Pressão política, ataque de abelha, mala de comida… As histórias do dia que Pelé jogou no Fluminense

Oficialmente, Pelé só jogou pelo Santos, no Brasil, e pelo New York Cosmos, dos Estados Unidos. Mas alguns dos outros clubes também tiveram um pedaço da história com o Rei do Futebol, que completa 80 anos nesta sexta-feira, e preparam suas homenagens de aniversário. Como por exemplo o Fluminense. Você sabia disso?

A foto para a eternidade do Fluminense. Em pé: Paulo Emílio (técnico), José Roberto (preparador), Renato, Marinho Chagas, Dário Lourenço, Miranda, Edevaldo, Rubens Galaxe e Dr. Arnaldo Santiago. Agachados: Gildásio, Arturzinho, Geraldão, Pelé e Gilson Gênio — Foto: Acervo Flu Memória

O enredo que levou o craque a vestir a camisa tricolor aconteceu há mais de 42 anos, em uma história não muito inédita para os torcedores: amistoso na Nigéria e vitória do Fluminense por 2 a 1 sobre o Racca Rovers, vice-campeão do país, no dia 26 de abril de 1978. O próprio Pelé, em 2018, fez uma postagem lembrando o fato em suas redes sociais.

Mas o que pouca gente sabe são os detalhes. Através de jornais antigos e entrevistas com ex-jogadores daquele time, o ge foi atrás das curiosidades dessa história. Confira!

Pelé em campo com a camisa do Fluminense realmente foi por acaso. Mas o fato de tanto o maior ídolo do Brasil quanto o clube brasileiro, ainda badalado pela “Máquina Tricolor” dos anos anteriores, estarem no mesmo local e horário não foi coincidência. O craque, que havia acabado de encerar sua carreira, viajou como garoto-propaganda da “Interbrás” para fazer o lançamento de vários eletrodomésticos no país africano. E assinou um contrato onde se comprometeu a jogar 45 minutos pela seleção nigeriana no amistoso contra o Flu.

Revista Manchete do dia 27/05/1978 destacava primeiro amistoso e a aventura de Pelé na Nigéria — Foto: Reprodução / Revista Manchete

E assim o fez. No dia 22 de abril de 1978, no Estádio Municipal de Lagos, o Fluminense passeou e fez 3 a 1 sobre a Nigéria com Pelé e tudo. No segundo amistoso diante do Racca Rovers, realizado em Kaduna, a 800 km para o interior do país, o Rei do Futebol iria apenas para receber homenagens, dar o pontapé inicial e uma volta olímpica para saudar a torcida. Mas com a multidão em polvorosa no estádio e arredores, o governador local ameaçou deixar o estádio e retirar o policiamento se o craque não jogasse. Mais do que os nigerianos, os tricolores é que agradecem:

– Rapaz, chegamos com estádio super lotado e mais uma multidão do lado de fora, a polícia batendo de chicote… Era um estádio bem pequeno, cabiam no máximo 10 mil pessoas. O Pelé estava com roupa de passeio, na hora que subiu tinham pessoas para recebê-lo e deram um traje típico. Ele chegou perto de mim e disse: “Olha a palhaçada que vou fazer”. Ele foi andando, abriu os braços com aquela roupa e saldou a torcida, aí o estádio veio abaixo – recordou o ex-goleiro Renato, o Aranha Negra.

Rei com os trajes típicos em Kaduna, antes de saber que iria jogar — Foto: Acervo Flu Memória

– Eu lembro muita coisa, a memória não pode falhar com Pelé no seu time. Jogar ao lado dele é impagável. A gente já estava aquecido e tudo, quando houve uma onda, uma movimentação. Sabíamos que ele estava lá, mas só tomamos conhecimento (de que iria jogar) quando ele entrou em campo de uniforme. Chegou a brincar de dois toques para aquecer com a gente. Não foi nada programado, foi uma surpresa agradável – destacou o ex-meia Rubens Galaxe.

Mas para Pelé entrar, alguém ia ter que sair. A pergunta era: quem? O meia Arturzinho, que na época já estava de sobreaviso do técnico Paulo Emílio para jogar no lugar de Pintinho, machucado após o primeiro amistoso, lembra bem daquele momento e supõe porque o craque escolheu o Flu:

– Nesse primeiro jogo pelo time da Nigéria, o Pelé não pegou na bola. Os caras não jogavam nada e tomaram um vareio, fizemos três ou quatro gols. Pelé já estava injuriado, não ia querer jogar com os caras de novo (risos). A gente já estava perfilado quando o Pelé apareceu. E quem estava com a camisa 10? O Tatu, que teve que sair para ele entrar. Eu que estava com a 8 continuei. Se estivesse com a 10 eu que teria saído (risos).

