Botafogo S/A: da salvação à desconfiança

Sufocado por uma dívida que ultrapassa R$ 1 bilhão e rebaixado para a Série B, o Botafogo joga desde o ano passado suas fichas na transformação de seu futebol em empresa. O clube tentou um primeiro projeto, que foi abortado antes do lançamento. No momento, outro plano está em discussão, com pressões que evidenciam como a iniciativa está longe de ser unanimidade em General Severiano.

A novela ganhou novos capítulos públicos esta semana. Na segunda-feira, influenciadores movimentaram as redes sociais e sites ligados ao clube com críticas à lentidão do andamento do projeto S/A. Não foi coincidência. Há algum tempo, um conselheiro enviou a mensagem abaixo para diversos influenciadores alvinegros.

“Caro, o projeto da nova SA está há 47 dias na mão do Durcesio para que possa assinar e encaminhar para o conselho deliberativo. Acho que os influenciadores poderiam cobrá-lo por isso. Há investidores interessados e pressão ajuda”.

Também na última segunda-feira, o ex-presidente Carlos Eduardo Pereira, o CEP, publicou no Instagram a frase “O monstro tá saindo da jaula”. Ele é um dos maiores entusiastas do projeto atual, liderado pelo economista Gustavo de Almeida Magalhães. Outro aliado importante é o ex-vice de marketing Ricardo Rotenberg.

CEP defende a aprovação do projeto atual - Reprodução/Instagram

O presidente do Botafogo, Durcesio Mello, pediu prudência com o projeto em nota divulgada nesta semana. No fim de março, o clube anunciou a contratação do economista Jorge Braga como CEO (Chief Executive Officer). O executivo, que logo começou a se familiarizar com o projeto, chegou ao clube pouco depois que Gustavo Magalhães apresentou o plano ao presidente.

– Eu entreguei ao Botafogo uma proposta de acordo de investimento para avaliação. Não tive retorno ainda, e o presidente disse na imprensa que estão estudando o documento para submeter ao Conselho Deliberativo. Estou no aguardo. Não participo e não sou especialista em trâmite interno do Botafogo. Se o Botafogo entender que é bom para o clube, estamos prontos para ir em frente – disse Gustavo Magalhães ao ge.

Mesmo antes da aprovação da diretoria e dos conselheiros alvinegros, o site da Áureo Investimentos, que tem o economista como um dos sócios, exibe informações iniciais sobre o fundo Estrela Solitária S/A. Com nome em inglês, “Lone Star”, apresenta duas opções de oferta com a promessa: “Em breve”. Um vídeo feito para promover o projeto vazou em grupos de WhatsApp. Segundo Magalhães, o material – que foi criticado nas redes – não era uma “versão final”.

Fundo de investimentos são anunciados no site da Áureo Investimentos - Reprodução
Fundo de investimentos são anunciados no site da Áureo Investimentos – Reprodução

Se velhos caciques continuam na disputa, outro nome muito influente deixou os holofotes: o ex-presidente Carlos Augusto Montenegro. Antigo porta-voz do projeto da S/A, o dirigente promovia reuniões na própria casa para tratar do assunto. Hoje, com a nova diretoria, se mantém influente e bem informado, mas deixou a liderança das conversas.

Durcesio assumiu o Botafogo em janeiro com esperança de convencer botafoguenses ilustres a investir na segunda tentativa de transformação do clube. A principal diferença é que o novo plano criou um modo de atrair pessoas físicas, permitindo que torcedores “comuns” coloquem dinheiro no projeto. Só que a iniciativa recebe críticas nos bastidores.

Durcesio tenta ganhar tempo para reconfigurar o projeto de modo a reduzir os riscos. A situação financeira do clube é tão grave que um lançamento fracassado poderia torná-la irreversível. Por isso, o tom político do presidente em sua nota esta semana. A avaliação interna é de que, atualmente, ainda não há garantias jurídicas e financeiras para o clube e para possíveis investidores. É isso o que se tenta alinhar nos próximos passos.

– Está sendo realizada uma análise bastante criteriosa da última versão apresentada, que envolve o CEO Jorge Braga e escritórios de advocacia externos. Esse projeto tem que sair perfeito, até porque tem uma questão regulatória muito importante para que o modelo desperte toda a segurança ao investidor. Já houve diversas tentativas ao longo do último ano e meio de projetos apresentados e não podemos mais errar – afimou em declaração recente.

