Dia da Imprensa: Bolsonaro atacou veículos e jornalistas em 17 das suas 21 lives em 2021

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez ataques à imprensa em 17 das 21 lives transmitidas em suas redes sociais em 2021. Ele aproveitou o espaço para acusar veículos como O Globo, Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo, O Antagonista e Revista Época de criarem “fake news” para prejudicar o seu governo. Em algumas ocasiões, Bolsonaro citou reportagens específicas; em outras, generalizou o trabalho dos profissionais. O caso mais emblemático ocorreu no dia 1º de abril, quando o presidente parabenizou os jornalistas pelo Dia da Mentira.

“Quero cumprimentar aqui, com honrosas exceções, os repórteres, os jornalistas, da Folha de S. Paulo, Estadão, Globo, IstoÉ, Época, do Antagonista, pelo dia de vocês, Dia da Mentira. E tanto é verdade que vocês não têm, parte de vocês, não tem responsabilidade com a verdade que olha só”, disse. Esse não é um caso isolado, já que o presidente afirmou em diversas ocasiões que “parte da grande imprensa” não tem um compromisso com “a verdade” e que a mídia “se aproxima do chorume”.

O presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Marcelo Träsel, afirmou que os posicionamentos do presidente sobre a imprensa nas lives são antidemocráticos. “Em uma democracia saudável, a imprensa é uma peça fundamental do processo de deliberação pública e de fiscalização do Estado”, comentou, acrescentando que, por seus discursos e ações, o presidente parece ser uma pessoa que discorda desse papel da imprensa. Além disso, Träsel teme que o discurso de Bolsonaro possa legitimar atitudes violentas, como casos de assédio virtual, que afetam muitos jornalistas, especialmente mulheres, inclusive saindo do ambiente digital e resultando em agressões físicas.

Durante as lives, Bolsonaro também citou especificamente veículos de comunicação — o  Grupo Globo e o jornal Folha de S.Paulo são mencionados na maioria dos casos. Na live do dia 20 de maio, por exemplo, o presidente falou que o número de mortes por outras doenças diminuiu durante a pandemia da Covid-19, o que não é verdade, e xingou veículos logo em seguinte: 

“Grande imprensa, sem vergonha. Folha, Estado de São Paulo, Globo. Não admito chamar Globo de lixo. Que lixo é reciclável, né? Essa grande imprensa, canalha. E me maltrata por quê? Acabei com a teta deles, três bilhões por ano, acabou a brincadeira de vocês, tá? Eu até costumo falar eu basicamente resolvo o problema até de CPI, é só voltar a dar dinheiro pra imprensa”, falou. 

Desde sua campanha, Bolsonaro disse que iria cortar a verba de propaganda dos grandes veículos de comunicação e utilizava expressões como “acabar com a mamata” para comunicar essa meta para seus eleitores. Essa promessa foi cumprida. O governo federal cortou a verba publicitária da Globo em 60%, mas aumentou a verba para outros canais de TVs como Record e SBT ― que apoiam Bolsonaro e que não são líderes de audiência. Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU),  não houve critérios claros para justificar as mudanças. 

Em outro episódio, Bolsonaro criticou uma reportagem do Estadão que informava que o presidente, sem máscara, causou aglomeração em uma praia de São Paulo. Na live do dia 7 de janeiro, ele falou que isso era uma “desinformação” por parte da mídia. Contudo, todas as informações da reportagem estavam corretas. Há inclusive vídeos de Bolsonaro no local.

Jornalistas

Durante as lives, Bolsonaro também chegou a citar nominalmente jornalistas. No dia 21 de janeiro, ele criticou o trabalho do apresentador do Jornal Nacional William Bonner e do colunista Guilherme Amado, falando que ambos mentiram ou inventaram notícias. 

Amado mostrou, em sua coluna na Revista Época de 8 de janeiro, que o Planalto impôs sigilo de até cem anos aos dados sobre a carteira de vacinação do presidente. Em resposta a um pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI), o governo justificou que as informações “dizem respeito à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem” de Bolsonaro. Na live de 21 de janeiro, o presidente criticou o uso da palavra “decretou” no texto de Amado, alegando que a medida não foi tomada por decreto presidencial, e aproveitou para chamar o jornalista de “paspalhão” e o acusar de passar o “tempo todo inventando” notícias.

No Jornal Nacional do dia 20 de janeiro, ao comentar a dependência do Brasil no recebimento de vacinas contra a Covid-19 da Índia e de matéria-prima da China, Bonner disse que “o presidente e o seu ministro das Relações Exteriores [na época, Ernesto Araújo] minaram as relações com esses países”. Também no dia 21 de janeiro, ao lado de Ernesto Araújo, Bolsonaro afirmou que o jornalista mentiu e que a relação internacional do Brasil com essas nações não estava enfraquecida. No entanto, o ex-chanceler, quando no cargo, protagonizou diversos atritos, especialmente com a China, como em 2019, quando afirmou para os alunos do Instituto Rio Branco que o Brasil não iria “vender sua alma” para exportar minério de ferro e soja — a China é a maior compradora de soja e minério de ferro do Brasil. Também houve pelo menos mais três desentendimentos diplomáticos entre Ernesto Araújo e a China, em março, abril e novembro do ano passado, segundo apuração da Lupa.

Ataques

Os dados do relatório Violência Contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil, organizado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), indicam que o número de casos de ataques à liberdade de imprensa dobrou nos últimos anos, passando de 208 para 428 entre 2019 e 2020. “Houve um acréscimo não só de ataques gerais, mas de ataques por parte desse grupo que, naturalmente, agride como forma de controle da informação. Eles ocorrem para descredibilizar a imprensa para que parte da população continue se informando nas bolhas bolsonaristas, lugares de propagação de informações falsas e ou fraudulentas”, afirma a presidente da Fenaj, Maria José Braga.

Fonte: AGÊNCIA LUPA

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