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25 anos do Teresa Herrera: o troféu que coroou excursão do Botafogo com três títulos internacionais em um mês

Hoje faz 25 anos que o Botafogo conquistava o terceiro torneio internacional no espaço de um mês. Foi num 10 de agosto que o clube empatou em 4 a 4 com a então vencedora da Liga dos Campeões e levou o título nos pênaltis ao converter três das quatro cobranças. O duelo contra a Juventus em 1996 completa um quarto de século nesta terça-feira e o ge relembra algumas das histórias daquele mês em que a equipe alvinegra fez escambo de peças do uniforme por tênis da moda no Japão, ficou a menos de 100 quilômetros de uma guerra na Rússia e foi campeão com a camisa do Deportivo La Coruña na Espanha – e precisou dar respostas para a patrocinadora.

Para trazer alguns dos acontecimentos daquela conquista do troféu Teresa Herrera, nos debruçamos sobre jornais da época e relatos de três envolvidos: o técnico Ricardo Barreto e os jogadores Wilson Goiano e Gottardo, que bateram os pênaltis na última decisão.

Campeão brasileiro em 1995, o Botafogo foi convidado pela prefeitura de La Coruña para ser o representante sul-americano no torneio que ainda contou com o Ajax (então vice-campeão europeu), além do time da cidade espanhola e da própria Juventus. Essa foi a segunda vez que o Bota disputou a competição. Antes, em 1959, a equipe que contava com Garrincha e companhia foi derrotada por 4 a 1 para o Santos de Pelé.

Ainda com alguns personagens da conquista do título nacional de 1995, o Botafogo embarcou para passar um mês fora de casa numa jornada de quase 40 mil quilômetros. Depois do Campeonato Carioca daquele ano e de ter vencido a Taça Cidade Maravilhosa, a equipe comandada por Ricardo Barreto rumou para o Japão, onde disputou a Copa Nippon Ham e derrotou o Cerezo Osaka por 3 a 1 com gols de Túlio, Souza e Zé Carlos. Os japoneses eram os atuais campeões da Copa do Imperador e tinham nomes conhecidos no elenco como Sergio Manoel e Gilmar Rinaldi.

Com grande problema para pagamento de salários naquela época, esses torneios amistosos realizados no verão do hemisfério norte (período de pré-temporada dos clubes europeus) eram vistos como ótimas oportunidades para o clube embolsar um pouco mais de dinheiro. O valor das conquistas era dividido entre os jogadores, que entravam ainda mais motivados. Segundo Wilson Goiano, que atuou no clube entre 1995 e 1998, eles aproveitaram também para conseguir algumas peças de roupa que eram um tanto difíceis de encontrar no Brasil dos anos 90.

Carrossel Botafogo Teresa Herrera

– No dia do jogo a gente ia fazer compra, trocava as coisas, os japoneses eram doidos com a gente. O hotel ficava lotado, a gente trocava meião por máquina fotográfica, por tênis moderno. Tanto que o último jogo contra a Juventus nós tivemos problema com material. O Gonzaga (roupeiro) falava assim: “Pelo amor de Deus, tem jogo ainda e vocês estão dando tudo.” E a gente ia trocar um par de meião, um calção em troca de um tênis da moda… a gente tava deitando e rolando. Valia à pena, era um baita negócio para nós.

Depois do passeio pela ilha que sediou os últimos Jogos Olímpicos, o Botafogo rumou para a Rússia. Mais precisamente para a Vladikavkaz. Terra do Alania Vladikavkaz, então vice-campeão russo, a cidade na Ossétia do Norte fica a pouco mais de 100 quilômetros da Chechênia. O Torneio Presidente da Rússia foi realizado justamente quando acontecia a Primeira Guerra da Chechênia, conflito separatista entre chechenos e russos. Para os cariocas terem noção da proximidade, é como se o jogo fosse no Rio de Janeiro e houvesse uma guerra ocorrendo em Saquarema.

As partidas do Botafogo em 3 e 4 de agosto contra Auxerre e Valencia, respectivamente, foram dois dias antes de uma das últimas ofensivas do combate. Antes mesmo de chegar à cidade russa, o medo se fazia presente. Como ainda estava na transição do socialismo para o capitalismo, a estrutura na região era precária e até mesmo aviões pareciam sucateados. Viola, que atuava no Valencia naquela época, teve de ser convencido a viajar no avião fretado para as duas equipes porque não queria entrar numa aeronave que ele garantia que tinha tudo para cair. Relatos de jornais brasileiros da época afirmam que até mesmo algumas pessoas viajaram a pé.

