Agnaldo Timóteo fica imortalizado na galeria dos cantores de vozes exacerbadas

♪ OBITUÁRIO – Não foi por acaso que Agnaldo Timóteo (16 de outubro de 1936 – 3 de abril de 2021) logo ficou conhecido como o “Cauby mineiro” quando, antes da fama, se apresentava em programas de calouros de emissoras de rádio de Belo Horizonte (MG), cidade para onde migrou em 1955 após passar por Governador Valadares (MG), vindo da natal Caratinga (MG).

Aos 84 anos, Timóteo morre no Rio de Janeiro (RJ) neste sábado, 3 de abril, vítima de covid-19 e, com ele, extingue a geração de cantores do chamado estilo “dó de peito”, descendentes da linhagem aberta nos anos 1920 por Francisco Alves (1898 – 1952).

Cantor, compositor e político, Agnaldo Timóteo encarnou o tipo de intérprete de voz potente que exacerbava os dotes nos estúdios e sobretudo nos palcos – assim como o antecessor Cauby Peixoto (1931 – 2016), ícone dessa escola de canto. No caso de Timóteo, a voz de barítono foi usada a plenos pulmões, com vibrato forte e emissão volumosa.

Tais virtudes vocais paradoxalmente carimbaram em Timóteo o rótulo de cantor kitsch. Em bom português, cafona ou brega, rótulos elitistas que o artista sempre rechaçou com virulência.

Agnaldo Timóteo fica imortalizado na galeria dos cantores de vozes exacerbadas

Antes de ser cantor, em carreira que somente decolou na cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde chegou em 27 de dezembro de 1960, Timóteo foi torneiro mecânico e – em capricho do destino – motorista da cantora Angela Maria (1929 – 2018) quando ela já era diva da era do rádio.

Com o aval da patroa e futura colega, o candidato a astro debutou no mercado fonográfico em 1961 com disco de 78 rotações por minuto editado pelo pequeno selo Caravelle com as músicas Sábado no morro (Mário Russo e Sebastião Nunes) e Cruel solidão (Renato Gaetani). Outros singles vieram em 1962 e 1963 com pouca repercussão.

Quando tudo levava a crer no fracasso do “Cauby mineiro”, Timóteo virou o jogo a seu favor em 1965. A porta do sucesso foi aberta com A casa do sol nascente (1965), versão em português – escrita por Fred Jorge – da música The house of the rising sun, tradicional tema folk que o grupo inglês The Animals gravou em 1964 com sucesso planetário. Timóteo chamou a atenção ao dar a voz a esse tema em programa exibido pela TV Rio, já extinta.

Nasceu, ali, a semente do sucesso. Contratado ainda em 1965 pela Odeon, gravadora na qual permaneceu por 20 anos até ser dispensado em 1985, Timóteo lançou um primeiro álbum sintomaticamente intitulado Surge um astro (1965).

Agnaldo Timóteo em estúdio da Barra Funda, em 5 março, quando gravou sete músicas de disco ainda inédito — Foto: Divulgação

A estrela do astro nascente brilhou desde então, sobretudo nos anos 1960 e 1970, décadas em que Timóteo consolidou estilo grandiloquente do canto impostado ao dar voz a um repertório geralmente romântico, arranjado com pompa.

Os discos e os hits se sucederam desde então. Em 1967, lançou Meu grito, música inédita de Roberto Carlos, então o rei da juventude brasileira.

Timóteo foi gay nunca assumido, mas corajoso o suficiente para enaltecer (veladamente) a Galeria Alaska – badalado point carioca de encontros homossexuais – na letra da composição autoral Galeria do amor (1975), radiofônica faixa-título de um dos álbuns mais bem-sucedidos do cantor.

Timóteo tinha a língua ferina. Falou o que pensava, detonando colegas, sem esconder por vezes a mágoa de nunca ter sido aceito no elitizado clube da MPB, nem mesmo quando gravou músicas como Olhos nos olhos (Chico Buarque, 1976) e Grito de alerta (Gonzaguinha, 1979), ambas celebradas na voz dramática de Maria Bethânia em gravações simultâneas da cantora.

Agnaldo Timóteo tinha mágoa por nunca ter sido admitido no 'clube' da MPB — Foto: Acervo Grupo Globo

Agnaldo Timóteo sempre foi enquadrado no time dos cantores sentimentais de aflorada veia popular. Por isso mesmo, foi amado pelo povo, que lhe foi fiel até quando o sucesso escorregou pelas frestas de um mercado cada vez mais refratário a vozes como a de Timóteo. Tanto que, em 1982, esse povo o elegeu deputado federal com expressiva votação.

O aval popular jamais atenuou a solidão que pareceu ter acompanhado o cantor e político pela vida. Traduzida pela imagem da capa do álbum Frustrações (1973), na qual Timóteo aparece sozinho em estádio vazio, a solidão pareceu ter gerado amargura entranhada nas letras diretas da obra autoral do compositor.

O título da música Eu, pecador (1977) – apresentada como faixa-título de álbum do cantor – explicitou a culpa católica pela vivência homossexual que o artista nunca assumiu de fato.

Com personalidade tão forte quanto o canto que se conservou razoavelmente viçoso nos discos da fase crepuscular da carreira do artista, Agnaldo Timóteo sai hoje de cena, tendo deixado gravadas sete das 14 faixas de álbum em tributo a Angela Maria, viabilizado com produção de Thiago Marques Luiz. Disco que o cantor não teve tempo de concluir por ter sido internado com covid-19 em 17 de março, duas semanas após a sessão única de gravação em estúdio de São Paulo (SP). Mas Agnaldo Timóteo sai de cena para permanecer na galeria dos imortais cantores de exacerbados dotes vocais.

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