Crime virtual: Jornalista de Maricá tem dados roubados por estelionatários no Mercado Livre

Roberta foi vítima do descaso policial e teve seu cpf utilizado por terceiros para cometer estelionatos

A jornalista e escritora Roberta de Souza Pereira, que hoje (04) completa seus 40 anos, parece não estar vivendo o melhor de seus aniversários. É que, desde o dia 08 de maio, ela vem sendo vítima de estelionatários. Roberta resolveu criar sua conta no site de vendas Mercado Livre no início deste ano. O principal objetivo era conseguir comprar alguns dos livros que tanto ama pela internet, mas, mal sabia ela que isso tudo se tornaria uma grande dor de cabeça. No dia 08 de maio, Roberta teve sua conta no site hackeada e seus dados e nome passaram, então, a serem usados por criminosos.

“Eu comecei a receber alertas no meu e-mail que falavam que haviam ocorrido movimentações na minha conta do Mercado Livre, como troca de senha, por exemplo. A partir daí, tentei entrar na minha conta no site e não consegui, então, tentei mudar a senha e até mandei foto pra eles da minha identidade provando que era eu. Fiz isso umas duas vezes, mas não adiantou. Aguardei uma resposta deles e não recebi retorno. Enquanto eu esperava esse feedback da plataforma, no meu e-mail chegavam perguntas sobre um barco, eu não conseguia acessar a conta, mas as notificações da pergunta de um homem interessado no barco chegavam no meu e-mail (que estava conectado com a conta do Mercado Livre), eu só não conseguia entrar na conta para responder porque os criminosos a hackearam. A partir daí, me desesperei, não entendo nada de barco e nem fiz minha conta para isso, fiz minha conta para comprar livros. Tentei entrar em contato com o Mercado Livre outras vezes para conseguir um retorno do caso, mas não obtive resposta deles”, contou a jornalista.

As atualizações da conta do Mercado Livre de Roberta continuaram chegando no e-mail. No dia 13, chegou notificação da venda de um motor de popa para barco e depois uma escada. “Eu mesma nunca vendi nada pelo Mercado Livre. A partir daí, eu entendi que alguém estava usando minha conta com más intenções. Depois de muito fuçar no site, consegui pedir para bloquearem a minha conta no Mercado Livre. Demorou um tempo para fazerem isso e enquanto isso os bandidos conseguiam vender coisas e eu via perguntas de pessoas que compravam na minha conta e me deu um desespero, pois não era eu fazendo isso, mesmo que estejam utilizando os meus dados da minha conta, como cpf e meu nome”, disse Roberta que, no dia 26 de maio conseguiu uma resposta do Mercado Livre para bloquear a conta e dessa forma, impedir que os bandidos entrassem em seu perfil.

“No dia 29, chegou outra mensagem dizendo que o Mercado Livre iria desbloquear a conta e eu respondi o e-mail para eles solicitando que não desbloqueassem, que não queria criminosos usando a minha conta, com meu nome e meu cpf para cometer golpes. Eles vendiam os produtos na minha conta, se passando por mim, pelo que eu entendi, e depois não os entregavam para os compradores do site. Isso é estelionato, mas todo mundo estava achando que era eu fazendo isso, por ser o meu perfil”, contou Roberta.

Roberta, então, recebeu uma ligação de um dos compradores que teve contato com sua conta hackeada no Mercado Livre. Este comprador teria conseguido o contato da jornalista no próprio site do Mercado Livre. “No dia 01, eu recebi uma ligação de um dos compradores, Carlos, e ele me disse que tinha feito uma compra de um motor de barco na minha conta e afirmou que eu não entreguei pra ele o prometido e que ainda tinha acessado a conta dele. Eu expliquei o ocorrido e ele disse que tentou falar com o Mercado Livre sobre o golpe mas também não conseguiu resposta. Chegou a dizer que poderia me processar se eu não resolvesse. Mas não era eu e nem o meu número com quem ele tinha conversado sobre a compra do barco”, explicou.

Mesmo com todas as provas de que não conseguia acesso ao próprio perfil no site, Roberta decidiu se proteger e, seguindo o conselho de uma advogada, foi até a Delegacia de Repressão ao Crime de Informática fazer o registro de ocorrência do caso. 

“Saí da minha casa em Itaipuaçu e fui até o Rio, na Delegacia de Repressão ao Crime de Informática, na última quarta-feira (02), cheguei lá às 14h. Lá, me foi passado que eu não poderia fazer o registro do caso, até o delegado que estava de plantão no local afirmou que eu não era a vítima e eu expliquei ‘Como não, se é o meu cpf sendo usado de forma indevida?’. Outras pessoas vítimas do mesmo tipo de caso foram atendidas e eu não. Fiquei nervosa e liguei para a ouvidoria da polícia, onde me confirmaram que o registro de ocorrência deveria ser feito, sim, naquela unidade. Retornei à delegacia, e o delegado continuou dizendo que não faria o registro, então liguei mais uma vez para a ouvidoria. Fui para casa e registrei em casa em um boletim de ocorrência comum, sem opção ou especialização para crimes de internet”.

