Em diário, PM acusado da morte do bicheiro Fernando Iggnácio relata pesadelos em que é assassinado

Em 17 de novembro do ano passado, o cabo da Polícia Militar Rodrigo Silva das Neves descreveu num diário o inferno em que sua vida se transformou, citando solidão, tristeza, medo e dor que proporcionara a família: “Dia em que minha vida mudou do avesso. Por conta de uma falha que não poderia ter acontecido. Tomarei isso tudo como experiência e viverei eternamente como um fantasma”, escreveu nos papéis. Neves é apontado pela Delegacia de Homicídios da Capital (DH) como um dos seis acusados do assassinato do contraventor Fernando de Miranda Iggnácio, sete dias antes de começar a colocar no papel suas memórias. Pelo crime, ainda respondem o bicheiro Rogério Andrade e o braço-direito dele, o militar reformado Marcio Araújo.

Trecho do diário do PM
Trecho do diário do PM Foto: Reprodução

O diário foi apreendido com o cabo, preso numa pousada a beira-mar em Canavieiras, município da Bahia, em 12 de janeiro. Embora não dê detalhes do homicídio, ele demonstra nas anotações arrependimento por trocar uma vida “corrida” ao lado da mulher e dos pais pela rotina de foragido da Justiça, mesmo passando os dias na piscina ou na praia. Antes de Iggnácio ser executado a tiros, num heliporto do Recreio dos Bandeirantes, o PM se queixava da falta de dinheiro e da vida corrida que levava entre o serviço no 5º BPM (Praça da Harmonia) e os “bicos” (trabalhos fora da corporação). No entanto, a rotina como “fantasma” o incomodou.

Trecho do diário do PM

Ao chegar à Bahia, ele narra que a viagem até lá foi “louca e problemática”. Nos escritos, Neves ressalta que a vida no Rio estava um “inferno” e pede perdão pelo constrangimento que causa a família. Ele diz temer que a mulher perca o emprego por causa dele e promete compensá-la no futuro, enquanto tem receio também que ela coloque outro companheiro em seu lugar. Como passa a maior do tempo sem ter o que fazer, diz que anda pelas ruas. À medida que os dias passam, o cabo fica cada vez mais ansioso, beirando à depressão. Chega a contar no caderno que, quando encontra muita gente na rua fica com medo.

Ressentido, o militar diz que não irá comemorar o aniversário da mulher, no dia 20 de novembro. Em vez de celebração, o PM comenta que ela só chorou e teve o apartamento revirado. O mesmo acontece sete dias depois, com o aniversário do pai. Também fala com tristeza de não passar o Natal e o Ano Novo com a família e amigos: “Ando muito triste, arrependido, mudou minha vida inteira. Agora poucos vão ter contato comigo. Estou levando, às vezes, sem ânimo nenhum. Fico na praia refletindo, tentando me animar, com vontade de voltar, mas agora não é o momento”.

Trecho do diário do PM

O medo de ser assassinado também é descrito no diário. Dois dias depois do Natal, consta nas anotações que ele acordou de um pesadelo acreditando que tivesse sido morto: “Acordei assustado, tive uns pesadelos, mas depois fui a praia refletir um pouco, conversei com meu tio, me passou um pouco de tranquilidade e deu uns conselhos, só o tempo irá me ajudar nessa experiência. Vamos em frente”. Ele teria a mesma sensação, dias depois, antes de ser preso.

Trecho do diário do PM

Em 10 de janeiro, quando se completava dois meses do crime, Neves expõe seu arrependimento no diário: “A data que entrou para a história e mudou a minha vida e de meus parentes para pior. Tudo por causa de dinheiro e aventura, mas Deus sabe o que faz, e tenho certeza que tudo irá se resolver na melhor forma. Estou com o pensamento positivo, pra dar tudo certo. Saudades do meu amor e da minha família”.

Trecho do diário do PM

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