Depoimento de Pazuello se contrapõe ao de executivo da Pfizer, Wajngarten, Teich e Mandetta; leia as frases

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello presta depoimento à CPI da Covid

BRASÍLIA — O depoimento à CPI da Covid do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello ficou marcado pela diferença entre versões dadas por ele sobre episódios já relatados por depoentes que o antecederam. Pazuello divergiu frontalmente sobre ações (e supostas omissões) do governo federal no enfrentamento à pandemia. Diferentemente de Carlos Murillo, executivo da Pfizer, e do ex-secretário de Comunicação Social do governo federal Fabio Wajngarten, o general disse que houve, sim, respostas às ofertas de vacina feitas no ano passado pela empresa farmacêutica. Ele também divergiu de seus antecessores no cargo — Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich — sobre a influência dos filhos do presidente Jair Bolsonaro na condução das ações contra a epidemia e o uso de cloroquina.

O relator Renan Calheiros (MDB-AL) disse que será necessário fazer acareações para averiguar versões diferentes dadas pelos depoentes. O relator também disse que Pazuello e Wajngarten mentiram em seus depoimentos e defendeu a contratação de uma agência de checagem de informações para analisar as declarações dos depoentes enquanto eles ainda prestam esclarecimentos.

— Na medida em que depoimentos forem juntados à investigação, com contradições óbvias, vamos ter que na sequência fazer acareações, sim. Isso é uma recomendação do processo investigativo — disse Renan.

Pressão por resposta

Em depoimento na semana passada, Murillo, ao ser questionado pelo relator da CPI, disse que o governo não rejeitou nem aceitou a oferta da Pfizer. Já Wajngarten afirmou que uma carta enviada pelo presidente mundial da empresa, Albert Bourla, a alguns integrantes do governo brasileiro ficou meses sem reposta.

— A Presidência da República, que também recebeu a carta, enviou alguma resposta precisamente? — indagou Renan na ocasião.

O executivo da Pfizer respondeu:

— Nós não recebemos resposta da Presidência.

Em seu depoimento, porém, Pazuello deu outra versão. Perguntado por Renan por que não respondeu às propostas da Pfizer no ano passado, ele afirmou primeiramente que as condições oferecidas eram piores do que as de outras empresas. Pazuello chegou a chamar de “estranhas” as cláusulas de acordo proposto pelo laboratório. Depois, diante da insistência do relator, Pazuello disse que respondeu à farmacêutica:

— Respondemos inúmeras vezes. De agosto a dezembro. Eu tenho todas a comunicações da Pfizer.

Renan insistiu que o presidente da Pfizer disse que não houve resposta.

— Ele mentiu? — questionou o relator.

Pazuello afirmou que a resposta era a negociação direta com a Pfizer e disse que vai enviar toda a documentação com as respostas à CPI.

Pazuello também divergiu de outros depoentes sobre a influência dos filhos do presidente, especialmente a do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), no governo. Há duas semanas, o ex-ministro Mandetta citou que os filhos de Bolsonaro participavam das reuniões no Planalto com ministros.

— Testemunhei várias vezes reunião de ministros em que o filho do presidente, que é vereador no Rio de Janeiro, estava sentado atrás tomando as notas da reunião. Eles tinham constantemente reuniões com esses grupos dentro da Presidência — disse Mandetta.

Ontem, no entanto, Pazuello negou influência dos filhos de Bolsonaro e até lamentou não ter falado mais com eles:

— Não havia influência dos filhos políticos dos presidentes. E eu achava que ia me encontrar mais com eles.

Outro ponto de divergência foi em relação à autonomia que tinha para comandar o Ministério da Saúde, em especial no tocante à cloroquina, um remédio que, apesar de não ter eficácia comprovada para tratar a Covid-19, foi a aposta de Bolsonaro no enfrentamento à pandemia. Quando depôs, há duas semanas, o também ex-ministro Nelson Teich disse que deixou o cargo cerca de um mês depois de ter entrado no governo porque percebeu que não teria a autonomia e a liderança de que precisava. Pazuello negou que não tivesse autonomia na pasta.

Depoimento de contrastes

Propostas de vacinas feitas pela Pfizer

Pazuello: “Foram respondidas em negociação intensa e direta, com dezenas de documentação e reuniões. (…) Vou responder novamente: as respostas foram respondidas inúmeras vezes na negociação. Nós nunca fechamos a porta.”

Wajngarten: “Na linha cronológica do tempo, a carta (da Pfizer a autoridades brasileiras falando da aquisição de vacinas) foi enviada 12 de setembro. O dono do veículo de comunicação me avisa, em 9 de novembro, que a carta não havia sido respondida.”

Carlos Murillo (sobre proposta feita em agosto do ano passado): “Como era vinculante e estávamos neste processo com todos os governos, teria uma validade de 15 dias. Passados esses 15 dias, o governo do Brasil não rejeitou, mas tampouco aceitou a oferta.”

Cloroquina

Pazuello (ao ser questionado se sua nomeação se deu sob a condição de cumprir alguma ordem, como a recomendação de uso da cloroquina): “Em hipótese alguma. O presidente nunca me deu ordens diretas para nada.”

Teich: “As razões da minha saída do ministério são públicas. Elas se devem, basicamente, à constatação de que eu não teria a autonomia e a liderança que imaginava indispensáveis ao exercício do cargo. Essa falta de autonomia ficou mais evidente em relação às divergências com o governo quanto à eficácia e extensão do uso do medicamento cloroquina para o tratamento da Covid-19. Enquanto a minha convicção pessoal, baseada em estudos, era de que naquele momento não existia evidência de sua eficácia para liberar, existia um entendimento diferente por parte do presidente, que era amparado na opinião de outros profissionais, até do Conselho Federal de Medicina, que, naquele momento, autorizou a extensão do uso. Isso aí foi o que motivou a minha saída.”

Filhos de Bolsonaro

Pazuello: “Não havia nenhuma influência dos três filhos políticos do presidente e volto a colocar: eu achava que eu ia me encontrar mais com eles, e faço essa observação aqui, tanto com o próprio presidente, mas não houve isso. A pandemia nos consumia o dia inteiro. Nem para encontros sociais, nada. Foi muito pouco encontro, muito pouco encontro. Podia ter havido mais.”

Mandetta: “Eu, por exemplo, testemunhei várias vezes reunião de ministros em que o filho do presidente, que é vereador no Rio de Janeiro, estava sentado atrás tomando as notas da reunião. (..) Eu fui até certo dia ao Palácio do Planalto, e eles estavam todos lá, os três filhos do presidente, e mais assessores que são assessores de comunicação. Disse a eles: olha, eu preciso conversar com o embaixador da China, eu preciso que ele nos ajude, pedir uma reunião com ele, posso trazer aqui?. ‘Não, aqui não’. Acabei fazendo por telefone.

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