Recorde histórico no Rio: os impactos do fevereiro mais chuvoso desde 1997

A cidade teve seu fevereiro mais chuvoso dos últimos 23 anos,desde o início da medição do Alerta Rio,o que deu um clima bem diferente à estação solar Foto: Gabriel Monteiro / Agência O GloboTrabalhando há 35 anos na Praia de Ipanema, a comerciante Míriam Mendes Caetano diz que nunca vendeu tão pouco num verão. Estimando uma queda de receita de aproximadamente 40% em relação a 2019, ela afirma que as temperaturas atípicas espantaram sua clientela. A cidade, é fato, teve o fevereiro mais chuvoso desde o início das medições do sistema Alerta Rio, em 1997. Em apenas seis dias não foram registradas precipitações.

Apesar dos picos de calor — na última terça-feira, a sensação térmica chegou a 55,4 graus em Santa Cruz, um recorde —, fevereiro foi marcado principalmente por aguaceiros e baixas temperaturas. Quem diria, por exemplo, que termômetros do entorno da Sapucaí marcariam 22 graus na segunda noite de desfiles do Grupo Especial?

Climatologistas apontam que, este ano, a temperatura da água no Oceano Atlântico está tendo maior influência sobre o tempo no Rio.

— A água do Atlântico Sul, próximo à costa do Sudeste, está com temperatura abaixo do normal. Isso está interferindo na circulação do ar em diversos níveis da atmosfera. Ventos úmidos e quentes que chegam do Norte do país se encontram com os vindos do mar no Sudeste.Desde o começo do verão, tivemos várias semanas nas quais essa convergência ficou bastante acentuada, deixando as chuvas mais intensas e persistentes por aqui — explica a meteorologista do Climatempo Josélia Pegorim.

Neste início de março, o cenário não deve mudar. Nesta sexta-feira, o Inmet emitiu um aviso meteorológico laranja, quando há previsão de riscos moderados a elevados de tempestades no Sudeste. Já o governo federal elevou para estágio de atenção o status de operação do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos (Cenad), apontando que a região deverá ter chuvas intensas até a próxima quarta-feira.

— A gente espera bastante chuva nos próximos dias, mas isso não deve perdurar até o fim do mês. A partir da segunda quinzena, a intensidade das pancadas será menor, porém o período chuvoso deverá voltar com mais força no período de mudança de estação (o outono começa no dia 20) — diz Marlene Leal, especialista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Sem trabalho na praia

Para a comerciante Míriam Mendes Caetano, a notícia de mais chuvas caiu como um balde de água fria.

— Quem trabalha na orla sempre teve bons dias de vendas depois do carnaval, o que não está acontecendo agora. Pouca gente está vindo à praia — lamentou.

Wellerson Junior, vendedor de mate da Praia do Leme mais conhecido como Tubarão, também teve a rotina afetada. Acostumado a aumentar seu ritmo de trabalho nesta época do ano, ele acabou passando um bom período dentro de casa, para não perder a viagem e o produto.

— Meu trabalho depende principalmente do sol. Quem está indo à praia não está interessado em comprar uma bebida gelada. Em fevereiro, fiquei dez dias sem sair, e não fui o único. Às vezes, sou convidado para servir mate em algum evento fechado, mas a maioria dos vendedores está parada — conta Tubarão.

 

Presidente da Associação Brasileira de Hotéis no Rio (A BIH-RJ), Alfredo Lopes diz que as chuvas dos últimos dias também afetaram o setor:

— Ainda mantemos uma boa ocupação na cidade, atualmente em torno de 65%, mas, se estivesse fazendo sol, certamente teríamos pelo menos 75%. Sem dúvida, a chuva prejudicou a rede hoteleira depois do carnaval, muita gente já foi embora.

Preocupação no carnaval

O carnaval carioca foi um sucesso, com quase 6,5 milhões de foliões nas ruas, de acordo com a Riotur. No entanto, Rita Fernandes, presidente da Sebastiana, associação que reúne12 blocos, acha que, sem as chuvas que caíram durante o reinado de Momo, a multidão que se divertiu poderia ter sido ainda maior.

— Quando cai uma chuva eventual, todo mundo curte. O problema é que fevereiro teve muito temporal. Foi uma sequência, e o carioca ficou com um pouco de receio de enfrentar alagamentos. Parte da população acabou desanimando — afirma Rita.

De acordo com o Alerta Rio, a média de chuvas em fevereiro (feita com base em medições de 1997 a 2019) é de 108,1 milímetros. Até 11h15 desta sexta-feira, choveu 276mm na cidade, ou seja, 155% a mais, superando o dobro da média histórica.

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