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Em abordagem policial no Rio, homem denuncia ter sido vítima de racismo

O produtor de eventos Júlio Cesar de Sá Dantas, homem negro de 31 anos, denunciou ter sido vítima de racismo em uma abordagem policial enquanto deixava uma loja no Centro do Rio de Janeiro, na quarta-feira (17).

Segundo Dantas, um policial solicitou seus documentos ao vê-lo saindo da loja. Sem entender, ele questionou o motivo de ter sido parado. A partir daí, passou a gravar a ação e transmitir ao vivo toda a cena em suas redes sociais. O produtor afirma que começou a filmar para sua própria segurança, já que não era possível saber o desfecho.

No vídeo, ele questiona o motivo da abordagem e recebe como resposta que teria entrado e saído muito rápido do estabelecimento. Ao longo da ação, Dantas questiona se o verdadeiro fato era a cor de sua pele.

“Eu estava no centro do Rio, em um almoço com uma amiga. Como tenho uma viagem para a Bahia na semana que vem, queria comprar roupas pra levar. Então entrei em uma loja e, como não encontrei nada, logo saí. Nisso um policial deu um pique até mim e pediu meu CPF para pesquisa. Questionei o que seria essa pesquisa. O policial então foi mais ríspido e voltou a pedir meu documento. Foi aí que começou a situação gravada”, relatou Dantas à CNN.

No vídeo, um dos policiais também afirma que o produtor teria apresentado um volume suspeito na cintura. O jovem levanta a blusa e mostra que não havia qualquer objeto. Um agente chega a dizer que o volume poderia ser efeito do vento na camisa.

O produtor de eventos, então, nega-se a entregar a identificação por entender que não havia um motivo concreto para a abordagem e passa a ser acusado de desobediência. No início, é possível identificar dois policiais, mas logo o número cresce e chega a seis, segundo narra o rapaz.

“Foi constrangedor estar cercado por todos aqueles policiais como se eu fosse algum criminoso. Esse processo dói. Não foi a primeira vez, já passei por outras abordagens abusivas, mas, dessa vez, consegui registrar”, conta.

Dantas foi conduzido para a 5ª Delegacia de Polícia Civil, no Centro da cidade.

Procurada pela CNN para explicar a conduta dos policiais, a Operação Segurança Presente (OSP) da Polícia Militar do Rio de Janeiro, que usa um modelo de policiamento de proximidade, se manifestou em nota.

“Os policiais do Centro Presente estavam patrulhando a região do Centro e suspeitaram do rapaz que, segundo eles, demonstrou insatisfação com a aproximação policial e pareceu querer se desvencilhar dos agentes entrando em uma loja”, diz a nota.

A polícia afirma ainda que os policiais se aproximaram do rapaz e pediram para que ele se identificasse. “Porém, ele se recusou e, por isso, foi conduzido à delegacia para que fosse identificado. Na delegacia ele foi identificado, nada foi constatado e foi liberado,” conclui.

Além de produtor de eventos, Dantas é dono da página “Carioquice Negra”, que tem mais de oitocentos mil seguidores nas redes sociais. Também é pai de um menino de dez anos.

“Abordagem precisa ser fundamentada”

Para Rodrigo Mondego, vice-presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos do Rio de Janeiro e procurador da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a abordagem policial precisa ser fundamentada em alguma suspeita concreta de crime cometido.

“Quando não há motivação para a abordagem e a pessoa é levada para a delegacia sem justificativa, caracteriza-se abuso de autoridade. A pessoa só pode ser detida em caso de flagrante delito, em caso de um crime, ou por determinação judicial”, diz Mondego.

O procurador explica ainda que ninguém pode ser detido para averiguação. “Esse é um instrumento usado na ditadura. É uma violação à Constituição e ao Código do Processo Penal. Ser preto não é uma atitude suspeita”, pontuou.

Dantas informou que, na tarde desta quinta-feira (18), ele e seus advogados vão à 5ª Delegacia de Polícia para prestar queixa contra os policiais que participaram da abordagem.

O produtor diz estar bem fisicamente, mas ainda bastante abalado pelo ocorrido.

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