À CPI, representante da Davati diz que foi procurado por Ministério da Saúde e avisado sobre ‘comissionamento’

O empresário Cristiano Alberto Hossri Carvalho, representante da Davati Medical Supply no Brasil, disse à CPI da Covid, no Senado, que foi procurado pelo ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias, que insistiu em buscar contato para compra da vacina. A empresa, com sede nos Estados Unidos e que diz representar a AstraZeneca, está envolvida em susposto caso de propina para compra de vacinas.

Segundo o policial militar Luiz Paulo Dominghetti, que afirma também ser representante da Davati, disse em seu depoimento à CPI que Dias teria pedido US$ 1 por cada dose de vacina que seria comprada. Carvalho, por sua vez, disse que foi avisado sobre “comissionamento”.

Indagado sobre o suposto pedido de propina citado por Dominghetti, Carvalho disse que ele não falou em propina, mas usou o termo “comissionamento”.

— Ele usou comissionamento. Ele se referiu a esse comissionamento sendo do grupo do tenente-coronel Blanco e da pessoa que o tinha apresentado ao Blanco, que é de nome Odilon — disse.

Sobre Dias, Carvalho afirmou que o primeiro contato foi em 3 de fevereiro com a mensagem: “quando puder me retorne, sou Roberto Ferreira Dias do Ministério da Saúde”. O representante da Davati disse que foi feita uma perícia no celular dele e que todas as mensagens áudios serão entregues à CPI.

— Eu nunca entrei em contato com o Ministério da Saúde, o Ministério da Saúde que me procurou através do senhor Roberto Ferreira Dias — afirmou Carvalho, explicando depois que “devido à insistência” das pessoas em procurá-lo ele viu uma “oportunidade”.

Declarações ‘fantasiosas’

O empresário disse a Davati não tem escritório no Brasil nem na América Latina. Indagado pelo relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), após apresentação de um vídeo sobre declarações de Dominghetti em relações suas funções na empresa como CEO, classificando-as como “fantasiosas”.

— Elas são fantasiosas, a empresa desmentiu em nota oficial. Como a gente pode acompanhar nos últimos dias através da imprensa existem algumas coisas fantasiosas, como no caso da primeira-dama (Michele Bolsonaro) que teve seu nome envolvido. Eu acho que se criou um folclore sobre pessoas envolvidas, que um é CEO, outro é a primeira-dama, o presidente. Talvez ele não tenha feito por mal — afirmou.

Carvalho também contradisse as declarações feitas por Dominghetti em seu depoimento à CPI. O PM disse que o empresário havia feito um acordo verbal com ele para que negociasse a vacina com o Ministério da Saúde em nome da empresa. A Davati havia oferecido 400 milhões de doses da AstraZeneca. Antes do PM entrar nas negociações, ele afirmou que quem estava à frente das conversas era o único representante oficial da empresa, Carvalho.

No entanto, Carvalho afirmou que ele que foi procurado por Dominghetti para participar da negociação com o ministério. O empresário disse que não conhecia o PM até receber uma mensagem dele, no dia 10 de fevereiro.

— Eu não tenho nada que possa desaboná-lo, mas eu não tenho confiança pessoal. Não faz parte do meu rol de amizades. Ele me foi apresentado de uma forma que tinha essa demanda através do governo federal — afirmou.

Contato com o ministério

Carvalho disse que era Dominghetti que estava envolvido inicialmente nas negociações com o ministério e afirmou que o PM quem o levou para uma reunião na pasta, no dia 12 de março. Junto com ele estava o reverendo Amilton Gomes, da Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah) — que, apesar do nome, é uma instituição privada —, e o coronel reformado Helcio Bruno, do Instituto Força Brasil (IFB).

O empresário também afirmou que a reunião também contou com a presença dos coronéis Boechat e Pires e do então secretário-executivo do ministério Elcio Franco.

O Instituto Força Brasil também é investigado pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, como foi ressaltado pelo vice-presidente do colegiado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Cristiano disse que Dominguetti tentou dois caminhos no Ministério da Saúde:

— Havia dois caminhos dentro do ministério aparentemente: Elcio Franco e Roberto Dias. Um não sabia do outro. O caminho que ele tentou via Roberto Dias aparentemente não prosseguiu por um pedido feito, como chegou a mim num primeiro momento. Paralelamente, foram falar com Elcio Franco no intuito, a meu ver, de driblar essa resistência por parte do comissionamento.

Procurado por deputados

Carvalho disse ter recebido cartas de apoio de deputados em nome da Senah. Questionado se tinha nomes, disse não se lembrar, mas poderia mandar a lista. Ele se limitou a dizer que um dos deputados já concedeu até entrevista à imprensa dizendo que deu apoio à Senah. Questionado especificamente sobre o deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara, Cristiano disse:

— Peço desculpas pela ignorância, mas só descobri quem é Ricardo Barros pela CPI. Nunca citaram o nome dele nessas negociações aqui.

