fbpx

Crise hídrica chega à agriculta e ameaça o arroz com feijão do brasileiro. Entenda

Ao mesmo tempo em que o país se vê sob ameaça de novo racionamento de energia com a crise hídrica, o agronegócio começa a sentir os efeitos da falta de chuvas no país. No setor que mais cresce no país, a agricultura irrigada, aquela em que é aplicada água diretamente na raiz das plantas e mais presente na produção de alimentos para o mercado interno, já convive com aumento de custos e quebra de safra.

A falta de chuvas pode frear novos negócios e é mais uma pressão sobre os preços dos alimentos que acumulavam alta de 15,27% nos últimos 12 meses até julho.

De acordo com a Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), já foram observadas altas em torno de 30% no custo da irrigação em vários estados. Representantes do agronegócio no Sul do Brasil também estimam perdas de até 50% na produção da dupla mais famosa do prato do brasileiro: o arroz e o feijão.

A falta de chuvas e os baixos níveis dos reservatórios começam a afetar a produção de produtos cultivados tanto na chamada agricultura de sequeiro (na qual a irrigação pode ocorrer somente nos períodos secos) como na agricultura irrigada, onde o uso do direcionamento da água para as plantas é constante.

No Paraná, o maior estado produtor, houve queda de 20% em relação ao que foi projetado para a segunda safra de feijão, informou o Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe). Ao sul do Rio Grande do Sul, as perspectivas para o início do plantio de arroz irrigado são preocupantes.

Desde 2018, chove menos do que deveria na região, e a principal fonte, a barragem do Arroio Duro, que acumula água no inverno e na primavera para irrigar no verão, está bem aquém da capacidade, com 38%, quando deveria ficar, nesta época, estar em 70%.

Everton Fonseca, engenheiro agrônomo e gerente de operação e manutenção da Associação dos Usuários do Arroio Duro, relata que o volume de chuvas está 30% do normal para esta época do ano. Ele é um dos responsáveis pela distribuição de água para três municípios com capacidade para irrigar 20 mil hectares.

No ano passado, a área irrigada diminuiu 26% e, este ano, a redução chegaria a 30%, em uma projeção conservadora.

—Se as previsões se confirmarem, a queda pode chegar a 50% — prevê Fonseca.

Segundo ele, a população de Camaquã, Arambaré e Cristal está se abastecendo com caminhões pipas. Grande parte dos moradores que está no campo usa poços artesianos, ou cacimbas superficiais.

Impacto no IDH

De acordo com o último censo agropecuário do IBGE, a área plantada da agricultura familiar no Brasil é de 81 milhões de hectares. Segundo o Atlas Irrigação da Agência Nacional de Águas (ANA), 8,2 milhões de hectares são irrigados:

—Os números são expressivos, dependendo do tipo de cultura — ressalta Jordana Girardello, assessora técnica da Comissão Nacional de Irrigação da CNA.

Segundo ela, 90% do arroz produzido no Brasil são irrigados, e o café cultivado por esse sistema corresponde a 30%, ou um terço do que é colhido no país. Atualmente, há três safras por ano de feijão. A terceira safra se dá 100% por irrigação e equivale a 20% do total colhido no país.

O tomate industrial, cultivado por gotejamento e usado na fabricação de polpa, molho e ketchup, é outro forte exemplo de produto a ser seriamente afetado, assim como as hortaliças em geral.

Professor de Finanças do Ibmec, Haroldo Monteiro diz que a falta de chuvas influencia principalmente o preço de alimentos como frutas, verduras e legumes:

— O consumidor vai sentir os efeitos na feira.

Segundo o economista-chefe da Órama, Alexandre Espírito Santo, uma redução na produção dos alimentos em razão da seca pode contribuir para elevar ainda mais a inflação dos próximos meses.

— Os grupos Alimentação e Bebidas e Transportes são os que mais pesam no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), acima de 20% cada.

Sob o ponto de vista ambiental, destaca Girardello, a irrigação exerce um importante papel, pois é a única forma de aumentar a produção sem expandir o plantio em novas áreas. E tem atuação direta na melhora do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) nas populações de regiões mais carentes.

Um exemplo é o que acontece no Vale do São Francisco. Os municípios limítrofes de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) aumentaram em 70% o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em uma década, graças à agricultura irrigada.

— As chuvas são sempre incertas e não há um planejamento adequado, para evitar problemas no uso da água. Você pode até ficar sem energia, mas sem alimentos e água não dá —afirma Lineu Neiva Rodrigues, chefe-adjunto de pesquisas da Embrapa.

Rodrigues lembra que o país ainda é muito dependente de hidrelétricas e precisa investir mais em outras fontes de energia, como a eólica e a solar, principalmente no eixo mais urbanizado do Brasil, que é o grande afetado pelo problema.

Ele explica que a falta de chuvas e a queda dos reservatórios atingem, principalmente, a Bacia do Paraná, que abastece a região Centro-Sul do país:

— A agricultura já começa a ser atingida, e hidrovias importantes para o escoamento da safra podem ser seriamente prejudicadas.

Miguel Oliveira, diretor do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), diz que ainda há um período longo de seca para enfrentar.

— Não dá para saber agora como ficará a agricultura irrigada, mas a produção agrícola pode ser afetada. Nosso problema é saber quando começará a chover e qual a quantidade de chuva.

Melhoria de barragens

Produtora rural de soja, milho, sorgo, feijão irrigado e gado para corte em Paracatu (MG), Rowena Petroll aprendeu com a crise de 2017. A falta de água impediu o plantio de culturas de inverno e seu faturamento caiu a um quarto do que recebia.

— De lá para cá, melhoramos a estrutura para a reserva de água disponível e fizemos melhorias na estrutura de barragens, mas muitos produtores estão preocupados, pois não fizeram esse investimento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: