Covid-19: Brasil corre o risco de enfrentar novo platô

Com mais 3.459 mortes pela covid-19 e 73.513 mil novos casos registrados ontem, o Brasil superou a triste marca das 360 mil vidas perdidas e 13,6 milhões de diagnósticos positivos. Sem um ritmo de vacinação acelerado e uma taxa de ocupação de leitos dos hospitais ainda em níveis críticos, o país continua a ver uma média móvel de óbitos em um alto patamar, acima das três mil mortes diárias. Ao observar a incidência de novos casos, especialistas veem uma estabilização preocupante na última semana epidemiológica, já que, apesar de representar uma desaceleração da pandemia, pode indicar a formação de um alto platô com números bem mais altos do que os vistos no ano passado.

Essa é a preocupação do novo boletim extraordinário do Observatório Covid-19 da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado ontem. Segundo o documento, observa-se uma tendência de estabilização do número de casos a partir de abril. Na última semana epidemiológica concluída, a 14ª, foram notificados uma média de 70.200 casos e 3.020 óbitos diários. “O número de casos aumentou a uma taxa de 0,9% ao dia, enquanto o número de óbitos por covid-19 aumentou 1,1% ao dia, isto é, ligeiramente mais lento que o verificado na semana anterior (1,5%), mostrando uma tendência de desaceleração, mas ainda não de contenção, da epidemia”, ponderou a análise.

Manifestantes exibem cartazes com os dizeres
Manifestantes exibem cartazes com os dizeres “cepa Bolsonaro, um perigo global” durante protesto, nesta quarta-feira (14/4), em frente à embaixada brasileira em Buenos Aires: repercussão internacional 

O grupo atribuiu o resultado das medidas de restrição ao panorama de previsões mais otimistas, que apontaram os pequenos sinais já no fechamento da última semana epidemiológica. Segundo o relatório, as ações “estão produzindo êxitos localizados e podem resultar na redução dos casos graves da doença nas próximas semanas”. Apesar de mostrar uma pequena desaceleração do crescimento da pandemia no país, os especialistas alertam que ainda não houve o alívio necessário no contexto brasileiro das demandas hospitalares. Ao todo, 16 estados e o Distrito Federal têm taxas de ocupação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) superiores a 90%.

Além disso, os pesquisadores demonstram preocupação, já que o Brasil pode estar observando a formação de um novo platô, como o visto em agosto do ano passado, porém com números bem mais elevados de casos graves e óbito. “A flexibilização de medidas restritivas pode ter como consequência a aceleração do ritmo de transmissão e, portanto, de casos graves de covid-19 nas próximas semanas”, alertam os pesquisadores da Fiocruz.

“Inação” do governo

Outros pesquisas sobre a situação pandêmica do Brasil ressaltam a responsabilidade do governo federal no cenário atual. Um estudo publicado ontem na revista Science concluiu que a “combinação perigosa de inação e irregularidades” da resposta federal colocam o Brasil como um dos piores países em termos de liderança no enfrentamento.

A partir dos dados do Ministério da Saúde de fevereiro a outubro de 2020, combinado com outras pesquisas de relevância mundial, o grupo buscou compreender, medir e comparar o padrão de disseminação de casos e óbitos de covid-19 no Brasil em escalas espaciais e temporais. Foram analisados indicadores de aglomeração, trajetórias, velocidade e intensidade de propagação para o interior, contextualizados às decisões do governo federal e repercussões de decisões políticas para se chegar aos resultados.

“Embora nenhuma narrativa única explique a diversidade na disseminação, uma falha geral de implementação imediata, coordenada e respostas equitativas em um contexto de fortes desigualdades locais alimentaram a propagação de doenças”, avalia a pesquisa publicada na Science.

Abril preocupante

Especialistas explicam por que o mês de abril ainda será dramático para o Brasil em relação à pandemia.

Poucas vacinas
O ritmo vacinal começa a ganhar corpo, mas o país enfrenta problemas com importação de matéria-prima, o que atrasa a produção de imunizantes. O Instituto Butantan não conseguirá cumprir com a meta de entrega do mês, e a Fiocruz já havia reduzido as projeções. O Ministério da Saúde, que chegou a divulgar 47 milhões de doses em abril, agora estima 26 milhões de unidades.

Alta média móvel
Mesmo ainda sem bater nenhum recorde do número de mortes e infecções registradas diariamente nesta semana, o país continua a ver uma média móvel de óbitos e casos em um alto patamar. Segundo o cálculo do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), que leva em conta os números dos últimos sete dias, o país tem média de 3.015 mortes e 68.615 diagnósticos positivos

Alta ocupação de UTIs
Ao todo, 16 estados e o Distrito Federal estão com taxas de ocupação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) superiores a 90%. No levantamento anterior, o percentual era realidade de 20 unidades federativas.

Taxa de transmissibilidade
Apesar de ter apresentado redução, a taxa de transmissão (Rt) da covid-19 no Brasil ainda é considerada alta. Segundo levantamento do Imperial College de Londres, a taxa do Brasil é de 1,06. Na semana retrasada, o Rt estava em 1,12

Casos em alto patamar
Mesmo com diminuição de novas internações nos estados, houve incremento de casos no fechamento da última semana epidemiológica, a 14ª. Nota-se uma melhora, mas o problema está longe de ser solucionado.