Ao chegarem em Vladikavkaz, recepção calorosa, mas das forças de segurança. Para evitar qualquer possibilidade de atentado, os policiais escoltaram a delegação alvinegra e ficaram na porta do hotel e nos corredores que davam para os quarto dos jogadores para garantir a segurança. A própria hospedagem não era das melhores para o Alvinegro, por mais que os russos dissessem ser da melhor qualidade que tinham na região. Soldados que atuavam no conflito às vezes almoçavam com os jogadores no restaurante do hotel, de onde também era possível ouvir explosões.

Dentro de campo, tudo correu bem. O Botafogo venceu o primeiro jogo contra o Auxerre (campeão francês daquele ano) por 3 a 1 com gols de Marcelo Alves e Túlio, duas vezes. No dia seguinte foi a vez do Bota encarar o Valencia e empatar em 1 a 1 com gol de Túlio. Nos pênaltis a equipe alvinegra venceu por 5 a 4 e colocou o segundo troféu na mala. Era hora de se encaminhar para a Espanha.

Apesar de ser o atual campeão brasileiro, o Botafogo estava longe de ser considerado um dos favoritos. Em uma competição com o atual campeão da Liga dos Campeões (Juventus), o vice do mesmo torneio (Ajax) e o campeão da Copa do Rey na temporada anterior (Deportivo La Coruña), o time comandado por Ricardo Barreto poderia ser considerado o patinho feio daquela edição. Foi justamente nessa condição de franco-atirador que o técnico passou as instruções para a equipe que tinha Gottardo como capitão.

– Na Europa o sul-americano não era recebido para ser campeão. Eram torneios para serem conquistados pelos europeus e não por um sul-americano. A história do Botafogo é muito forte na Europa até hoje. Sempre teve aquilo de fazer parte das grandes seleções do Brasil e eles dão muito valor a isso. A memória deles é bem interessante quanto a isso, então sempre foi motivo de honra. Não faltaram com respeito, mas você estava disputando contra Ajax, Juventus e La Coruña, esse torneio era pra ficar lá. O patinho feio acabou com a festa – disse o zagueiro que ergueu a taça Teresa Herrera no fim do torneio.

“Ergueu” é forma de dizer, porque o enorme troféu tem 1,60 m e cerca de 35kg, que precisou até de uma passagem própria para ser transportado ao Brasil. Mas antes de carregar a taça de volta para o Rio de Janeiro, o time precisou vencer os espanhóis donos da casa. Por se tratar de um torneio de pré-temporada europeu e os jogos serem muito próximos um do outro, mal houve tempo para o Botafogo treinar. No máximo o que acontecia era um reconhecimento de campo e um ou outro exercício para fortalecer a musculatura já desgastada da maratona de jogos anteriores.

No Estádio Riazor, casa do Deportivo La Coruña e sede das duas partidas disputadas pelo Bota, o que a equipe mais fez foi correr atrás do placar. Os espanhóis, que tinham Mauro Silva entre os titulares, saíram na frente logo aos sete minutos do primeiro tempo, com Beguiristain de pênalti. Aos 38, o Botafogo empatou com Bentinho e virou com Túlio Maravilha quatro minutos depois. Classificação para a final, dois dias depois, assegurada.

Segundo Wilson Goiano e os jornais da época, a desconfiança era grande no título até mesmo pelo então presidente Carlos Augusto Montenegro. Quando viu que o Botafogo iria enfrentar três das principais equipes europeias naquela época, o homem-forte do clube disse que daria todo o prêmio de 80 mil dólares (o equivalente a R$ 723 mil em valores de hoje e a menor cota entre os quatro participantes) aos jogadores se eles conquistassem o título. E foi o que aconteceu.

Na outra semifinal, disputada entre Ajax e Juventus, a equipe italiana aplicou uma goleada de 6 a 0. Marcio Santos teria explicado à época para Gottardo que o time holandês era assim mesmo, que sempre ficava muito aberto e acabava expondo muito a defesa. Ao Jornal do Brasil, Ricardo Barreto havia alertado: “Eles roubam a bola na intermediária e chegam ao ataque com três ou quatro toques”. Como preparativo para a decisão não houve tanta explicação tática, necessidade específica de fazer alguma jogada elaborada ou marcar algum jogador específico do time italiano, que tinha Vieri, Del Piero, Amoruso, Deschamps e até Zidane, que não jogou a final.

– Vínhamos de um título brasileiro em que o time quase não foi desfeito. Nós tínhamos uma base e um conjunto muito bons. O coletivo era muito forte. E, nessa época, as equipes europeias estavam fazendo sua pré-temporada. Apesar de que no último jogo era todo mundo contra a gente, principalmente as pessoas da organização (…). Nós tínhamos uma filosofia de jogo. O conjunto era forte e mantivemos uma postura um pouco mais defensiva para sair no contra-ataque. Foi passado para os jogadores para que mantivéssemos sempre o equilíbrio e saíssemos com a bola em velocidade porque tínhamos jogadores com essa característica – disse o técnico, cujo último trabalho foi no Angra dos Reis, em junho deste ano.