Já com Pelé no lugar de Luis Carlos Tatu, time ficou perfilado em campo para o jogo — Foto: Acervo Flu Memória

Tatu é Luis Carlos Tatu, ex-atacante que havia sido titular no primeiro amistoso. Foi ele quem cedeu a vaga para Pelé e recorda com bom humor do episódio, garantindo que não ficou frustrado:

– Antes de entrar em campo, o Pelé vira para mim e fala: “Pode ficar tranquilo porque eu não vou jogar, não. O combinado foi eu não jogar”. Aí, quando já estávamos no gramado, ele aparece na beira do campo já de uniforme e fala para mim: “Falei que não ia jogar, mas era brincadeira, ia pedir para entrar no seu lugar (risos)”. Ainda disse que ia jogar só 10, 15 minutos, mas foi o tempo todo. O cara era fominha. Sair para ele entrar? Saio quantas vezes quiser (risos). Mas já tinha jogado ao lado dele duas vezes na Seleção – disse Tatu, explicando que tinha uma relação mais próxima com Pelé:

– A gente tinha muita ligação, no aniversário sempre mandava telegrama um para o outro. Tínhamos uma empatia. Teve um jogo que meu afilhado nasceu e fui pedir a camisa dele para dar de presente. Ele disse: “Poxa, Luis, não tem condição porque já prometi a uma pessoa”. Aí, um tempo depois no Brasileiro, terminou o jogo Vasco e Santos, todo mundo foi nele pedir a camisa, e do nada ele foi lá e me entregou. Outra vez também, jogando contra o Santos no Maracanã, dei uma entrada mais forte em um cara, fui pedir desculpas e ele já levantou atirando a bola no meu peito. Aí o Pelé veio correndo: “Com esse cara não, ele é gente boa”. Foi um amigo que fiz no futebol.

Luis Carlos Tatu, antes e depois — Foto: Arquivo Pessoal

Pelé foi substituído no intervalo da partida, dando vaga ao próprio Tatu. Antes dele sair, o Fluminense vencia por 1 a 0, gol de Marinho Chagas no último minuto do primeiro tempo, após bonita jogada de Edevaldo e Geraldão. Sexto maior recordista de jogos com a camisa tricolor, com 465 partidas, Rubens Galaxe lembrou que por muito pouco o ídolo brasileiro não deixou o dele para levar o estádio abaixo:

– Ele tinha vigor ainda. Até em um lance, em uma cabeçada após cruzamento, subiu no tempo certinho e quase que ele fez um gol. Claro que ele também não ia se expor. Os africanos não tinham maldade, mas entravam rachando e eram muito fortes. E o Pelé chamava a gente pelo nome, como se conhecesse a todos, isso me marcou muito. A magnitude dele de chamar pelo nome deixava muito à vontade pela humildade que tinha com os demais. Não se sentia intocável.

Na etapa final, os nigerianos empataram com Ichias, aos cinco minutos do segundo tempo. Mas Arturzinho, em chute de fora da área, fez o gol da vitória tricolor 20 minutos depois. Feito que jamais foi esquecido pelo jovem meia, na época com 22 anos, que “ofuscou” o Rei:

– Eu tiro onda até hoje. No dia que joguei com o Pelé, quem fez o gol fui eu. De vez em quando conto isso e dizem que é mentira (risos). A gente na época não sabia da importância de ter jogado com um cara desse tamanho, depois que passa a coisa fica inesquecível.

– O campo não era muito bom, não, era meio irregular. Lembro que chutei entrando na área, da meia-lua. Esse início de carreira não era muito de fazer gol, era mais um segundo homem de meio de campo

Renato, antes e depois — Foto: Arquivo Pessoal

Já Renato teve a “sorte inversa” de Tatu. O goleiro vinha sendo reserva de Wendell naquela temporada e, após ficar no banco no primeiro amistoso, ouviu do técnico Paulo Emílio que iria jogar o segundo para readquirir ritmo de jogo. Quis o destino que fosse justamente o “jogo do Pelé”, com quem compartilhava coincidências na carreira:

– Meu primeiro jogo como profissional, no Flamengo, foi contra o Santos do Pelé. Nos enfrentamos várias vezes, e dos 1.000 gols que ele fez só um foi em mim, em um jogo do Santos contra o Atlético-MG em 1970. E lá nesse amistoso tive a sorte de poder jogar ao lado dele. Aquilo foi como um prêmio. Tinha sido titular direto quando cheguei ao Fluminense em 76, mas em 77 operei a coluna, e a diretoria contratou o Wendell. Tem sempre uma mãozinha de Deus ajudando.

Enxame de abelha, mala de comida…

Para além do placar e do privilégio de jogar com o Rei, ficaram muitas histórias daquela aventura na África. No estádio em Kaduna, jogadores, comissão técnica e torcedores sofreram um ataque de um enxame de abelhas. A imprensa na época noticiou que um policial picado chegou a a perder o equilíbrio e cair do cavalo, enquanto o técnico Paulo Emílio se escondeu debaixo do banco de reservas.

– Era uma nuvem de abelha africana, um barulho que era uma coisa louca, parecia de avião a jato. Foi uma cena igual de guerra, todo mundo se jogando no chão. Foi aterrorizante – lembrou Renato.

