Emprego formal avança enquanto o desemprego bate recorde; entenda

Comemorados pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, os dados divulgados nesta quinta-feira (1) do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apontaram que o país criou quase 281 mil novas vagas de trabalho com carteira assinada em maio. 

Isso elevou o total de empregados nessa categoria para 40,6 milhões, 0,7% mais que no mês anterior e 6,8% acima de maio do ano passado, no auge da primeira onda de infecções do coronavírus e da recessão que ela causou no Brasil. 

Foi o quinto mês seguido de aumento nessa força de trabalho e o 10º positivo dos últimos 11 meses, consolidando uma tendência de recuperação apontada pelo Caged desde junho do ano passado, após os cortes violentos de emprego que a pandemia tinha causado nos meses anteriores. 

A tendência contrasta bastante, porém, com a outra grande pesquisa mensal do mercado de trabalho brasileiro: a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que olha para os trabalhadores de todas as categorias e calcula a taxa oficial de desemprego. 

Divulgada apenas um dia antes, com dados referentes a abril, a Pnad Contínua apontou uma taxa de desemprego que não só está subindo, como renovando recordes: ela foi a 14,7% na média dos três meses encerrados em abril, o maior nível registrado desde 2012, quanto a pesquisa começou a ser feita. 

Abril foi o pior mês da pandemia no Brasil e também o mês de 2021 que mais sofreu com lockdowns pelo país, e é natural que os números dele, mostrados pela Pnad, estejam piores que os de maio, já atualizados pelo Caged. Ainda assim, as duas pesquisas vêm apontando para tendências opostas desde o início da pandemia, no ano passado. 

Enquanto o Caged mostra melhora no mercado de trabalho mês a mês há quase um ano, a taxa de desemprego medida pela Pnad não parou mais de subir: em janeiro do ano passado, antes da pandemia, ela estava em 11,2%, e foi avançando desde então até os 14,7% atuais. 

Os dois levantamentos têm diferenças metodológicas importantes que ajudam a explicar o descolamento, mas muitos economistas acham que impactos da pandemia na maneira de executá-las pode também estar distorcendo os dados.  

Mercado formal x mercado total 

A Pnad Contínua é a pesquisa de emprego mais ampla do país, feita pelo IBGE por meio de entrevistas. Com a amostragem dos entrevistados, o IBGE estima o total de pessoas trabalhando, procurando emprego ou que desistiram de trabalhar, além de olhar para todas as categorias: empregados com e sem carteira assinada, servidores públicos, empresários ou empregadores e autônomos. 

Já o Caged, como indica o seu nome por extenso, é a base de cadastro geral de contratos trabalhistas iniciados e encerrados pelas empresas a cada mês, e olha exclusivamente para os empregos formais.

As empresas são obrigadas a repassar essas informações para a Secretaria Especial do Trabalho do Ministério da Economia a cada vez que contratam ou desligam um funcionário registrado pela CLT, e é dessa base de dados que vêm os balanços do Caged. 

Pela Pnad, o grupo CLT representa cerca da metade de toda a força de trabalho brasileira hoje. Como ele tem seguranças e também custos que outros grupos de trabalhadores não têm, como empregadores e autônomos, não é incomum que ande em direções diferentes do restante em muitos momentos. 

Além disso, os dados do Caged são mensais, enquanto os da Pnad são por trimestres móveis, quer dizer, eles apontam sempre a média observada ao longo dos últimos três meses, todo mês, o que pode levar também a diferenças nas variações.

Mais emprego não é tudo 

Também ajuda a explicar o desemprego crescente o fato de que ele não é uma conta de um lado só: tecnicamente, a taxa de desemprego é a proporção de todas as pessoas que estão sem trabalho dentro do grupo de todas que querem estar trabalhando. 

Isso significa que não basta só criar mais empregos. Se o número de pessoas querendo trabalhar cresça mais rápido, o número de desempregados vai crescer também: e é o que está acontecendo na retomada da pandemia. 

Conforme a economia voltou a se mexer depois do choque inicial, profissionais que foram demitidos ou que são autônomos e não tinham como trabalhar, por exemplo, foram também voltando a procurar uma posição no mercado de trabalho. Mas a oferta de oportunidades cresceu menos do que a procura por elas, e por isso a taxa de desemprego medida pela Pnad seguiu aumentando.

“A população ocupada cresceu entre março e abril (0,4% segundo nossas estimativas), mas o número de pessoas em busca de emprego apresentou elevação mais expressiva no período (0,7%)”, escreveu a XP em relatório desta semana sobre a Pnad. “Este movimento impediu a queda da taxa de desocupação.”

Impactos da pandemia e mistério nos números 

É pelas diferenças de metodologia que os números das duas pesquisas, apesar de aproximados, não são idênticos: nos três meses encerrados em abril, a Pnad contou 29,6 milhões de trabalhadores no regime CLT, enquanto o Caged mostrava 40,3 milhões para aquele mês. 

Essa distância entre uma e outra é normal e sempre existiu, mas começou a se descolar e foi ficando maior ao longo da pandemia. 

Desde o início da pandemia, as entrevistas de mercado de trabalho feitas pelo IBGE para montar a Pnad mensalmente deixaram de ser presenciais e passaram a ser feitas por telefone. Uma parte dos economistas acredita que isso pode explicar os resultados aparentemente mais pessimistas mostrados por ela do que de fato seria a realidade.

Um dos mistérios ainda por serem respondidos é que, mesmo considerado apenas o recorte de empregos com carteira assinada da Pnad, que é o mesmo do Caged, as tendências, que sempre andaram juntas, começaram a seguir por direções opostas desde o ano passado.

Pela Pnad, o grupo CLT vem perdendo vagas há vários meses e, em abril deste ano, estava 8% menor que em abril do ano passado. Pelo Caged, este grupo cresceu 5%, também na mesma comparação entre os meses de abril dos dois anos. 

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