Delegado preso tentou desacreditar testemunha de esquema de propina com boato de que mulher tinha caso com policial

Delegado Maurício Demétrio chega à sede da Polícia Civil

RIO — O delegado da Polícia Civil Maurício Demétrio Afonso Alves, preso na última quarta-feira, tentou desacreditar o depoimento de uma comerciante de Petrópolis que denunciou o esquema de pagamento de propina feito a policiais da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM). A unidade era comandada por Demétrio. Em documento produzido em outubro do ano passado, que consta em inquérito ao qual o EXTRA teve acesso, o delegado afirma ter tomado conhecimento de boatos de que a mulher afirmava ter um caso amoroso com o policial Celso de Freitas Guimarães Junior, seu chefe do Grupo de Investigação Criminal (GIC), também preso. Segundo Demétrio, ela estaria utilizando essa informação para insinuar que tinha influência na delegacia.

O relatório tentando descredibilizar a testemunha foi produzido três meses após a mulher ter dado seu primeiro depoimento relatando todo o esquema criminoso que Maurício Demétrio é acusado de comandar. Ela foi ouvida inicialmente na 105ª DP (Petrópolis), delegacia que começou as investigações.

No documento, Demétrio afirma que logo após ter assumido a titularidade da DRCPIM, em março de 2018, foi alertado por um policial da unidade, morador de Petrópolis, de que uma comerciante especializada na venda de produtos falsificados na Rua Teresa “afirmava ter um relacionamento amoroso” com Celso e insinuava que por isso tinha influência na unidade policial. Demétrio diz que foi alertado de que “tal comentário estaria correndo fortemente pela rua citada”.

Ainda no relatório, Maurício Demétrio afirma que Celso negou qualquer envolvimento com a mulher e, por causa da situação, programou operações de repressão em Petrópolis. Segundo Demétrio, em razão dessas operações, em 14 fevereiro de 2019 a comerciante e testemunha teve roupas falsificadas apreendidas em sua loja. Ainda de acordo com ele, ela acabou sendo liberada após perito constatar que os produto eram originais.

Entretanto, a versão contada pela comerciante ao Ministério Público do estado do Rio (MPRJ) e à Polícia Civil foi bastante diferente. A mulher narrou aos investigadores que a operação da DRCPIM em um de seu estabelecimento, em 14 de fevereiro de 2019, ocorreu um dia após ela ter se negado a pagar propina a policiais da especializada. Segundo ela, quem recolhia as quantias eram outros comerciantes da região. Por semana, era cobrado R$ 250 de cada lojista.

A mulher contou ainda que após a operação foi até a sede da delegacia especializada, na Zona Norte do Rio, onde um policial, posteriormente reconhecido por foto como Celso, cobrou o retorno do pagamento de propina. Em seguida, após concordar em voltar a pagar o valor exigido, ela recuperou “praticamente todo o material falsificado que havia sido arrecadado”, exceto “algumas poucas peças dentro de uma bolsa”.

O documento no qual tenta desacreditar a testemunha foi escrito por Maurício Demétrio em resposta a uma petição do advogado de Alex Sandro Gonçalves Simonete, comerciante de Petrópolis também acusado de fazer parte do esquema de recolhimento de propinas. A petição foi protocolada na DRCPIM no dia 8 de outubro. Nela, o advogado de Alex Sandro informa a Maurício Demétrio que seu cliente vinha sendo investigado pela 105ª DP e MPRJ, perseguido, e diz que havia uma tentativa de associá-lo a uma quadrilha comandada pelo delegado. Após responder o advogado, o delegado encaminhou o inquérito à corregedoria da Polícia Civil.

Maurício Demétrio e Celso foram presos em operação do MPRJ nessa quarta-feira. O delegado é acusado de chefiar um esquema de cobrança de propina de comerciantes da Rua Teresa, em Petrópolis, na Região Serrana do Rio. Ele também é acusado de de tentar atrapalhar investigações internas que apuravam o pagamento ilegal feito por comerciantes de Petrópolis para que não virassem alvo de operações da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), comandada pelo delegado por cerca de três anos, entre o início de 2018 e março de 2021.

Durante esse período, de acordo com os promotores, integrantes da especializada cobravam valores periódicos de lojistas que vendiam produtos piratas para que não fossem realizadas apreensões dos materiais irregulares.

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