MPF monitora ações da Saúde
O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. se reuniu ontem com o procurador-geral da República, Augusto Aras, para discutir o avanço da pandemia. De acordo com a Procuradoria Geral da República, Queiroga reforçou que o repasse de 15,5 milhões de vacinas da Pfizer até junho. A subprocuradora-geral Célia Delgado também participou do encontro e, segundo a PGR, “explicou ao ministro da Saúde que membros do Ministério Público nos estados acionaram o Gabinete Integrado de Acompanhamento da Epidemia Covid-19 (Giac), que buscou obter informações sobre providências junto ao Ministério da Saúde com antecedência, evitando, assim, que procuradores e promotores precisassem ir à Justiça em busca de decisões liminares”.

Vacinas entre o sonho e a realidade

 (crédito: Evaristo Sá/AFP)

Pressionado para acelerar a vacinação contra a covid-19 no Brasil, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, anunciou ontem, após a segunda reunião do comitê para o enfrentamento da pandemia, a entrega, em junho, de 2 milhões de doses da vacina da Pfizer. A farmacêutica promete repassar, nos próximos meses, 15,5 milhões de unidades do imunizante Comirnaty. A previsão anterior era de 13,5 milhões. A mudança no calendário, no entanto, não vai agilizar a imunização dos brasileiros a curto prazo, pois somente 1 milhão de doses tem chegada prevista até o final de abril.

O mês deve terminar com uma previsão menor de vacinas encaminhadas. O Instituto Butantan anunciou que não conseguirá entregar as 4,6 milhões de doses da CoronaVac pendentes para completar o contrato de 46 milhões de unidades, até o final de abril, como estava definido no cronograma. Ontem, o Butantan enviou mais 1 milhão de vacinas ao Ministério da Saúde e totalizou 40,7 milhões de imunizantes ao Programa Nacional de Imunização (PNI).

O Butantan ainda tem 700 mil doses prontas para serem remetidas ao governo federal, mas depende da chegada dos insumos para continuar a produção e cumprir com os dois contratos, totalizando 100 milhões de vacinas. Segundo o diretor do instituto paulista, Dimas Covas, o novo lote de 3 mil litros do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), que consegue produzir pelo menos mais 5 milhões de doses, chegará ao Brasil na próxima segunda-feira (19). “Isso vai permitir a retomada da entrega a partir de 3 de maio”, disse Covas.

A nova previsão feita pelo Butantan é de que as 4,6 milhões de doses faltantes sejam liberadas até 10 de maio. “Em maio, até o dia 10, nós entregamos as 46 milhões e já iniciaremos a entrega de 54 milhões das doses adicionais”, completou o diretor. Com dois contratos firmados com o Butantan, o Ministério da Saúde garantiu 46 milhões de doses da CoronaVac e 54 milhões de doses adicionais. Mesmo com os atrasos nas entregas, o governador do estado de São Paulo, João Doria, reafirmou o compromisso de finalizar as entregas ao PNI até agosto.

Doria relembrou que a CoronaVac, atualmente, é responsável por vacinar oito a cada 10 brasileiros e, mesmo ao comemorar o anúncio da chegada de 15,5 milhões de doses da Pfizer até junho, alfinetou o governo federal. “É muito bom ter anúncio de mais vacinas. Até agora são expectativas de uma enxurrada de vacinas. O fato é que a única (vacina) que tivemos uma enxurrada foi a do Butantan. Espero que o Ministério da Saúde, o governo federal, consigam materializar aquilo que falam, porque falam muito e entregam pouco”, criticou Doria. Em 21 de janeiro, o então ministro Eduardo Pazuello prometeu uma “avalanche de laboratórios apresentando propostas” de imunizantes entre o fim de janeiro e o início de fevereiro.

Outras vacinas

Apesar de anunciar a entrega de 2 milhões de doses da vacina da Pfizer, o ministro da Saúde não detalhou quando elas estarão disponíveis para a população. No último dia 7, a Pfizer informou que um milhão de doses da vacina chegariam ainda este mês, outros 2,5 milhões em maio e “o restante, escalonado progressivamente até setembro”. Sem confirmar ou detalhar o calendário, a farmacêutica apenas reafirmou o compromisso de entregar as “100 milhões de doses da nossa vacina até o final do 3º trimestre de 2021, com um cronograma de doses crescente ao longo dos próximos meses”.

Enquanto aguarda a chegada do imunizante da Pfizer, o Ministério da Saúde recebeu ontem mais 2,2 milhões de doses da vacina de Oxforx/AstraZeneca, entregues pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). No total, esta semana a fundação irá liberar 5 milhões de doses, contando com a próxima remessa programada para amanhã. “O cronograma de entregas pactuado com o Ministério da Saúde continua seguindo o esquema de entregas semanais e está sujeito à logística de distribuição definido pela pasta”, disse a Fiocruz.

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