Com caso Adriano, Bolsonaro aumenta coleção de atritos com governadores e desagrada antigos apoiadores

Resultado de imagem para bolsonaroApós se eleger com apoio explícito de 15 dos 27 governadores em 2018, o presidente Jair Bolsonaro coleciona atritos com os representantes dos estados e desagrada à maioria dos antigos apoiadores. Os episódios públicos de confronto, que incluem trocas de farpas e disputas judiciais entre estados e União, se acirraram nesta segunda-feira com a publicação de uma carta, assinada por 20 governadores, com críticas às declarações de Bolsonaro sobre a morte do ex-PM Adriano da Nóbrega. O texto diz que as afirmações de Bolsonaro se antecipam a “investigações policiais para atribuir fatos graves às condutas das polícias e de seus governadores”, além de não contribuírem “para a evolução da democracia no Brasil”.

Bolsonaro insinuou no fim de semana que o ex-PM foi executado pelas forças policiais da Bahia, estado governado pelo PT. No passado, Adriano  foi homenageado por Bolsonaro e pelo seu filho Flávio. Posteriormente, foi acusado de chefiar grupo de milicianos e assassinos. Nesta terça, Bolsonaro voltou à carga e cobrou “perícia independente no corpo do ex-policial, e também questionou quem fará a perícia nos telefones apreendidos com o ex-capitão do Bope. Segundo o presidente, mensagens e áudios poderiam ser forjados para acusar inocentes (saiba mais aqui).

CARTA

A iniciativa da carta partiu dos governadores de Rio, Wilson Witzel (PSC), e São Paulo, João Doria (PSDB), que não têm sido recebidos pelo presidente. “É preciso observar os limites institucionais com a responsabilidade que nossos mandatos exigem. Equilíbrio, sensatez e diálogo para entendimentos na pauta de interesse do povo é o que a sociedade espera de nós”, diz a carta. O Planalto não comentou o texto.

Os embates vão na contramão das administrações de Fernando Henrique, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer, que fizeram acenos públicos em busca de harmonia com os estados no primeiro ano de governo. Neste mês, Bolsonaro também aprofundou as rusgas ao excluir governadores do recém-criado Conselho da Amazônia e desafiar estados a zerar o ICMS sobre combustíveis.

Na semana passada, 22 governadores assinaram nota com críticas à fala de Bolsonaro sobre o ICMS e pedindo “um debate responsável acerca do tema”. Na ocasião, Doria disse que a medida era “bravata”. Bolsonaro rebateu afirmando que “isso não é populismo, é vergonha na cara”. Witzel chamou a proposta de “irresponsável” em um grupo de WhatsApp dos governadores. Ele já declarou mais de uma vez que Bolsonaro tem ignorado seus pedidos de audiência para tratar, entre outros assuntos, da renovação do acordo de recuperação fiscal com a União.

Antecipação eleitoral

O deputado federal Gurgel (PSL-RJ), coordenador da bancada do Rio na Câmara, afirma que tentou fazer as pazes entre Witzel e o presidente por meio do senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), que deixou o PSL em novembro. Hoje, Gurgel é mais próximo a Witzel.

— Diante das coisas que têm que ser alinhadas, como a recuperação fiscal, talvez mais para frente a gente possa ter a noção de algum impacto caso isso não seja solucionado — disse Gurgel.

Na avaliação do deputado Capitão Augusto (PL-SP), a antecipação da corrida eleitoral de 2022 levou os governadores paulista e fluminense a abandonarem possibilidades de alinhamento com o governo federal diante das rusgas, impactando na elaboração de políticas públicas inerentes ao Executivo.

— O presidente naturalmente é um candidato à reeleição, mas houve uma antecipação da eleição pelos governadores (Witzel e Doria), criando uma queda de braço que é prejudicial sobretudo para o Executivo e para os próprios estados — afirmou.

Em outra frente contra o governo federal, Ibaneis Rocha (MDB) ingressou com um pedido no Supremo Tribunal Federal para que Marcola, líder de uma facção criminosa de São Paulo, seja transferido do presídio federal de Brasília. O governador do DF, que declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno em 2018, manifestou “repúdio” à presença de líderes de facções e afirmou que “Brasília é a capital da República e assim deve ser tratada”.

Há divergências com o Planalto partindo até mesmo de governadores eleitos pelo PSL, antiga sigla de Bolsonaro. O governador de Santa Catarina, Carlos Moisés, é um dos signatários da nota sobre o ICMS, mesmo declarando que continua fiel às bandeiras do bolsonarismo. Em entrevista à NSC TV, afiliada da TV Globo em seu estado, Moisés defendeu a reforma tributária prometida pelo governo como melhor solução para o impasse.

— Acho que a bola ‘quicou’ para todos os governadores e para dizer o seguinte: ‘Olha, nós queremos exatamente aquilo que foi prometido, mais Brasil, menos Brasília, menos União’ — disse.

Na última sexta, Moisés deu mais um sinal de afastamento para o presidente ao indicar para a liderança do governo na Assembleia Legislativa de Santa Catarina a deputada Paulinha, do PDT, sigla de oposição a Bolsonaro.

O cientista político Fernando Schüler, do Insper, vê nos atritos entre Bolsonaro e governadores uma repetição da “desconfiança com o ambiente político” e com o “diálogo institucional” sinalizados pelo presidente na campanha eleitoral de 2018. Para Schüler, o “jogo retórico que se alimenta da polarização” também interessa a governadores que fazem oposição a Bolsonaro, sejam eles ex-aliados, como Doria e Witzel, ou de partidos de esquerda, como a maioria dos governantes do Nordeste, única região em que o então candidato do PSL não saiu vitorioso em 2018. Bolsonaro já entrou em colisão ao se referir aos governadores da região como “paraíba”, em julho do ano passado, e voltou a acirrar os ânimos com a declaração de sábado em relação ao governador da Bahia, Rui Costa (PT). Na discussão, por meio de notas oficiais, Costa e Bolsonaro se acusaram de manter vínculos com “bandidos”.

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