Em dois meses, país tem mais de 23 mil novas internações de crianças por Covid-19 ou suspeita

Dados do Sivep-Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe) contabilizados e pela plataforma SP Covid-19 Info Tracker, que mostra que nos meses de março e abril de 2021, foram encontrados no país 23.411 novas internações de crianças por SRAG ( Síndrome Respiratória Aguda Grave), com confirmação ou suspeita de Covid-19.

Foram 13.011 internações de crianças com idades entre 0 e 14 anos em março e 10.400 em abril, de acordo com a plataforma, criada por pesquisadores da USP e da Unesp com apoio da Fapesp para acompanhar a evolução da pandemia.

Até o dia 17 de maio de maio anterior registrado 4.733 internações desse público, atingindo 7.164 novas internações no dia 24 —ou seja, 2.431 novas hospitalizações em sete dias.

“Pouco se discutiu a questão dos casos e internações de crianças porque na primeira onda se falava que elas eram resistentes à Covid-19 e aos casos mais severos”, afirma Wallace Casaca, coordenador da plataforma.

“Com o surgimento das variantes , o cenário mudou. É importante abrir esse debate. Em 2021, a pandemia ficou mais letal para jovens e crianças. Além das variantes, houve o reflexo da reabertura das escolas em fevereiro, o que não deveria ter ocorrido . ”

Menina de 5 anos que teve SIM-P (Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica), uma manifestação associada à Covid-19 que atingiu mais de 100 crianças no estado de SP

Se comparados os meses de dezembro de 2019, quando ainda não havia sido detectado no Brasil, e de 2020, o aumento nas novas internações de crianças por SRAG foi de 618%, passando de 1.062 para 7.626 hospitalizações. Em relação às mortes, a alta foi de 218,18%.

Para Francisco Ivanildo de Oliveira Junior, infectologista e gerente de qualidade do Sabará Hospital Infantil, o aumento no percentual de crianças internadas reflete uma explosão de casos entre uma população.

“Durante algum tempo houve uma minimização da gravidade em criança. Covid-19 em criança não é uma gripezinha. A gente sabe, e os números estão aí para mostrar, que pode ter formas graves. Com menos de um ano de idade, há chance de desenvolver forma grave é maior, com comprometimento pulmonar importante e pneumonia ”, explica.

De janeiro a 24 de maio de 2021, o país registrou 46.717 novas hospitalizações e 886 mortes. O período concentra 60,9% do total de novas internações de crianças e 36,9% das mortes notificadas em 2020.

“Quando você vai estudar e entender por que uma criança morre de Covid-19 , você vê que tem muito mais determinantes socioeconômicos, a etnia, região onde mora, uma dificuldade de acesso ao serviço de saúde e um atendimento adequado”, afirma Oliveira Junior .

Em todo o período, uma faixa etária entre zero e 4 anos concentração o maior número de internações (28.361) e mortes (522). Em maio, por exemplo, dos 7.164 registros, 4.448 estão nesse intervalo etário.

“Daqui para a frente, uma coisa que está sendo vista em países com a vacinação mais avançada, uma população vacinada adoecerá menos e a infantil a ter uma representatividade maior nas estatísticas da doença”, diz Oliveira Junior.

Em 2021, o mês com a média mais alta de novas internações foi março (420), seguido por abril (347), fevereiro (327), maio (299) e janeiro (225).

“A Covid-19 também é perigosa para o público infantil. Por exemplo, um SIM-P (Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica) tem em torno de 8% da taxa de mortalidade ”, explica Marcelo Otsuka, pediatra, infectologista, coordenador do Comitê de Infectologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Infectologia e vice-presidente departamento de infectologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

Caracterizada pelo comprometimento de múltiplos órgãos e sistemas, um SIM-P é uma alteração relacionada a uma resposta imunológica desencadeada pela infecção pelo coronavírus.

A doença pode ocorrer na vigência da infecção, com a presença do vírus, ou semanas após o quadro agudo. Pelo menos 80% das crianças com a síndrome de necessidade ser internadas em UTI.

Entre os hospitais públicos de referência para a criança na cidade de São Paulo – Hospital Infantil Cândido Fontoura (zona leste), Hospital Infantil Darcy Vargas (zona sul) e Hospital Municipal Menino Jesus (Centro) -, uma média diária de internações por Covid- 19 confirmada ou suspeita também alcançou índices altos.

No Cândido Fontoura, que é estadual, março, abril e maio de 2021 registraram a maior média diária de hospitalizações —19, 29 e 22. O Darcy Vargas, que também pertence ao estado, o índice ficou na casa dos 7.

A média mais baixa foi do Menino Jesus, gerenciado pela prefeitura de São Paulo com a entidade filantrópica Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês. Caiu de 4 em março para 1 em abril e maio.

No Hospital Infantil de Sabará , que é privado, de janeiro a 24 de maio de 2021, 98 crianças foram internadas por Covid-19, o equivalente a 15,78% do total de casos positivos atendidos pela instituição (621).

No ano passado inteiro, foram 73 internações —13% dos casos (541). Março e janeiro registraram os maiores números —30 e 26, respectivamente.

A mensagem dos especialistas é de atenção e respeito aos protocolos de proteção contra a infecção pelo coronavírus. “Se os adultos tomarem os cuidados médicos, uma chance de uma criança pegar [Covid-19] é muito menor”, ​​ressalta Otsuka.

“A gente recomenda que a partir dos dois anos de idade a criança já seja treinada pela família a utilizar uma máscara para evitar se infectar e fazer o mesmo com outras pessoas”, diz Oliveira Junior.

Os especialistas defendem às aulas presenciais , contanto que as escolas escolhidas estruturadas.

“As escolas devem ser as últimas a fechar, dentro de um processo de bloqueio ou qualquer nome que se dê, e como primeiro a reabrir desde que têm estrutura. Estamos há mais de um ano nesta pandemia. Não é aceitável que as escolas não escolhidas preparadas. Quando eu falo de escola pública, não estou responsabilizando o diretor. Temos que pensar no gestor público ”, afirma Oliveira Junior.

“Temos grande probabilidade de nas próximas semanas, nenhum decorrer do mês de junho, de ter um grande aumento de casos. Já percebemos isso nos hospitais, pois as UTIs estão mais cheias , alguns locais do interior estão em situação grave no ponto de vista de lotação de UTIs. Pode ser que se chegue a um momento em que seja necessário parar novamente. Vamos começar mais uma onda ou um repique partindo de um patamar muito alto. É muito preocupante o que está para acontecer ”, completa.

Para Otsuka, a volta às aulas de forma presencial pode ter contras. “É lógico que temos um risco potencial de ter mais infecção, mas os estudos não demonstram isso. Pelo contrário. O prejuízo que as crianças estão irremediáveis, tanto no aprendizado quanto no desenvolvimento psicomotor. Os pais precisam saber se os protocolos nas escolas estão cumprindo cumpridos. Agora, se você tem pessoas de risco potencial em casa, como as crianças não devem ir. Tudo precisa ser analisado ”, afirma.

Oliveira Junior faz um alerta em relação à vacinação. Nos países que desenvolveram a vacinar mais cedo, as crianças já estão sendo inseridas no processo de imunização.

“Aqui nós só vamos conseguir controlar a situação de forma duradoura e efetiva quando ampliarmos a vacinação. Não vejo outra saída. A participação da criança será importante dentro do processo de imunidade coletiva. Se eu não vaciná-la, o vírus continuará circulando na população pediátrica. ”

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