Em meio a demissões, escolas de samba lutam pelo Carnaval: “Grito de liberdade”

Alegrias, sorrisos, abraços, beijos, músicas, danças, festas e aglomerações. Assim se define o Carnaval brasileiro, festa anual que reúne pessoas de todo o mundo para ouvir o samba-enredo e assistir aos desfiles multicoloridos nas avenidas espalhadas pelo país. As festividades deste ano, porém, tornaram-se mais uma incerteza devido à pandemia da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Com a impossibilidade de reunir equipes para iniciar os trabalhos, que levam meses a fio, escolas de samba passam por calvários para manter seus funcionários e enfrentar a crise econômica que assola o Brasil.

Com atividades suspensas desde março, o Carnaval deste ano, tipicamente marcado para fevereiro, foi adiado para o mês de julho. Mesmo com a chegada da vacina, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (DEM), suspendeu as festividades carnavalescas de 2021 na cidade, causando paralisação das confecções e demissões em massa dos empregados. Até mesmo a Beija-Flor de Nilópolis e a Grande Rio — duas das mais ricas agremiações do Rio — demitiram a sua equipe na tarde da última quinta-feira (21/1).

Com a decisão de Paes e o fato de o Carnaval carioca ser o epicentro das festividades, por causa do turismo e das competições na Marquês de Sapucaí, o clima de incerteza tomou conta de escolas de samba por todo o país. Em São Paulo, presidentes de agremiações ponderam formas de continuar com seus trabalhos para um possível desfile em julho. Já em Brasília, escolas reclamam da falta de atenção do governo e pedem por ajuda. Por fim, no Rio de Janeiro, o clima é de concordância: tristeza.

Rio de Janeiro

“É uma situação desesperadora.” Assim define Fábio Pavão, vice-presidente da Portela, sobre a situação econômica da escola no atual cenário. Segundo Fábio, a escola iniciou sua disputa pela escolha do samba-enredo por meio de lives, mas sem renda necessária para dar continuidade aos trabalhos – que envolvem preparação de fantasias, alegorias e pagamento de funcionários -, a escola decidiu por interromper a produção.

“Temos vários funcionários sem o pagamento em dia, pois não possuímos fonte de renda. A possibilidade de serem demitidos é grande, estamos esperando por uma luz no fim do túnel, uma ajuda emergencial da prefeitura. Se não houver alguma definição nos próximos dias, vamos ter, sim, que demitir todos os nossos funcionários de carteira assinada”, declara Pavão ao Metrópoles, que ainda definiu a decisão da prefeitura de suspender o Carnaval em julho como “precipitada”.

“Nós estamos pensando em fazer algo on-line [em fevereiro], pois a escola de samba precisa existir na data do Carnaval. Já em julho não dá mais, porque as escolas foram desmobilizadas. O Carnaval na avenida fica impossível”, finaliza.

Já Fernando Horta, presidente da Unidos da Tijuca, revela que a escola esperava por um plano de vacinação mais ágil. “Mesmo sem Carnaval, a gente sobrevivia com shows, aluguel da quadra, e está tudo parado desde março do ano passado. O dinheiro do Carnaval não pagava as despesas do barracão, da quadra, era só para o Carnaval na avenida.”

Mesmo com as receitas por meio de lives, feijoadas e venda de camisas, Vila Isabel, Portela, Salgueiro, Mocidade Independente de Padre Miguel, Unidos da Tijuca, Beija-Flor de Nilópolis e Grande Rio suspenderam seus trabalhos por falta de verba. Algumas, como Padre Miguel, optaram por fechar o seu barracão.

“A Beija-Flor estava se preparando, eu já estava dançando na quadra, sozinha praticamente, de máscara e sempre com álcool. Era diferente, mas era uma maneira de manter o samba vivo. As escolas de samba vão se reinventar, vão planejar um Carnaval incrível para 2022. O Carnaval não é só folia, é profissionalizante, é meio de subsistência, tirando crianças da rua, ajudando jovens a ter um caminho por meio da cultura. É a primeira vez, em 33 anos, que não vou para a avenida”, conta, emocionada, Selminha Sorriso, porta-bandeira da Beija-Flor.