Torcida do Botafogo comemora o título do Teresa Herrera em General Severiano - Reprodução
Torcida do Botafogo comemora o título do Teresa Herrera em General Severiano

Mas antes mesmo de a bola rolar houve uma confusão danada. Por se tratar de um torneio amistoso de pré-temporada europeu, Marcello Lippi, então técnico da Juve e que viria a ser campeão da Copa do Mundo com a Itália 10 anos depois, queria mudar o regulamento e fazer com que fosse permitido cinco substituições na partida. O Botafogo não aceitou. Vinha de uma viagem desgastante que já tinha passado por Japão e Rússia nas condições citadas e não tinha jogadores suficientes para compor o banco de reservas já que alguns acabaram se machucando durante a excursão.

Como represália, ou “birra” segundo alguns dos jogadores, a equipe italiana não abriu mão de jogar com seu uniforme principal porque o regulamento dizia que a equipe mais antiga poderia escolher o uniforme. Como os jogadores do Botafogo não deram ouvidos ao alerta de Gonzaga e trocaram peças do uniforme no Japão, não havia uma camisa reserva que se diferenciasse muito do listrado em branco e preto da Juventus. A solução que Ricardo Barreto e Antonio Clemente (supervisor do clube na época) encontraram foi de pegar a camisa do La Coruña, que havia jogado a preliminar contra o Ajax. Foi mais do que suficiente para a torcida que começava a ir embora resolvesse ficar mais um pouco para torcer para o “time da casa”

Apito trilado, um festival de gols. O único marcado no primeiro tempo foi de Vieri, de cabeça. Túlio, impedido, empatou aos 4 do segundo tempo, Amoruso desempatou aos 28, e França deixou tudo igual de novo dois minutos depois: 2 a 2. A partida foi para a prorrogação, e Amoruso fez mais um logo com três minutos do primeiro tempo. Ferrara marcou contra aos cinco do segundo, e Amoruso faz o terceiro dele faltando três minutos para o fim. Nesse momento, Montenegro se dirigiu para Ricardo Barreto no banco aceitando a derrota, mas o técnico pediu calma ao dirigente. Eis que Túlio foi derrubado dentro da área e converteu o pênalti que levaria a partida para a decisão da marca dos 11 metros.

O Botafogo cobrou primeiro. Jefferson bateu no canto esquerdo, mas Peruzzi acertou o lado e defende. Amoruso, com moral pelos três gols marcados na partida, tentou o mesmo canto que Jefferson, mas Wagner se esticou todo e pegou a bola. Wilson Goiano deslocou o goleiro e converteu para o Botafogo. Di Livio também parou nas mãos do goleiro brasileiro e reclamou do gramado. O capitão Gottardo pegou a bola e mandou uma bomba no canto direito do goleiro. Jugovic mirou na esquerda de Wagner, que acertou o lado, mas a bola foi para fora. Souza correu para a bola, pisou com o pé esquerdo para apoiar, levantou um bocado de grama e chutou: a bola foi com perfeição no ângulo esquerdo do goleiro Peruzzi, que nem saiu na foto.

Campeão da Teresa Herrera e só festa na Espanha e na volta ao Rio de Janeiro. Para Montenegro e os jogadores da época, a conquista ajudou a relembrar para o mundo das glórias que o Botafogo teve no passado e recuperar o prestígio internacional que teve em décadas anteriores. No retorno, a diretoria ainda teve que lidar com o fato de ter jogado com a camisa do La Coruña, uma vez que a Pepsi era a principal patrocinadora do clube e não teve sua marca sendo exibida na final de um torneio internacional com transmissão do SporTV. Mas tudo foi contornado e o Botafogo voltou com os três troféus na bagagem que até hoje podem ser vistos na sede do clube em General Severiano.

Jogadores do Botafogo, com a camisa do La Coruña, mas calção e meião alvinegros, comemoram o título do Teresa Herrera - Divulgação/Botafogo
Jogadores do Botafogo, com a camisa do La Coruña, mas calção e meião alvinegros, comemoram o título do Teresa Herrera

Escalação contra o Deportivo La Coruña: Wagner; Wilson Goiano, Gottardo, Grotto e Jefferson; Souza, Otacílio, Marcelo Alves (Alemão) e Bentinho (França); Túlio (Zé Carlos) e Sorato (Mauricinho).

Escalação contra a Juventus: Wagner; Wilson Goiano, Gottardo, Grotto e Jefferson; Souza, França (Zé Carlos), Marcelo Alves (Marco Aurélio) e Otacílio; Túlio e Sorato (Mauricinho).

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