Agricultores se emocionam ao entrar numa sala de aula em Caxias

Quando mesa, cadeira, lápis e caderno não fazem parte da infância de uma forma natural, ter um diploma escolar se torna um desafio e uma conquista. Por essa razão, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Secretaria Municipal de Educação tem avançado cada vez mais e chega, pela primeira vez, à Zona Rural de Duque de Caxias. A ação foi lançada como projeto-piloto, no início de março deste ano, na Escola Municipal Sargento João Délio dos Santos, em Xerém, e conta com turma multisseriada de 25 estudantes, entre 25 a 70 anos de idade.Os alunos integram as comunidades rurais de Fazenda Piranema, Amapá e adjacências. A intenção é expandir para as outras 12 unidades escolares do campo no município. Atualmente, a rede municipal de ensino conta com 40 unidades que atendem a modalidade da EJA, espalhadas pelos quatro distritos da cidade.

A realidade daqueles que embarcam nessa empreitada é de pessoas que precisam trabalhar duro durante o dia e decidem encarar de frente uma dupla jornada para estudar à noite. Como é o caso da agricultora Luzia Marques, de 49 anos, casada e mãe de quatro filhas. Ela dedicou a vida a cuidar da família e do campo, de onde tira o sustento, por isso, nunca tinha tido a oportunidade de pisar em uma escola.

“Eu pulei de alegria quando soube. Foi emocionante entrar pela primeira vez numa sala de aula. Sou muito grata por essa oportunidade. Quando eu era criança, morava muito longe da escola. Trabalhava para um fazendeiro no Espírito Santo e meu pai dizia que menina não precisava estudar, apenas casar e ter filhos. Mas eu queria muito aprender a ler e escrever. O pouco que sei aprendi dentro do Movimento Sem Terra (MST). Gosto de participar das redes sociais, mas, muitas vezes, por escrever errado ao comentar algo, zombavam ou me criticavam. Isso me deixava muito triste”, contou Luzia, que vive com a família num lote do assentamento na Fazenda Piranema, onde são produtores de aipim, batata doce, feijão e banana. Quanto ao futuro acadêmico, ela já faz planos: “Quero cursar Agroecologia. Eu amo a terra”!

A proposta de implantação da Educação de Jovens e Adultos do Campo surgiu do fato de que muitos agricultores, por causa da incompatibilidade das atividades na lavoura não tem acesso à escola. De acordo com a Secretaria Municipal de Educação, o projeto está sendo gerido desde 2019, mas, por conta da Covid-19, foi suspenso momentaneamente. E, hoje, está sendo adequado à nova realidade, seguindo os protocolos de segurança.

Realização de um sonho

Para o ex-diretor e atual orientador pedagógico da Sargento João Délio, que foi um dos que, junto com a professora Carine Morão, trabalhou ativamente para que a modalidade fosse implementada, significa a realização de um sonho.“Foram muitas solicitações da comunidade campesina e moradores da área rural. Para mim é resultado de uma luta por direitos que foram retirados da classe trabalhadora e que de alguma forma a escola e a atual gestão colaboraram para garantir o direito à educação escolar. É gratificante ver nos rostos dos educandos a felicidade de estarem na escola, interagindo com outros companheiros e ainda aprendendo a ler e escrever em diálogo com a cultura da terra.

De acordo com a SME, desenvolver uma experiência educativa, com jovens e adultos, em uma escola do campo no município, não é só um desafio para todos os envolvidos, mas uma oportunidade para fomentar e fazer valer as políticas públicas, no âmbito municipal, em Educação do Campo/ Educação de Jovens e Adultos.

“Estamos trabalhando com uma estrutura híbrida que dá conta da necessidade do munícipes. Juntamos duas modalidades de ensino, cada uma com a sua especificidade, e fizemos um documento que as entrelaça. Nesse momento, não temos, mas está a caminho de ser construído, toda uma estrutura para a escola campesina dentro da reestruturação curricular. Enquanto não tem um documento municipal, a gente acaba abraçando a EJA para dar suporte aqueles munícipes que necessitam. Na João Délio, trabalhamos com pais e responsáveis de alunos, além da população que vive no assentamento Terra Prometida, em Xerém. Temos alunos que são analfabetos e outros que dominam o código de escrita e sabem interagir. Eles precisam apenas do código escrito, porque o código da vida eles têm”, destacou Crystiane Cavalcante, que é implementadora da Coordenadoria da Educação de Jovens e Adultos da SME.

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