 

– Brinquei com o Pelé depois: “Está vendo, é a maldição sua” (risos). Mas foi todo mundo deitando no chão, se jogando, abelha para tudo que é lado – completou Tatu.

A imprensa também noticiou na época que o árbitro foi ao vestiário do Fluminense carregando uma tesoura e examinando as unhas dos jogadores, até mesmo dos goleiros, que jogam de luvas. Mas a tesoura não teria sido usada. Também houve implicância com esparadrapos nos dedos. Em campo, segundo relatos, a arbitragem se atrapalhou e marcou impedimento de um arremesso lateral.

Arturzinho, antes e depois — Foto: Divulgação

Arturzinho lembrou de outra história: quando não conseguiram treinar devido a manifestações políticas nas ruas, que impediram o acesso ao estádio. Os ônibus para deslocamentos da delegação eram da prefeitura local:

– Estávamos indo para o estádio treinar, e tinha um viaduto que só dava mão para um lado. Do nada, o ônibus parou no meio do viaduto, e o motorista começou a manobrar para voltar. A gente ficou apavorado, sem saber o que o cara estava fazendo, e ele veio na contramão igual um maluco. Só depois fomos saber que estava tendo uma manifestação no caminho e estavam virando os ônibus do governo.

Agora imagina voltar do jogo, chegar ao hotel e não ter água para tomar banho? Tem coisa pior? Tem!

– A gente chegou tarde da noite ao hotel. Eu sempre dividia o quarto com o Paulo Goulart, mas nesse dia fiquei com o Robertinho. Quando cada um iria tomar o seu banho, a água acabou. Estava calor como sempre, e o Robertinho colocou o colchão no chão. Só que ele abriu a torneira e não fechou. Quando acordamos, estava tudo inundado (risos) – contou Rubens Galaxe.

Rubens Galaxe, antes e depois — Foto: Divulgação

Mas talvez os maiores perrengues que os jogadores tiveram foi com a alimentação. Diante da preocupação com a falta de higiene no país, a delegação proibiu até de beber água, recordou Renato. O goleiro, então, encomendou uma mala de mantimentos que foi levada pelo torcedor Antônio Barros, seu conhecido dos tempos de futebol de praia no Rio de Janeiro:

– Foi a salvação. Eu e o Tatu éramos vizinhos, e nossas mulheres eram muito amigas. Quando chegamos lá, um calor de louco, não nos deixavam nem beber água. Ficávamos tomando só cerveja. A comida também era uma coisa pavorosa, tinha uma carne que falavam que era de macaco… Aí bateu o desespero. Liguei para minha mulher, ela juntou 25 kg de alimento e mandou. Tinha pizza, lata de feijoada, queijo, patê… Não sei como essa mala conseguiu passar na alfândega (risos), foi uma benção de Deus. Quando chegou, falei para o pessoal: “Pega o pão, que coisa para pôr dentro eu tenho” (risos).

E de acordo com o noticiado na imprensa, o médico do Fluminense na viagem, o Dr. Arnaldo Santiago, foi procurado para operar Oyarenkhua, jogador da seleção nigeriana e até então maior artilheiro do país. Na época, ele vinha jogando há dois meses no sacrifício após lesão no menisco.

Naquele 26 de abril, o Fluminense entrou em campo com Renato; Edevaldo, Miranda, Dário Lourenço e Marinho Chagas; Rubens Galaxe, Arturzinho e Pelé; Gildásio, Geraldão e Gilson Gênio. Nas substituições, entraram: Luis Carlos Tatu, Edival e Carlinhos. Dos 14 jogadores, apenas Marinho Chagas já morreu, vítima de uma hemorragia digestiva em 2014.
Marinho Chagas é o único daquele time já falecido — Foto: Reprodução

O Fluminense encerrou a excursão pela Nigéria com um terceiro amistoso, que terminou com um empate por 1 a 1 com o time Shooting Star, em Lagos. Antes deste último jogo, Pelé retornou ao Brasil e evitou novas surpresas. Quarenta e dois anos depois, os personagens seguiram suas vidas sem jamais esquecer dos momentos ao lado do Rei do Futebol.

– A gente guarda com muito carinho. O Fluminense, como entidade, deve honrar o cara que foi o máximo no futebol, tudo que ele fez tem que ser comemorado, exaltado. O Brasil deve muito a ele, divulgou nome do país para o mundo como diplomata nenhum fez – afirmou Rubens Galaxe.

Renato, o Aranha Negra, está com 76 anos e mora em Uberlândia, em Minas Gerais, onde trabalhou com locação de veículos e como chaveiro. Luis Carlos Tatu vive aos 73 anos em Itaipava, na região serrana do Rio de Janeiro, e virou advogado após encerrar a carreira, tendo como “cliente” inclusive o Maracanã antes da Odebrecht assumir o estádio. Enquanto Rubens Galaxe e Arturzinho continuaram na capital carioca: o primeiro, de 68 anos, virou economista, enquanto o segundo, de 64, tornou-se técnico de futebol e atualmente preside o Centro Esportivo Social Arturzinho, na Série C do Rio.

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