Hoje, Roberta segue com a conta bloqueada no Mercado Livre e com um pré-registro policial do caso, feito online, que está em análise. “Como cidadã, me senti desrespeitada. Me senti humilhada e abandonada. Na delegacia, é você quem paga o salário deles e, por isso, espera que te resguardem, mas não fizeram isso, não cumpriram com o dever deles como funcionários públicos para comigo. Fui vítima de um crime, estavam usando o meu cpf de forma indevida. Já no Mercado Livre, eu não consigo suporte. Toda vez que vou tentar mudar a senha da minha conta para recuperá-la, o hacker cria uma autenticação que só ele consegue acessar e usar, então, a melhor opção foi bloquear a conta e assim ninguém comete crimes de estelionato no meu nome. Consegui o contato do Mercado Livre e cheguei a pedir que resolvessem a situação da minha conta. Eles ficaram de resolver e me avisar. A verdade é que o Mercado Livre tem um selo de qualidade e confidência, mas não é verdade. Alguém hackeou a minha conta e eu não consegui provar que não era eu. Eles precisam de um suporte melhor para os clientes”, contou ela.

Comprador também foi vítima

O cirurgião dentista Carlos Vinícius Gontijo Amaral, de 48 anos, que mora em Formosa, cidade de Goiás, comprou o motor de barco anunciado na conta de Roberta no dia 13 de maio. O valor pago por ele no produto que nunca chegou foi de R$ 3.265,80. 

“Eu comprei o produto e perguntei pra eles, pelo site do Mercado Livre, se o motor era igual ao do anúncio e eles responderam que sim. Cheguei a perguntar também sobre o sistema de encaixe de hélice, coisa que só quem sabe de barco entende, e não me responderam, aí eu já estranhei. Depois disso, chegaram a me mandar mensagem, ignorando as minha perguntas, e pedindo o meu Whatsapp para emitir uma nota fiscal. No mesmo dia, o golpista me mandou uma mensagem com um pdf pelo aplicativo de mensagens (Whatsapp) e eu não abri, acredito que era uma tentativa de clonar o meu telefone. Depois, pediram para eu provar que eu era eu e chegou uma mensagem de validação do Mercado Livre no meu celular, estranhei, mas passei o número para ele, já que pediu falando que era para a emissão da nota fiscal do produto. Nesse momento, chegou um e-mail para mim falando que alguém tinha acessado a minha conta do Mercado Livre, fiquei desesperado”, contou o dentista.

Nesse momento, Carlos enviou um e-mail para o Mercado Livre dizendo que não reconhecia o acesso a sua conta feito pelos hackers. 

“Na madrugada do dia 14, às 5h da manhã, eu acordei, do nada, e vi uma mensagem do Mercado Livre dizendo que minha compra tinha sido entregue, mas ninguém da minha casa recebeu. Depois disso, eu vi que além de entregue, eu tinha avaliado o vendedor com boas notas, mas eu estava dormindo, não recebi motor de barco nenhum e nem avaliei ninguém. Percebi, então, que alguém havia entrado na minha conta. Pedi o cancelamento do produto e informei que estava passando por uma fraude. Depois de dias esperando uma resposta, os atendentes do Mercado Livre falaram que os responsáveis pela conta de Roberta, ou seja, os vendedores do motor de barco, já tinham enviado o produto e, por isso, a compra deste não poderia ser cancelada. Mesmo assim, eu expliquei que era fraude, mas eles me culpabilizaram dizendo que fui eu quem passei meus dados para os hackers e, por isso, o Mercado Livre não poderia estornar o valor da compra do produto”, disse Carlos.

Depois de muito sufoco, Carlos conseguiu o contato da Ouvidoria do Mercado Livre e, no dia 01 de junho, abriu uma reclamação explicando todo o caso. “Quando eu liguei para a Roberta, no dia 01 de junho, eu estava nervoso, mas entendi que não foi ela quem fez isso. Abri a reclamação na ouvidoria do Mercado Livre, o que foi difícil, já é praticamente um segredo conseguir acessar a área do site com esse número deles. Eu passei dias em chats e quase nenhum atendente me encaminhava para a área responsável. Demorei, mas consegui e agora tenho que aguardar até o dia 10 pela resposta. O que mais me deixa chateado é que o Mercado Livre nem me ligou, nem me prestaram um suporte sobre tudo o que aconteceu. Eles tem que evitar que mais pessoas passem por isso. Eu já comprei outras coisas lá e nunca passei por isso, já evitei muitos golpes, mas tem que ter um suporte maior para as vítimas dos crimes no site. Muita gente mandou eu desistir da denúncia e deixar para lá pela dor de cabeça, mas eu sou insistente e quero meu dinheiro de volta”, contou o cirurgião dentista.

Procurados para responder sobre o caso, o Mercado Livre não se pronunciou e a Polícia Civil enviou uma nota sobre o descaso com Roberta na delegacia. “Ainda não temos informações sobre o caso. Estaremos verificando junto à Unidade”, disse o comunicado.

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