Artilheiro “pontual”, Gonçalves aponta duelos com Flamengo e Atlético-MG como auges do Botafogo de 95

Até chegar à final e vencer o Santos, o Botafogo teve de se provar, interna e externamente, até chegar ao título do Campeonato Brasileiro de 1995. O ano começou com turbulências e contestações, mas dois jogos que valeriam apenas três pontos resultaram, também, na confiança e no reconhecimento que aquele time precisava para levantar a taça.

Time do Botafogo campeão brasileiro de 1995 — Foto: MASAO GOTO FILHO / ESTADÃO CONTEÚDO

Essas partidas marcantes são as vitórias contra Flamengo e Atlético-MG. Duelos que muitos defendem terem sido as melhores exibições da equipe de Paulo Autuori naquele Brasileirão. Entre eles o zagueiro Gonçalves, titular absoluto e um dos líderes do time. Ao GloboEsporte.com, ele recordou com carinho dos jogos em que marcou seus únicos dois gols de toda a campanha.

– Coincidentemente, fiz gols contra o Atlético e contra o Flamengo e considero os melhores jogos. Principalmente contra o Flamengo. O 3 a 1 em Fortaleza foi uma grande atuação da nossa equipe. E contra o Atlético foi um jogo de destaque do time todo. Lembro que o Donizete e Túlio fizeram gols, mas o Wagner fez grandes defesas também – disse.

 

Veja mais tarde a entrevista na íntegra, em vídeo.

Gonçalves, zagueiro campeão brasileiro em 1995 pelo Botafogo — Foto: Jessica Mello
Gonçalves jogou 25 dos 27 jogos daquela campanha e fez dois gols, nas duas partidas que são consideradas as melhores do Brasileirão de 1995.

Na partida contra o Flamengo, pela sétima rodada, em setembro, o Botafogo apareceu para o Brasil como postulante ao título depois de alguns tropeços no primeiro turno. A goleada sobre o Galo é considerada o grande espetáculo do campeão. Para Gonçalves, tudo começou na vitória sobre o badalado rival, que mudou a postura de adversários e opinião pública.

– Além do Flamengo, tinham outras equipes grandes que eram favoritas para vencer aquele campeonato. Palmeiras, Corinthians, São Paulo, o próprio Santos… Depois daquele jogo contra o Flamengo, a própria imprensa passou a tratar o Botafogo de outra forma.Todos deram mais valor à nossa equipe – continuou.

Como foi enfrentar o Flamengo de Romário, Edmundo e Sávio?

– O Flamengo era o time mais badalado do Brasil, porque tinha o Romário, o grande herói do tetracampeonato. Além do Sávio, do Edmundo. Tinha um time muito qualificado. Mas, clássico carioca não tem favorito. A imprensa pode badalar mais um clube do que o outro em determinada época, mas acaba o favoritismo quando entramos em campo.

Houve provocação?

– Estávamos muito mordidos pelo que tinha acontecido antes do jogo. O Flamengo tinha aquele “ataque dos sonhos”. Na véspera do jogo, alguns jogadores do Flamengo foram passear de barco no sábado pela manhã. O jogo foi no domingo. A imprensa divulgou fotos do Romário e outros jogadores. Como se não precisassem ficar concentrados, que o jogo seria fácil. Nós vimos a reportagem, as fotos, e nos deu ainda mais ânimo. Fizemos uma boa partida, foi um grande jogo. Ainda tive a felicidade de fazer um gol.

– Foi o meu primeiro jogo contra o Flamengo, que era o meu ex-clube. Saí para o México e, depois, voltei em 1995. Estava motivado. E ainda foi o meu primeiro gol pelo Botafogo contra outro clube grande do Rio de Janeiro.

Mais de 70 mil pessoas foram ao Castelão. Como foi o clima?

– Foi um jogo diferente, atípico. Começando que não foi no Maracanã, foi no Castelão, em Fortaleza. O que nos surpreendeu muito foi ver a torcida do Botafogo dividir o estádio com a torcida do Flamengo. O Flamengo sempre teve a maior torcida do Brasil, mas naquele jogo nós vimos um estádio lotado em meio a meio. Foi gratificante ver a força da torcida do Botafogo no Ceará.

Passando para o jogo contra o Galo. O time já estava embalado?

– Foi um jogo emocionante. Reafirmou a posição da nossa equipe como muito competitiva. Já estávamos sendo falados em todo o Brasil. Aquila foi uma vitória importante, porque era um adversário tradicional e que tinha uma boa equipe. 5 a 0 não é um placar muito comum nos clássicos do futebol brasileiro. A torcida ficou muito feliz no Maracanã. Fiz o gol em uma jogada de bom posicionamento. Abriu o placar logo no início do jogo, então nos deu confiança.

Nesses dois jogos você apareceu como zagueiro-artilheiro. Aprendeu com Donizete e Túlio?

– O zagueiro não tem cacoete de fazer gol, mas em todos os times em que eu joguei era uma determinação dos treinadores que os zagueiros fossem para a área no escanteio. De tanto cabecear para salvar a área do próprio time, você acaba se aprimorando nesse fundamento. Costumava ir para a área, e esses gols saíram após escanteios, mesmo não sendo de cabeça. Eu e Gottardo sempre íamos para a área para tentar o cabeceio. Era uma jogada treinada pelo Paulo Autuori sempre que tinha escanteio ou até falta lateral.

A final contra o Santos foi marcada por muitas provocações. O clima foi quente nos bastidores também?

– Na semifinal, o Fluminense venceu de goleada no Maracanã e o Santos devolveu em São Paulo. O que motivou muito o santista. Como a gente venceu por um gol em casa (na final), o torcedor achou que seria como foi a semifinal. No Maracanã, a torcida do Santos comemorou. Foi algo que revoltou, comentamos muito entre a gente. Na hora eu fui para a torcida do Botafogo para que vibrassem, que acreditassem no nosso time. Aí que eles começaram a soltar o grito também. Isso foi muito comentado durante a semana.

Qual é a sua história favorita daquela campanha?

– Tivemos que superar muitas dificuldades naquela campanha. Quatro meses de salários atrasados, vaquinha para comprar o café da manhã para os funcionários… Não tínhamos uma estrutura adequada para trabalhar no Caio Martins. Mas, nesse espírito, gosto de lembrar de quando fizemos uma vaquinha para comprar uma brasília amarela para o Iranildo, o nosso chuchu. Ele era o jogador mais jovem da nossa equipe, muito humilde, menino do interior. Gostava muito das músicas do Mamonas Assassinas, então compramos essa brasília. Foi um dia de muita festa, muita alegria. E mostrou a união daquele grupo.

Ainda tem contato com o grupo daquele ano?

– Tenho muito contato com o Donizete, que é o meu compadre. Mas também com o Gottardo, com o Túlio. A gente faz lives. O pessoal do Rio, como o Leandro Ávila, o Wagner, sempre encontro em algum evento. O clube sempre faz eventos com a presença dos ídolos do passado, o que dá essa oportunidade de reencontrar os ex-companheiros. Essa é uma identidade do Botafogo, e espero que continue assim.

Por onde você anda e como tem passado essa quarentena?

– Estou bem, nos Estados Unidos. Moro em Orlando, na Flórida, mas costumo ir ao Rio de três em três meses porque mantenho a minha escola de futebol funcionando há mais de 20 anos. Estamos superando esse momento de pandemia, cumprindo as orientações dos governos, tanto aqui quanto no Brasil. As pessoas estão buscando superar esse momento, que espero que passe logo, logo.

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