

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