São Paulo

Em São Paulo, outro foco de competitividade do Carnaval na avenida, a situação é um pouco mais leve, em comparação ao Rio de Janeiro. Ainda sem uma decisão oficial sobre o acontecimento das festividades em julho, escolas de samba se preparam e mantêm ensaios de bateria, além da confecção de fantasias, com equipe reduzida para evitar aglomerações. Neste caso, sambistas garantem que estão sendo amparados pela prefeitura do estado.

 

“Demos continuidade a alguns processos fabris, e com o início dessa produção a gente começa a ter um norte quanto a estar pronto para o Carnaval em julho. Não trabalhamos a pleno vapor, trabalhamos com a margem de produção mínima. A perda de emprego é muito grande, estamos trabalhando pela prudência do espetáculo. Temos uma grande sorte de o Carnaval ser extremamente valorizado pelos gestores públicos de São Paulo, estamos muito próximos da prefeitura, as decisões são coletivas. A prefeitura está ajudando, cumprindo compromissos contratuais, e nos dando a possibilidade de ajudar aqueles que vivem do Carnaval, com renda familiar”, diz Marcio Santana, diretor de Carnaval da escola Dragões da Real.

 

Vai ser um grito de liberdade quando falar que pode ter Carnaval, porque aí, sim, entenderemos que a pandemia acabou.

MARCIO SANTANA, ESCOLA DRAGÕES DA REAL

“Quando tiver Carnaval, significa que esse cenário de horror chegou ao fim, ou pelo menos está sob controle. Ainda é um cenário de incertezas. Estamos na torcida de que aconteça”, finaliza.

Brasília

Conhecido pelos seus tão famosos bloquinhos de rua, o Carnaval brasiliense também vive um cenário de completa incerteza. Decreto publicado em 18 de novembro pelo Governo do Distrito Federal (GDF) cancela o Carnaval de 2021 na capital federal, permitindo apenas atividades coletivas culturais, de qualquer natureza, quando ocorrerem em estacionamentos, desde que as pessoas permaneçam dentro de seus veículos, devendo ser observada a distância mínima de dois metros entre cada carro, e que sejam cumpridos os protocolos e medidas de segurança gerais estabelecidos.

 

Rafael Fernandes, presidente da Associação Recreativa Cultural Unidos do Cruzeiro (Aruc), disse ao Metrópoles que as escolas de samba de Brasília enfrentam problemas financeiros e de falta de assistência do governo desde antes da pandemia. Segundo ele, a escola tem buscado formas de se reinventar para manter, sem aglomerações e de acordo com as regras sanitárias contra a Covid-19, as festividades deste ano.

 

“Já tínhamos como certo a não realização do Carnaval, temos expectativas de fazermos pequenos eventos na nossa quadra, de acordo com a legislação. Desde que nós escolhemos o samba-enredo em outubro, consideramos a hipótese de fazer um minidesfile. Temos o samba, mas não temos nada de fantasia. A bateria tem ensaiado, sem público, para não perder o ritmo. Cobramos o uso de máscaras, todos ficam distantes em área aberta”, conta.

 

Rafael, porém, afirmou que sente falta de conversas entre as escolas de samba de Brasília e a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec-DF): “A Secretaria de Cultura pode chamar a escola de samba para discutir, a gente espera ouvir o que eles têm para oferecer. Temos essa preocupação da volta do Carnaval e sentimos falta de uma conversa com as escolas de samba”.

Salvador

Em Salvador, o prefeito Bruno Reis (DEM) afirmou em entrevista coletiva na sexta-feira (22/1) que a tendência é cancelar o Carnaval deste ano, mesmo em julho, mas optou por não confirmar a suspensão da festa.

“A tendência é adiar, mas eu prefiro aguardar o desenrolar dos fatos, quais laboratórios vão produzir e a capacidade, para dar palavra concreta. Mas a tendência é não ocorrer em julho”, disse.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: