Witzel visita Guandu após início da aplicação de carvão ativado e diz que houve ‘alarmismo’

Moradores protestam contra os serviços da Cedae — Foto: Cristina Boeckel/G1 Rio

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, fez uma uma visita técnica na Estação de Tratamento de Guandu e disse que houve um “alarmismo” sobre os riscos do consumo da água – que desde o início do mês tem chegado turva e com gosto barrento para os consumidores.

“A água da Cedae nunca esteve imprópria para o consumo, apesar de não estar insípida e inodora”, disse Witzel.

O governador também criticou os aumentos de preços da água mineral em alguns pontos da cidade.

“Lamentável que alguns tenham aproveitado esse alarmismo para vender água mineral.”

R$ 1,5 bilhão para Guandu 2

Witzel voltou a falar sobre a construção da Estação de Tratamento de Água Guandu 2, já anunciada em 2019, que vai captar água do rio em um ponto menos poluído. O projeto está em processo de licitação, e deve custar 1,5 bilhão. A estação ficará em Nova Iguaçu.

O governador reconheceu que há déficit no saneamento do estado, e afirmou que o governo não tem condições de fazer os investimentos necessários e, por isso, optou pela concessão – um processo de privatização está em andamento, como exigência do Regime de Recuperação Fiscal.

“Há um passivo de saneamento no Brasil e, no Rio de Janeiro e não temos condições de fazer as obras e investimentos necessários no saneamento. Daí a decisão de fazer a concessão do saneamento de água e esgoto.”

Mais R$ 120 milhões em Guandu

Também nesta quinta, a Cedae anunciou que vai investir mais de R$ 120 milhões na modernização da Estação de Tratamento do Guandu este ano.

Segundo a empresa, esse investimento faz parte de uma previsão de que R$ 700 milhões sejam aplicados na modernização da unidade até 2022.

O governador foi a Guandu acompanhado do presidente da Cedae, Hélio Cabral, do presidente da Agenersa, Luigi Eduardo Troisi, do chefe da Estação de Tratamento Guandu, Pedro Ortolano, do secretário estadual de Governo, Cleiton Rodrigues, e do diretor de Grandes Operações e Saneamento da Cedae, Carlos Braz.

Carvão ativado

Mais cedo, a Cedae, começou a aplicar carvão ativado na água.

Witzel disse que o carvão já deveria estar à disposição da empresa antes. “Houve uma falha para que esse desconforto não acontecesse. Mas uma ressalva de que o desconforto é diferente da impossibilidade de consumo, que nunca houve”, disse o governador.

Moradores protestam durante visita de Witzel

Moradores da região aproveitam a visita do governador para protestar contra os serviços prestados pela Cedae em frente à estação de tratamento.

A comerciante Mara Plantas disse que a água que está chegando à casa dela está com odor ruim.

“Três pessoas da minha família passaram mal, com diarreia e vômito”, destacou.

Reclamações desde o início de janeiro

A crise no fornecimento de água começou no início do mês, quando moradores de vários pontos do Rio passaram a reclamar da qualidade da água, que apresentava alterações no aspecto e gosto.

Segundo a Cedae, o que deixou a água com cor turva e sabor e cheiro estranhos foi a geosmina, uma substância produzida por algas. Mas de acordo com a companhia, o consumo não oferece risco à saúde.

Segundo Paulo Canedo, professor da Coppe/UFRJ, o carvão ativado vai minimizar o problema na água.

“Tal qual o leito de carvão ativado que temos nos nossos filtros residenciais, que tiram o sabor da água, inclusive o sabor do cloro que a água normalmente tem. Então, o carvão ativado tem a característica de retirar o cheiro e o sabor da água que, aqui no caso, vai retirar o cheiro e o sabor da geosmina”, explica o professor.

A engenheira ambiental Caroline Lopes, gerente de recursos hídricos da agência da Bacia do Rio Paraíba do Sul, afirmou que o problema com a cor e aspecto da água no Rio e na Região Metropolitana devem chamar a atenção para o grave problema de falta de esgotamento sanitário na área.

“A questão para a qual a gente tem que se voltar é que este quadro tem que servir como um alerta. Não é algo pontual. Temos décadas de lançamento de esgoto sem tratamento antes da chegada à estação de tratamento do Rio Guandu”, explicou a engenheira.

Problemas com esgoto

O crescimento populacional dos municípios da Baixada Fluminense acima do ponto de captação do Guandu mudou para pior a qualidade da água que entra na estação.

Para alguns professores da UFRJ ouvidos pela TV Globo, como já acontece em vários lugares do Brasil, o Guandu vem deixando de ser uma estação de tratamento de água para tratar, na verdade, esgoto.

A pesquisadora do Programa de Engenharia Química da Coppe/UFRJ, Márcia Dezotti, afirma que é preciso tratar os esgotos antes do ponto de captação de água do Guandu.

“A gente vai ter que fazer o saneamento da Baixada como um todo, entre outras coisas, e com pequenas estações de tratamento de esgoto. A gente não pode pensar em estações gigantes, senão a gente não vai conseguir fazer”, explicou.

Recuperação em 30 anos

Segundo análise do Comitê das Bacias Hidrográficas dos rios Guandu, da Guarda e Guandu-Mirim (Comitê Guandu-RJ), a melhora da qualidade da água que chega nas torneiras da maioria da população da Região Metropolitana só será possível com o tratamento do esgoto.

Este processo demoraria 30 anos e custaria mais de R$ 1,4 bilhão. As cidades de Nova Iguaçu e Queimados, por exemplo, seriam responsáveis pelo despejo diário de 56 milhões de litros de matéria orgânica por conta dos afluentes.

A conta que levou a este número levou em consideração a população das cidades e o consumo médio de água. Este valor equivale ao despejo de 22 piscinas olímpicas diárias ou 648 garrafas de um litro de esgoto sendo jogadas por segundo nos afluentes do Guandu.

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