Estação de tratamento desativada no Flamengo, zona sul do Rio, ainda pode estar recebendo esgoto

Pesquisadoras que monitoram o Rio Carioca coletaram, neste sábado (7), amostras da foz para analisar a qualidade da água que ainda está chegando à Baía de Guanabara. A suspeita das cientistas é de que ligações clandestinas continuam despejando esgoto entre a unidade de tratamento de rios (UTR) no Flamengo, Zona Sul, que recentemente foi desativada.

Maria Lobo, coordenadora do grupo de observação do Rio Carioca da S.O.S. Mata Atlântica é uma das pesquisadoras que vêm monitorando a qualidade da água do Rio Carioca há quase uma década. Neste sábado, com outra cientista, ela coletou amostras da água na foz do Carioca, na Praia do Flamengo.

O leito do Carioca, que fica em frente à UTR, está quase seco. O Rio, que trazia lixo e esgoto, foi desviado esta semana para o interceptor oceânico. Dali, vai para o emissário submarino em Ipanema.

O resultado da coleta só deve sair nos próximos dias, para a maioria dos 14 parâmetros analisados. Mas, neste sábado, alguns aspectos da água já chamaram atenção das cientistas. Água escura e cheiro de mofo são algumas das características notadas.

Na Praia do Flamengo, a equipe do RJ2 percebeu que a água estava mais transparente. Também havia pescadores e algumas tartarugas.

A UTR que existia no local foi criada para reduzir a poluição da Baía de Guanabara. A água tratada do Rio Carioca passava por baixo de um deque de madeira e chegava à foz, na praia.

Os pesquisadores descobriram que, embaixo de um determinado ponto do deque, havia uma conexão para drenar água da chuva que, até recentemente, levava também uma grande quantidade de esgoto.

De acordo com a concessionária Águas do Rio, só em abril o esgoto que chegava à foz do Rio Carioca começou a ser bombeado e, agora, também está sendo desviado para o interceptor oceânico. Mas os estudos continuam e a situação tem sido monitorada.https://4abbcae02397f3a4e7d80bdd072868a9.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Rio Carioca começa no Parque Nacional da Tijuca e desagua na Baía de Guanabara — Foto: Reprodução/TV Globo

A concessionária acrescentou que, em dias de chuva, é possível que a tubulação volta a poluir a Praia do Flamengo. Como notaram as pesquisadoras, a água mais escura dentro da UTR desativada pode ser de esgoto de ligações clandestinas no trecho entre a unidade de tratamento e a foz.

Uma lei complementar municipal de 2019 incluiu na autovistoria de prédios a verificação das condições de conservação das ligações ao sistema público de coleta de esgoto.

O objetivo era garantir que, quando necessário, fossem tomadas medidas reparadoras. As cientistas, entretanto, dizem que a lei não vem sendo cumprida.https://4abbcae02397f3a4e7d80bdd072868a9.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Onde nasce o Rio Carioca

No alto da Floresta da Tijuca, o Rio Carioca nasce cristalino e percorre bairros da Zona Sul até desaguar na Baía de Guanabara. O Carioca é um rio histórico, que há séculos abastece parte da população do Rio. Mas também um rio que retrata o abandono com o passado e o meio ambiente.

Rio Carioca nasce cristalino na Floresta da Tijuca e deságua sem vida na Baía de Guanabara

Os repórteres Carlos de Lannoy e Júnior Alves percorreram o Rio Carioca, da nascente à foz, e conferiram de perto a triste transformação (veja na reportagem acima).

Nascente do Rio Carioca, no meio da Floresta da Tijuca — Foto: Júnior Alves/Reprodução/TV Globo

Para preservar a nascente, no meio do Parque Nacional da Tijuca, não há trilha até a nascente. A equipe do RJ2 entrou na área de mata fechada acompanhada de guias.

Ao chegar na nascente, os monitores e todos os integrantes da equipe fazem questão de beber e molhar o rosto. Testes realizados pelo parque comprovam a alta qualidade da água.

À medida que desce, o rio vai ganhando força. Em mais de uma hora de caminhada, a água cristalina deixa a mata virgem e encontra o primeiro sistema de captação do Rio Carioca: a Banheira do Imperador.

Por uma trilha, a equipe cruzou antigas ruínas, como uma casa da época em que diversas fazendas ocupavam a área, provocando o desmatamento da floresta e a destruição de algumas nascentes.

Ainda dentro do parque, a água do Carioca acelera e tem uma sequência de quedas. No meio das pedras, a água é desviada em tubulações para abastecer comunidades vizinhas.

Mais abaixo, chega-se à Caixa da Mãe D´Água (veja abaixo), um reservatório do século 18 – uma prova que o rio é cheio de história. Era de lá que saía um aqueduto, hoje conhecido como Arcos da Lapa, que levava a água do Carioca até o Centro.

Caixa da Mãe D'Água, reservatório do século 18 na Floresta da Tijuca por onde passa o Rio Carioca — Foto: Júnior Alves/Reprodução/TV Globo

“No século 18, com a necessidade de aprimorar cada vez mais a chegada de água na cidade foi construída a passagem de água da Mãe D’água, junto disso o Aqueduto Carioca. Ele levava água do Rio Carioca até a ponta. Ele chegava ao Largo da Carioca, passando pelos Arcos da Lapa, ia abastecendo todas as pontes de chafarizes da cidade. Foi a maior obra de engenharia realizada na época”, explica Carlos Tavares, chefe do Parque Nacional da Tijuca.

O carioca passa por Santa Teresa, comunidade dos Guararapes, Cosme Velho, Laranjeiras, Flamengo e deságua na Baía de Guanabara (veja mapa abaixo). Quando deixa a Floresta da Tijuca, a maior parte do rio é encanada e passa por baixo do asfalto.https://4abbcae02397f3a4e7d80bdd072868a9.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Vista aérea da praça vazia nos Arcos da Lapa, antigo Aqueduto Carioca — Foto: Mauro Pimentel/AFP

Morte no percurso

O desperdício e os problemas do rio começam logo depois da Caixa da Mãe d´Água. Entre os Guararapes e o Cosme Velho, o Carioca ganha um cheiro forte, com lixo e esgoto.

O engenheiro Antonio Carlos Guedes lembra que, em meados de abril, um imenso buraco se abriu na Rua Cosme Velho, por problemas de drenagem do Carioca.

“Ali, é uma sequência de erros: um vazamento de água, uma drenagem deficiente, uma quebra do teto da galeria e o afundamento que foi descoberto na procura do vazamento.”

No Cosme Velho, o lixo acumulado nas grades forma uma represa. Logo adiante, as águas correm por dentro de um canal que chega até a Baía de Guanabara. Na segunda-feira (2), o RJ2 mostrou a unidade de tratamento do rio na Praia do Flamengo estava sem funcionar havia quase um mês. Uma língua negra de esgoto podia ser vista do alto na água do mar.

Língua negra na Praia do Flamengo — Foto: Reprodução/TV Globo

“O rio, na nascente, ainda é um rio lindo, limpo (…) A partir de algum ponto, que a gente não tem como detectar, ele realmente está morto, porque não tem mais vida nenhuma. Não tem peixe, não tem mais nada”, diz Luciana Falcão Lima, engenheira civil e integrante do Comitê de Bacias da Baía de Guanabara.

Rio Carioca: símbolo do Rio de Janeiro tem 4,3 km de extensão, mas praticamente não é visto pelo povo que leva seu nome — Foto: Júnior Alves/Reprodução/TV Globo

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