Queda do Muro de Berlim: o dia em que o mundo mudou

Multidão em frente o Muro de Berlim enquanto guardas da fronteira da Alemanha Oriental derrubam parte da barreira, criado um novo ponto de travessia entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental
Foto: GERARD MALIE / AFP/11-11-1989

O porta-voz da comissão política do Partido Socialista Unificado da Alemanha Oriental (RDA), Günter Schabowski , coça a cabeça confuso, coloca os óculos, duvida, mexe em suas notas manuscritas e parece tentar compreender o que está lendo.

Por fim, afirma: 

— Até onde eu entendo, isso entra em vigor de maneira imediata, sem demora.

A bomba acabara de ser lançada.

São cerca de 19 horas do dia 9 de novembro de 1989.

O membro do partido comunista único, responsável pela divulgação das informações e integrante da direção do “Estado dos operários e camponeses”, anunciava, sem se dar conta do fato, a abertura do Muro de Berlim diante de dezenas de jornalistas estupefatos.

Ele pareceu fazer a declaração de maneira inadvertida, ao final de uma entrevista coletiva e em resposta às perguntas sobre as condições de saída do território para os cidadãos da Alemanha Oriental.

Mas já não havia como voltar atrás.

Passados 30 anos, o debate continua vivo: a brutal queda do Muro de Berlim, que antecede o que viria a acontecer com todo o bloco comunista, foi um acidente da História? Fruto de um erro da hierarquia comunista mal preparada ou um gesto calculado de parte de uma ditadura de uma RDA esgotada?

Regime desesperado

Nos corredores do poder em Berlim Oriental , no interior de suntuosas casas de Wandlitz ocupadas por burocratas comunistas, a atmosfera estava pesada há várias semanas. Como salvar a situação?

A população da RDA, presa atrás da Cortina de Ferro desde 1961, agora escolhe com consciência e desde agosto de 1989 emigra para Alemanha Ocidental passando por outros países do bloco comunista, como Hungria e Tchecoslováquia , que fecham cada vez mais os olhos para isso.

Paralelamente, desde o início de setembro, milhares de alemães orientais se manifestam contra o regime em várias cidades, toda semana, aos gritos de “Somos o povo!” e “Queremos sair!”.

A crise chega a um ponto decisivo e a RDA não pode contar com uma intervenção do grande irmão soviético.

Advertência de Gorbachev

Em Moscou, Mikhail Gorbachev repete à exaustão as palavras “perestroika” e “glasnost”.

No início de outubro, o dirigente soviético lança uma advertência profética a Erich Honecker, o homem forte da Alemanha comunista: “A vida castiga os que chegam tarde”.

Honecker fica fora da jogada poucos dias depois, em 18 de outubro. O dirigente, que poucos meses antes aplaudia a China pelo “esmagamento da revolta contra-revolucionária” na Praça Tiananmen (Paz Celestial), é substituído por Egon Krenz.

Apresentado como moderado, Krenz pretende salvar a RDA com reformas, como, por exemplo, a liberação das viagens com visto de saída sem regras prévias.P

É nesse contexto que Schabowski se vê enviado na noite de noite de 9 de novembro de 1989 com a missão de anunciar ao vivo as medidas de flexibilização decididas no mesmo dia pelo círculo restrito.

A partir daí as versões da história variam.

Egon Krenz até hoje não perdoa Schabowski, a quem acusa de ter levado a RDA a uma situação difícil ao proclamar por iniciativa própria “a entrada em vigor imediata” da possibilidade de saída do país.

Em sua opinião, Schabowski deveria ter se limitado a ler um comunicado anunciando a liberação das viagens a partir do dia seguinte.

A ideia teria sido autorizar saídas controladas com visto obrigatório e manter as instalações na fronteira, e não derrubar o muro de maneira súbita. Derrubando, no fim das contas, a própria RDA.

Faltou critério por estar sob pressão? Ou foi um gesto calculado? Até sua morte em 2015, aos 86 anos, Günter Schabowski nunca respondeu claramente a essas perguntas.

Salvando a RDA

— Ninguém podia deter o movimento que acabava de ser lançado com meu anúncio — analisou ele com simplicidade, querendo parecer, após o ocorrido, um reformador fervoroso.P

Segundo sua versão, a abertura das fronteiras foi imposta em 9 de novembro de 1989 de maneira brutal ao comitê central do partido, dominado por uma vanguarda de herdeiros do estalinismo, por parte de um pequeno grupo de reformistas.

— Chegamos à conclusão de que se quiséssemos salvar a RDA era preciso deixar sair as pessoas que queriam fugir — contou Schabowski ao jornal TAZ em 2009.

No entanto, o ex-opositor alemão oriental e presidente do Parlamento alemão Wolfgang Thierse tem certeza de que Günter Schabowski nunca imaginou o alcance de seu anúncio.

— Não acredito que soubesse o que ia acontecer. Suspeitávamos que se preparava algo sobre a liberação de viagens porque o Partido Comunista queria diminuir a pressão. Mas Schabowski não imaginava que a explodiria por completo —  disse à rádio pública.

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