Jorge Braga foi na mesma linha. O CEO acredita que levar o plano adiante sem as correções necessárias pode “pôr em risco a única chance do Botafogo de sair deste ciclo vicioso em que se encontra”.

– O Botafogo tem pressa, mas não pode errar mais.

Jorge Braga assumiu o cargo de CEO do Botafogo no fim de março - Vitor Silva/Botafogo

Nas entrelinhas de ambos, o mesmo recado: o clube não pode se arriscar a lançar um plano que morra na praia. Há confiança de que a S/A vai sair, mas não de que está pronta. Enquanto isso, o Botafogo aguarda também a evolução do projeto de clube-empresa que tramita no Senado, que pode trazer mudanças permitindo uma solução alternativa.

Na última quinta-feira, Durcesio e o vice-presidente Vinícius Assumpção se reuniram com integrantes de torcidas organizadas. A S/A foi um dos assuntos, e o recado foi parecido. “Eu só tenho mais um tiro, e eu tenho que acertar esse tiro”, explicou o presidente. Também houve espaço para algum otimismo. Foi citado o interesse de um investidor estrangeiro, que será avaliado internamente. É possível que o projeto seja analisado pelo Conselho Deliberativo ainda no mês de maio.

PERGUNTAS FREQUENTES

1 – Como funcionava o primeiro plano de S/A?

– O Projeto 1 previa a constituição de dois fundos independentes: um Fundo de Investimento com Direitos Creditórios (FIDC) e um FIP (Fundo de Investimento Privado). O FIDC negociaria a dívida do clube e a recompra com desconto para ser pago em 20 anos (com carência de cinco). Se 80% da dívida fosse recomprada, o restante do capital seria alocado integralmente na operação da Botafogo S/A através de um Fundo de Investimento em Participações (FIP). Seriam duas entidades jurídicas diferentes com os mesmos investidores. O projeto tinha incentivos para obrigar que o investidor buscasse resultados esportivos, não apenas retorno financeiro. O FIDC se tornaria o principal credor do clube, o que garantiria a necessária segurança para o investidor.

2 – Por que não deu certo?

– O processo de captação de investidores não atingiu o valor que o clube considerava necessário para dar a partida no processo.

3 – Como funciona o segundo plano?

– O Projeto 2 também constitui dois fundos: um Fundo de Investimento Privado (FIP) e um Fundo de Investimento em Cotas de Fundos de Investimento de Mercado (FIC-FIM). O FIP receberia o aporte de um investidor estratégico que poderia ser majoritário. O FIC-FIM captaria investimento para o FIP e seria aberto para qualquer pessoa física. O objetivo seria atrair torcedores para ajudar na reconstrução do Botafogo.

4 – Qual é o risco desse projeto?

– A remuneração prevista no plano soa otimista e prevê uma série de receitas incertas no médio prazo, como a garantia de retorno do Botafogo à Série A. Além disso, não há certeza de que o modelo será capaz de atrair o montante necessário para equalizar a dívida.

5 – Há alternativa?

Sim. É possível que o clube desenhe um novo modelo. O projeto de lei que cria novas regras para a transformação de clubes em empresas pode ser um caminho, em especial se ele mudar as regras de recuperação judicial.

RETROSPECTIVA

O início do sonho

26/7/2019

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No primeiro semestre de 2019, os irmãos Walter e João Moreira Salles encomendaram um estudo junto à empresa de auditoria e consultoria Ernst & Young para recuperação administrativa e financeira do Botafogo. O plano consistia na criação de uma Sociedade de Propósito Específico (SPE), por meio da constituição de uma nova empresa, uma sociedade anônima, que utilizaria todos os ativos do futebol profissional e precisaria, em contrapartida, levantar dinheiro suficiente para arcar com dívidas de curto prazo hoje sob responsabilidade do clube social.

+ Entenda o plano

Os dirigentes do Botafogo embarcaram na ideia, mas contavam com maior participação dos irmãos além do investimento na futura S/A. O que não aconteceu. “O que meu irmão e eu fizemos foi apenas contratar um estudo sobre a situação do clube”, explicaram os Moreira Salles. Foi o primeiro baque.

Projeto ganha corpo

24/9/2019

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Defendida pelos ex-presidentes Nelson Mufarrej e Carlos Augusto Montenegro, a S/A seguiu adiante sem a participação dos empresários botafoguenses. A antiga diretoria contratou o empresário Laércio Paiva para elaborar o plano e, em alguns meses, o projeto do clube-empresa chegou ao conhecimento dos conselheiros.

Com previsão para ser apresentado ao Conselho Diretor em outubro de 2019, o plano de negócios da Botafogo S/A atrasou e chegou ao Conselho Deliberativo na primeira quinzena de dezembro daquele ano. Em sessão extraordinária, foi aprovada de forma unânime a migração do futebol alvinegro para o modelo de clube-empresa.

+ Láercio Paiva tira dúvidas sobre Botafogo S/A

Assembleia puxa onda de otimismo

27/12/2019

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O plano de Laércio Paiva foi muito bem recebido. Em 27 de dezembro de 2019, uma Assembleia Geral Extraordinária em General Severiano ratificou a criação da Botafogo S/A em votação dos sócios que durou mais de 12 horas.

No papel estava tudo certo, e o otimismo tomou conta dos alvinegros. O ano de 2020 passou a ser projetado como um marco na história do Botafogo a partir da profissionalização do seu departamento de futebol: “O Botafogo é pole position. Referência para todos os clubes do Brasil”.

Antes mesmo da aprovação do conselho e dos sócios, a diretoria se animava com a proposta. Em novembro de 2019, o ex-presidente Carlos Augusto Montenegro garantiu o modelo de clube-empresa após o Brasileiro: “Vai mudar, o Botafogo não aguenta 2020 nesse formato”.

Prazos equivocados e o fim do Projeto 1

19/3/2020

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balanço financeiro de 2019 mostrou que as receitas estavam estagnadas em um patamar insuficiente para qualquer recuperação financeira, o orçamento novamente havia estourado, e as dívidas pioraram em quantidade e perfil – as maiores do futebol brasileiro.

Os números desesperadores indicaram a urgência de colocar em prática a S/A, vista como última salvação para a situação do clube. A ideia passou a ser explorada pelos dirigentes, mas acabou não passando de ilusão na visão dos torcedores. Não bastassem as dificuldades naturais do mercado financeiro, o Botafogo teve que lidar com a pandemia que afetou a economia mundial logo nos primeiros meses de 2020.

Devido às incertezas do novo cenário, o Botafogo precisou refazer o plano de negócios para o projeto, e as conversas com os investidores se estenderam. Mas os dirigentes não assimilaram os obstáculos e, em julho do ano passado, Montenegro afirmou que o clube já teria R$ 230 milhões para a S/A. Nesse panorama, “só” faltavam R$ 20 milhões: “Estamos no processo final”.

Aconteceu o contrário, e o projeto liderado por Laércio Paiva chegou ao final em outubro de 2020. Em nota, o clube informou que os executivos envolvidos na tentativa de captação de recursos encontraram dificuldades geradas pela pandemia, o que impediu a conclusão da S/A “no curto prazo”. Dias depois, o líder do plano de negócios se afastou do processo.

O projeto contava com o incentivo dos irmãos Moreira Salles, que voltaram à cena e confiavam na proposta de Laércio. Os botafoguenses entrariam com R$ 126 milhões dos R$ 250 milhões necessários como aporte inicial para a S/A: “No Projeto 1, os investidores majoritários não aceitavam não ser majoritários”, disse Montenegro em 28 de outubro do ano passado.

Recuperação judicial

22/10/2020

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Termo proibido até então nos bastidores do Botafogo, a recuperação judicial passou a ser considerada após o naufrágio do primeiro projeto da S/A. A ferramenta é usada pelo poder público para recuperar empresas quase falidas. O processo, porém, oferece riscos e poderia levar o clube, inclusive, à última divisão do futebol nacional.

Uma nova tentativa de salvação

29/10/2020

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Sem Laércio e com a recuperação judicial no horizonte como plano B, o Botafogo passou a estudar outras alternativas, e é aí que entra Gustavo Magalhães. Chamado de “Projeto 2”, o plano do economista pintou em General Severiano em outubro passado. Enquanto o primeiro plano tinha já de cara o investimento de R$ 126 milhões dos irmãos, o segundo começou sem investidor, mas os dirigentes defendiam o fato de abrir o leque e aceitar investidores de perfis diferentes e também de fora do país.

primeira ação de Gustavo foi a contratação de um escritório de advocacia especializado em conversa com credores para entender o que eles pensam sobre negociação da dívida e qual o interesse para fazer um acordo de pagamento à vista.

Com o projeto nas mãos da diretoria, o empresário aguarda a aprovação do clube para seguir com os lançamentos dos fundos de investimento. Gustavo garante que já tem investidores interessados.

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