Datafolha: Brasileiros vão menos à igreja e dão menos contribuições

Os evangélicos já não são tão assíduos nos templos quanto antigamente. O hábito de frequentar igrejas mais de uma vez por semana ainda é alto no grupo, mas essa fatia caiu de 65% para 53% nos últimos seis anos, se comparadas pesquisas Datafolha feitas em 2016 e 2022.​

A contração, entre esses fiéis, do costume de ir semanalmente a pelo menos dois cultos puxou para baixo a média de todas as religiões. Dos entrevistados que declaram alguma fé, 29% têm essa rotina de devoção intensa. Em 2016, eram 34%.

Evangélicos são mais generosos do que católicos na hora de contribuir financeiramente para suas igrejas: 42% dizem fazê-lo sempre, enquanto 34% do outro bocado cristão doam regularmente.

Os seguidores do Vaticano, contudo, mantiveram a mesma taxa de doação. Em compensação, houve uma queda de 14 pontos percentuais em relação aos 58% dos crentes que relataram repassar dízimos e ofertas em 2016.

última rodada de entrevistas do Datafolha, feita nos dias 22 e 23 de junho com 2.556 pessoas em 181 cidades, incluiu questionamentos sobre a experiência religiosa no Brasil. A margem de erro para o total da amostra é de dois pontos percentuais. Veja os principais pontos levantados pela sondagem.

CRENÇAS NO BRASIL

Temos uma grande maioria cristã: 51% da população se declara católica, e 26%, evangélica. Ainda há 2% de adventistas, outra linha do cristianismo. Isso se deixarmos espíritas (2%) e umbandistas (1%) de fora do rol cristão, em contraste ao pleito de alguns representantes dessas crenças. Outras religiões somam 5% da amostra. Ainda sobram 12%, que são os brasileiros que dizem não possuir uma fé específica.

SEM RELIGIÃO

Não se incluir numa crença determinada não é sinônimo de ateísmo: 9 em cada 10 entrevistados desse bloco afirmam acreditar em Deus. A maioria abdicou da estrutura religiosa em algum ponto da vida, já que 72% declaram ter feito parte de alguma rede de fé no passado.

Para 53% desse contingente, ser parte dessa minoria faz com que sofram preconceito, enquanto 44% não se sentem assim. O resto não sabe opinar.

CATÓLICOS

Pela primeira vez, o Datafolha traçou o perfil dos católicos brasileiros. Há empate técnico entre os que se dizem praticantes (48%) e não praticantes (51%) —1% não soube opinar.

Quanto mais velho, maior é a tendência de participar dos ritos católicos. No conjunto dos que têm 60 anos para cima, 58% exercem o catolicismo no cotidiano. Na faixa dos 16 a 24 anos, a proporção cai para 42%. Mulheres vivem mais a Igreja Católica do que os homens: 51% contra 45%.

O instituto de pesquisa também mensurou, de forma inédita, o tamanho ocupado pela RCC (Renovação Carismática Católica) no segmento. Os carismáticos correspondem a 18% dos católicos.

O grupo tem pontos de confluência com o evangelismo pentecostal, como na oratória mais energizada de seus padres e até na inclinação política —tendem a ser mais conservadores do que a média católica, o que no Brasil de 2022 se traduz também numa proximidade maior com o bolsonarismo.

FREQUÊNCIA EM ESPAÇOS DE FÉ

Se, de seis anos para cá, caiu o número de brasileiros que frequentam serviços religiosos mais de uma vez por semana (de 34% para 29%), manteve-se estável o quinhão que nunca costuma professar sua fé num espaço coletivo (5% em 2016 e 2022).

A porção de católicos que registra ao menos duas idas semanais à igreja é pequena, de 17%, mas essa frequência dilata quando olhamos só para os carismáticos: 41%.

Evangélicos vivem mais intensamente sua fé, com 53% do bloco batendo ponto mais de uma vez por semana nos cultos. Em 2016, contudo, 65% diziam o mesmo. Desses 12 pontos percentuais perdidos, muitos fiéis reduziram a assiduidade para participações semanais, quinzenais, mensais ou semestrais.

Se 8% dos católicos afirmam só ir à missa uma vez ao ano, apenas 1% dos evangélicos relata integrar o culto em regularidade anual.

No recorte regional, a região sul é a que menos se insere nas atividades religiosas de forma constante (18%). Entre moradores do norte, o índice sobe para 41%.

Mulheres vão mais a serviços religiosos do que homens (33% contra 26%). O mesmo se repete com quem pertence às classes sociais mais baixas. Na parcela dos que ganham até dois salários mínimos, 31% dizem que estão nesses espaços duas vezes ou mais por semana. A taxa encolhe para 19% entre os que recebem mais de dez salários.

A socióloga Christina Vital, que coordena o Laboratório de Estudos em Política, Arte e Religião na UFF (Universidade Federal Fluminense), repara que evangélicos superam 80% de alta frequência, mais de 20 pontos acima da média de todas as religiões, considerando as duas perguntas juntas —se o fiel vai uma vez por semana ou mais nos lugares de culto.

“É muito significativo em termos de engajamento, produzindo um interesse imediato de atores políticos sobre eles”, diz a professora da UFF. “Isso porque, para os políticos, o boca a boca, ser aceito em um grupo de confiança é importante, pois produz uma chance de fidelização no voto e também uma difusão no grupo de confiança.”

CONTRIBUIÇÕES FINANCEIRAS

O brasileiro tem dado menos dinheiro para suas igrejas. Em 2016, 42% dos religiosos afirmavam sempre entregar contribuições financeiras para as instituições que representam sua crença. A fração foi para 36% em 2022. O restante da amostra se divide entre os 28% que doam de vez em quando, os 8% que o fazem raramente e os 27% que nunca contribuem.

A fatia de católicos que diz nunca abastecer os cofres da igreja é de 31% em 2022 e de 27% em 2016.

Hoje, 18% dos evangélicos fecharam completamente a carteira para os templos, enquanto seis anos atrás 11% afirmaram jamais fazer repasses para seus pastores.

Para Christina Vital, da UFF, a míngua no hábito de ir a espaços religiosos tem a ver com o decréscimo nas arrecadações. “Essa diminuição geral na frequência pode estar relacionada com um processo maior, no qual o exercício da fé pelos indivíduos existe sem uma necessária vinculação institucional.”

Entre evangélicos, o fenômeno tem nome: são os desigrejados.

“Mas, sem dúvida, essa perda da contribuição está relacionada também ao empobrecimento do brasileiro, sua perda acentuada do poder de compra nos últimos anos, sobretudo entre as camadas médias e baixas”, acrescenta a professora.

MARGEM DE ERRO

A margem de erro da pesquisa, no conjunto total de entrevistados, é de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. No recorte exclusivamente católico, são três pontos. Considerando apenas os evangélicos, vai para quatro pontos. Os números variam porque, quanto maior a quantidade de entrevistados que diz pertencer a um grupo, menor a margem de erro.

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