Áudio do Luis Miranda

Em seu depoimento, Dominghetti apresentou um áudio do deputado Luis Miranda (DeM-DF) enviado a ele por Carvalho. Nesse áudio, Miranda está negociando um produto, e Dominghetti sugeriu que era uma intermediação para a aquisição de vacinas. Como o deputado havia denunciado irregularidades no Ministério da Saúde, isso foi visto como uma forma de desacreditá-lo.

A versão apresentada por Dominghetti foi refutada na época e, nesta quinta-feira, desmentida pelo empresário. Ele afirmou ter mandado o áudio para Dominghetti apenas para mostrar como o deputado é enfático nos assuntos de seu interesse. Destacou, por exemplo, que na gravação Miranda menciona negócios com empresas que não têm nenhuma relação com vacina.

Acesso às vacinas

Carvalho disse não ter acesso às garantias de que a Davati Medical Supply teria, de fato, condições de fornecer as 400 milhões de doses que prometeu ao governo brasileiro.

— Tenho pedido (à Davati) que produzam essa explicação até porque, como brasileiro, todos nós gostaríamos de saber. Acredito que por todos os poderes concedidos, a CPI tem todos os meios e recursos nacionais e internacionais para ter essas informações de forma mais fidedigna […] Eu não tenho acesso a essa informação. Essa informação, o Hermán Cardenas nunca passou a mim — afirmou Cristiano mencionando o CEO da empresa nos Estados Unidos.

O senador Humberto Costa (PT-PE) disse que o próprio Herman Cardenas reconheceu que não tinha as vacinas e que ele facilitaria a negociação com quem as possuía.

— Eu entrei na empreitada com boa fé. Nunca soube de informação que desabonasse a empresa — afirmou Cristiano.

Auxílio emergencial

No depoimento, Cristiano Carvalho confirmou que recebeu auxílio emergencial do governo no ano passado. Ele justificou que “uma colega” o inscreveu no programa do governo porque viu que ele estava “passando dificuldade”.

— Passei a receber, até entrei em contato depois para fazer a devolução dos valores e não consegui. Mas, desde então, já mandei até um e-mail acho que para a ouvidoria do Ministério da Fazenda, uma coisa assim, pedindo para onde eu deveria fazer o estorno — afirmou, em resposta ao senador Eduardo Braga (MDB-AM).

Carvalho decidiu permanecer em silêncio quando indagado sobre quem o teria inscrito para receber auxílio emergencial, mas afirmou que assumiria a responsabilidade sobre o possível crime que teria cometido.

Senah com apoio do Vaticano

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) perguntou qual o interesse da Senah em vacinas. Cristiano disse que fez essa pergunta a Dominguetti, que respondeu que a aquisição tinha apoio do Vaticano. Em seguida ele mostrou um documento da Senah que tem um selo do Vaticano, algo que foi visto com desconfiança pelos senadores.

— Espero não ter que convocar o papa — ironizou Marcos Rogério (DEM-RO).

— Tem o selo do governo dos Estados Unidos — apontou Randolfe Rodrigues (Rede-AP), indicando que o uso dos selos não significa apoio dessas instituições à Senah.

Pedido de proprina

No início do depoimento, Carvalho negou ter presenciado pedido de propina por parte de representantes do governo federal.

— Não compactuei com nenhum tipo de pedido de propina ou coisa parecida. Não presenciei e não tenho para falar a respeito disso, mas vou narrar os fatos desde o começo, como tudo aconteceu — disse Carvalho, afirmando que era apenas um vendedor e que a empresa não tem CEO.

‘Esclarecer todos os fatos’

Blanco foi substituto do Departamento de Logística. Em depoimento à comissão, Dominguetti disse que o coronel Odilon foi quem o apresentou ao Blanco. Cristiano disse acreditar que Odilon tenha sido a principal interlocutor entre a Senah, Dominguetti e Roberto Dias.

Carvalho recebeu um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal (STF) que lhe dá direito a não responder responder a perguntas que possam o incriminar. Na decisão, no entanto, o presidente da Corte, Luiz Fux, fez uma ressalva que o direito ao silêncio não é absoluto e que ele pode ter que prestar informações sobre fatos que testemunharam.

Mesmo com a decisão do Supremo, Carvalho afirmou que responderá às perguntas:

— Eu gostaria de deixar claro que eu vim aqui para esclarecer todos os fatos. Estou aqui de peito aberto.

Antes do depoimento do empresário, os senadores votaram requerimentos e aprovaram o pedido para a Casa Civil forneça os e-mails de demais comunicações do atual ministro da Defesa, Braga Netto. Ele foi ministro da Casa Civil entre fevereiro do ano passado e março deste ano, época em que coordenou ações de enfrentamento à pandemia.

Braga Netto voltou a ficar na mira da CPI após soltar uma nota na semana passada com críticas ao presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM), e dizendo que “as Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro”. Foi uma reação aos comentários de Aziz sobre o envolvimento de militares em irregularidades no Ministério da Saúde. Braga Netto e outros senadores reagiram dizendo que não ficariam intimidados.

Também o requerimento para o compartilhamento de informações da CPMI das Fakes News, além dos autos de investigação e material sigiloso colhido pela comissão parlamentar mista de inquérito.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: