Rio Paraguai vira corredor de fogo no Pantanal

Cáceres está cercada por fogo. Situado às margens do Rio Paraguai, o município tem sido atingido por todos os lados pelas chamas que queimam o Pantanal matogrossense há mais um mês. As labaredas já se aproximam da zona urbana, resultam em uma densa fumaça cinza que envolve a cidade, consomem a vegetação típica do bioma nas duas bordas do rio e provocaram a morte de uma pessoa.  

Desde o começo do ano, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 1.653 focos de incêndio em Cáceres, o décimo município do país com maior número de queimadas. Apenas nas duas primeiras semanas de setembro a quantidade de registros feitos pelo órgão federal chegou a 673. O governo de Mato Grosso decretou na segunda-feira (14) situação de emergência em todo o estado por causa dos incêndios florestais. A medida vale por 90 dias.

Área na cidade de Cáceres (MT), cortada pelo Rio Paraguai, foi tomada por queimadas Foto: Reprodução
A imagem aérea mostra a fumaça em Cáceres Foto: Reprodução

Na última sexta-feira (11), um grupo de pescadores viu de perto a destruição provocada pelos incêndios. A equipe de pesca esportiva transitava em três barcos pelo Rio Paraguai em um local conhecido como Baía das Éguas, entre Cáceres e a Estação Ecológica de Taiamã, quando foi rodeada pela fumaça.  

O pescador Leandresson Rios, de 22 anos, relatou que tinha tanta fumaça que era impossível enxergar o que havia a poucos metros à frente. Com receio de prosseguir, o grupo que estava em seu barco resolveu retroceder. Eles voltaram para uma área mais distante da fumaça e tentaram comunicação via rádio com demais pescadores.

Depois de tomar um pouco de ar, o grupo que estava no mesmo barco de Leandresson resolveu molhar os trajes de pesca na água do rio e subir novamente na embarcação. Eles atravessaram a nuvem de cinzas com a canoa no máximo de aceleração.

“Tinha fogo dos dois lados do rio, não dava para ver 50 metros à frente. Então nós entramos no meio da fumaça, estava um calor absurdo, em torno de uns 50 graus. Nós chegamos a passar mal, estava difícil demais respirar, mas conseguimos atravessar em uns 5 minutos. Eu ando de barco pelo rio há anos e nunca tinha visto nada parecido com isso”, disse Leandresson, moradores de Lambari D’Oeste, município vizinho à Cáceres.

Bombeiros atuam no combate as queimadas em Cáceres Foto: Reprodução

Imagens feitas pelos pescadores do barco mostram as labaredas nas duas margens do Rio Paraguai. Em um dos vídeos pode-se ver um redemoinho de fumaça e em outros são percebidas rajadas de vento. O vendaval levava as cinzas para o leito do rio e cobria completamente a visão de quem navegava.

“Quando saímos da fumaça nós vimos umas cabeças de gado correndo para a água, mas elas se assustaram com barulho do motor do barco e correram direção ao fogo. Depois tivemos notícias que elas morreram”, lamentou Leandresson. Passado o susto, o grupo de pescadores conseguiu chegar à Cáceres, município localizado a 218 quilômetros de Cuiabá.

Ponto turístico em chamas

O Pantanal enfrenta a mais severa estiagem desde a década de 1990. Com os ventos fortes, a vegetação seca e a baixa umidade do ar, o fogo tem encontrado facilidade para se propagar pelo bioma. Foi dessa maneira que os incêndios chegaram a um dos principais atrativos turísticos de Mato Grosso, a Dolina Água Milagrosa, em Cáceres.

Dolina é uma depressão no solo onde ocorre retenção de água. A de Cáceres consiste em um poço com mais de 100 metros de profundidade e águas cristalinas utilizadas para a prática de mergulho. Para chegar ao local de banho, os turistas precisam descer uma escada com 154 degraus. A escadaria foi destruída pelo fogo na última sexta-feira (11).

“Assim que o fogo chegou nós começamos os esforços para tentar contê-lo, com ajuda de funcionários e vizinhos. A gente queria acima de tudo evitar que as chamas chegassem à Água Milagrosa, mas infelizmente não conseguimos. O fogo propagou em cima do morro e o vento levou pedaços de árvores queimando para a dolina. Logo começou um incêndio na parte debaixo e tivemos que sair às pressas”, explicou Marcelo Castrillon Cebalho, dono da fazenda.

A escadaria que dá acesso a gruta da Dolina Foto: Reprodução

Com o avanço do fogo, as pessoas que combatiam o incêndio tiveram que deixar o local às pressas. O pai de Cebalho, de 73 anos, chegou a tropeçar na escadaria e quase foi alcançado pelas chamas.

O proprietário afirma que os 308 hectares de terra foram transformados em cinzas. A única parte da fazenda salvo do incêndio foi a sede, onde há área aberta ao redor.

“Estamos muito tristes por causa do prejuízo ambiental e financeiro também. Nós preservamos esse local da melhor maneira possível por mais de 50 anos e nunca vimos uma coisa dessa grandeza na região, um fogo tão intenso. Agora esperamos que venha logo uma chuva forte, para a natureza se refazer”, afirmou Cebalho.

Zootecnista morre em fazenda atingida

Luciano da Silva Beijo, de 36 anos, teve o corpo 100% queimado quando combatia as chamas que atingiam a fazenda onde trabalhava, na zona rural de Cáceres, em 6 de setembro. O zootecnista morreu três dias depois.

Luciano da Silva Beijo, que teve o corpo 100% queimado quando combatia as chamas que atingiam a fazenda onde trabalhava, na zona rural de Cáceres Foto: Reprodução

Funcionário da Fazenda Grendene, o zootecnista estava na companhia de dois colegas tentando apagar o incêndio. A propriedade dedicada à criação de gado fica às margens da BR-070, nas proximidades da Serra do Facão, em Cáceres.

De acordo com a Associação Brasileira de Zootecnistas (ABZ), uma forte rajada de vento fez o fogo se propagar, levando as labaredas para o outro lado da estrada, onde ficava a fazenda. As chamas logo deram início à uma queimada no pasto da propriedade onde Luciano trabalhava.

“Todos correram, mas Luciano tropeçou, ficou preso e foi alcançado pelas chamas. Ele foi socorrido por outros funcionários e encaminhado ao pronto socorro do Hospital Regional de Cáceres em estado grave. Todavia, não resistiu e faleceu”, informou a ABZ.

Luciano deixou mulher e um casal de filhos. Em nota, a Nelore Grendene afirmou que o zootecnista era “um profissional exemplar, que soube trabalhar em equipe, disposto a ajudar, a ensinar, a pedir ajuda, a fazer seu trabalho de forma exime, sem oprimir ninguém, sem uma busca desenfreada por reconhecimento”.

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