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‘Estou desesperada’: apagão no CNPq preocupa cientistas brasileiros

Pesquisadores de todo o país estão sem acesso à plataforma Lattes desde o fim de semana após uma pane técnica. O sistema do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, congrega os dados de todos os personagens da ciência no Brasil e de seus trabalhos ao longo de anos.

O problema está sendo chamado de “apagão do CNPq”. A Plataforma Carlos Chagas, que organiza informações de pesquisadores e bolsistas do CNPq, também passa por problemas de acesso.

Ainda não foi divulgado o que exatamente causou a falha de acesso. Marcos Pontes, ministro da pasta, falou durante live nesta quarta-feira (28) apenas que, em conversa com o presidente do CNPq, soube que o problema ocorreu em um componente de um dos computadores. Isso gerou problema na interface dos sistemas vinculados.

“O Lattes é como um mapa da ciência brasileira. Ali estão os dados de pesquisadores da graduação, da pós-graduação, cadastrados em suas linhas de pesquisas, tudo sistematizado. Temos tudo dos cérebros brasileiros. E ele também é uma referência, um currículo dos pesquisadores”, afirma Flávia Calé, presidente da Associação Nacional de Pós-graduandos.

A equipe do Lapis (Laboratório de Processamento de Imagens de Satélite) da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), por exemplo, tenta desde o sábado acessar os dados de um certificado do INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) referente a um projeto pioneiro sobre a influência do clima na sazonalidade do novo coronavírus e outros patógenos (organismos que podem causar doenças).

“A informação do registro do programa certificado é parte da atividade do meu projeto da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior]. Desde o fim de semana, eu e minha equipe tentamos registrar o certificado no Lattes, sem sucesso”, conta o cientista Humberto Barbosa, coordenador do Lapis.

A pesquisadora da área de linguística Larissa Gomes afirma que está em risco de perder a inscrição em uma seleção de mestrado na área de comunicação, em São Paulo, por não conseguir acessar suas informações no Lattes.

“Quando eu abri a plataforma estava dando erro. Daí descobri pelo Twitter o apagão. Sem o currículo, posso ser eliminada dessa seleção, já que eles pedem o envio da documentação pelos Correios até o dia 30. Estou desesperada, espero que abram exceção”, conta ela, que é mestranda da Unioeste, em Foz do Iguaçu (PR).

De acordo com comunicado oficial do CNPq, o problema que causou a indisponibilidade dos sistemas foi diagnosticado e os procedimentos para sua reparação foram iniciados. Ainda não se sabe o prazo que isso levará.

“O CNPq já dispõe de novos equipamentos de TI e a migração dos dados foi iniciada antes do ocorrido. Independentemente dessa migração, existem backups cujos conteúdos estão apoiando o restabelecimento dos sistemas. Portanto, não há perda de dados da Plataforma Lattes”, explica o órgão.

“O CNPq já dispõe de novos equipamentos de TI e a migração dos dados foi iniciada antes do ocorrido. Independentemente dessa migração, existem backups cujos conteúdos estão apoiando o restabelecimento dos sistemas. Portanto, não há perda de dados da Plataforma Lattes”, explica o órgão.

Riscos mais à frente

Além dos prejuízos imediatos, a plataforma Lattes também é ferramenta usada para prestar contas de projetos financiados com recursos públicos. “Como estamos em fase de encaminhar os dados para a avaliação dos programas de pós-graduação, não sei se haverá algum atraso ou outro prejuízo”, conta Alcides Miranda, professor e pesquisador na área de medicina da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Segundo ele, problemas similares já eram percebidos há meses em outros sistemas federais. “O problema ocorrido agora é compatível com os que temos tido constantemente para acessar outras bases de dados. Como dou aulas práticas com acesso online ao Datasus [Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde], tenho tido inúmeras dificuldades e prejuízos com os constantes ‘apagões’ e problemas de acesso”, relata.

A doutoranda em biologia celular e molecular Ana Beatriz dos Anjos Souza, que faz pesquisa na USP (Universidade de São Paulo) em Ribeirão Preto, também conta ter percebido vários colegas comentarem sobre os problemas, levantando inclusive o debate sobre a falta de segurança dos dados contidos no sistema.

O medo da perda de dados

Apesar de o CNPq ter informado que o problema não envolve perda de dados, e que existem backups de informações que estão apoiando o restabelecimento dos sistemas, os pesquisadores continuam com medo.

“Um dos principais deveres dos pesquisadores é a responsabilidade sobre o armazenamento e proteção dos nossos dados, como os resultados de pesquisas, dissertações e teses. Falhas no armazenamento do banco de dados do principal órgão de fomento à pesquisa no Brasil escancara a falta de investimento e manutenção em equipamentos vitais do sistema. São anos de pesquisas e dados relevantes para a comunidade”, aponta a doutoranda em biologia da USP.

Tilt ouviu ainda pesquisadores que relataram temor caso o problema siga por muito tempo. “Ainda não tive problema na prática. Mas se o problema se prolongar, ou caso os dados não sejam recuperados, certamente, os desafios serão enormes”, explica a pesquisadora na área de epidemiologia Jaila Borges, da UFAM (Universidade Federal do Amazonas).

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