Democracia brasileira está em jogo em 2022, diz Nobel da Paz

O que está em jogo em 2022 nas eleições no Brasil é a democracia. O alerta é da vencedora do prêmio Nobel da Paz de 2021, Maria Ressa. A jornalista das Filipinas foi escolhida para receber a premiação num gesto deliberado por parte dos organizadores do Nobel para mostrar a relevância da imprensa para a democracia e para a paz. Segundo Oslo, ela usou “a liberdade de expressão para expor o abuso de poder, o uso da violência e o crescente autoritarismo em seu país natal, as Filipinas”.

Em 2012, ela cofundou a Rappler, uma empresa de mídia digital para o jornalismo investigativo, que ainda dirige. “Como jornalista e diretora executiva da Rappler, Ressa demonstrou ser uma defensora destemida da liberdade de expressão”, disseram os organizadores do Prêmio.

Em entrevista exclusiva ao UOL, durante sua passagem nesta semana por Genebra, a jornalista apontou semelhanças entre o que vive em seu país e a relação de Jair Bolsonaro com a imprensa. Durante sua visita, Ressa chegou a comentar a proximidade dos casos brasileiro e filipino em uma reunião com a Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet.

Questionada pela coluna sobre o que está em jogo no Brasil em 2022, Maria Ressa foi clara: “a democracia”. “Se Bolsonaro for o mesmo tipo de líder que temos, é uma erosão gradual”, disse, admitindo que não tem todos os detalhes sobre como opera o presidente brasileiro.

“É a morte por 10 mil navalhadas e, lentamente, o que vemos é que esses líderes populistas com estilo autoritário vão sendo eleitos. Uma vez no poder, eles corroem as instituições da democracia por dentro. Não é a primeira vez que vemos isso. Hitler foi eleito. Isso aconteceu antes”, alertou.

Com mais de 30 eleições pelo mundo neste ano, a jornalista acredita que a sociedade passa em 2022 por um “momento existencial”. “Temos de fazer uma escolha. Ou vamos numa direção ou em outra”, alertou.

Para a eleição no Brasil, Maria Ressa sugere que uma reação não venha apenas de um grupo de jornalistas ou de segmentos da população. “Deve ser um trabalho de toda a sociedade, como tentamos fazer nas Filipinas. Mobilizar não apenas jornais para trabalhar juntos, mas também grupos da sociedade civil para parar a onda de mentiras”, recomendou.

“Tragam pesquisas acadêmicas, para mostrar como estão sendo manipulados, além de advogados e especialistas em direito”, sugeriu. Em sua avaliação, o que ocorre nas Filipinas, com Jair Bolsonaro no Brasil ou Donald Trump nos EUA são “partes da mesma onda”.

Em seu país, Maria Ressa destaca como as urnas poderão eleger em poucos dias Ferdinand “Bongbong” Marcos Jr., filho do ditador Ferdinand Marcos, que controlou o país por 20 anos. Foram décadas de graves violações de direitos humanos e repressão, além das descobertas de bilhões de dólares em contas no exterior. Em 1986, após uma revolta popular, sua família se exilou no Havaí.

Agora, o filho está de volta e, segundo as pesquisas de opinião, poderia ficar com 56% dos votos. A candidata ao cargo de vice-presidente é Sara Duterte, filha do atual presidente Rodrigo Duterte, amplamente denunciado por violações de direitos humanos.

Segundo a jornalista, porém, esse cenário não está acontecendo da noite para o dia. “Desde 2014, há uma operação de informação que mudou nossa história nas redes sociais. Marcos Jr. não dá acessos aos jornalistas para que façam perguntas. Ele ri das perguntas duras feitas pela BBC e, nesse lugar, ele dá acesso a seus blogueiros e propagandistas. Nas redes sociais, as pessoas não conseguem distinguir entre propaganda e notícia”, explicou.

maria, ressa - Reprodução/Time - Reprodução/Time

Sem imprensa não há democracia

Maria Ressa ainda destaca os paralelos que existem entre a violência contra jornalistas no Brasil nas Filipinas. “Quando um jornalista é atacado, não existe defesa contra isso. E estamos sendo atacados para que nossa credibilidade seja afetada. Primeiro, desmontam a credibilidade e substituem por uma narrativa que convém ao ditador”, disse.

Para ela, a missão da imprensa é a de se contrapor ao poder. “O quarto poder tem essa função de controle e equilíbrio. Se os jornalistas não podem exercer suas funções, então não há democracia”, disse. “Um poder absoluto corrompe e isso é parte de nossa função”, disse.

Maria Ressa critica quem define os jornalistas como “criadores de conteúdo”. “A maior qualidade de um jornalista é a qualidade de perguntar ao Poder perguntas que os irrite. E isso exige que venha de um grupo especial de pessoas que chamamos de jornalistas”, explicou.

“Sem fatos, não há verdade. Sem verdade, não há democracia”, insistiu.

Segundo ela, há uma aliança hoje entre os detentores de tecnologia e líderes autoritários. “Não teremos a integridade de eleições se não tivermos a integridade da informação.

Prisão perpétua

Para poder viajar para Genebra, Maria Ressa teve de conseguir a autorização de sete tribunais diferentes em seu país. Lá, ela é alvo de processos iniciados pelo governo e, enquanto tramitam, ela apenas pode sair do país com autorização judicial. “É algo imprevisível. Na semana passada, não me deixaram ir aos EUA. Mas nesta semana fui autorizada a vir para a Suíça”, contou.

Às vésperas das eleições em seu país, Ressa não hesita em explicar que, dependendo de quem vença, ela terá sua vida modificada para sempre. “O resultado pode significar se eu serei presa para o resto da mina vida”, explicou. Nos sete processos, o pedido de pena supera os cem anos de prisão.

“Este é o momento. É agora. Temos de agir. Não há espaço para neutralidade. Podemos criar o mundo que quisermos. Mas precisamos agir”, completou.

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