Músico leva cinema itinerante aos becos da Maré com dinheiro de reciclagem de óleo de cozinha

Bhega Silva anda pelas ruas da Maré com uma caixa de som na bicicleta para divulgar campanhas de vacinação e serviços à comunidade.  — Foto: Reprodução/Facebook Cineminha no Beco

Nascido na Praia de Ramos, na Zona Norte do Rio, o músico Lindenberg Cícero da Silva, conhecido como Bhega, de 62 anos, relembra a infância regada a mergulhos na Baía de Guanabara e almoços com peixes frescos comprados diretamente de pescadores da região.

As lembranças dos 30 anos em que viveu no local – bem diferentes da realidade de poluição atual da baía – foram a motivação para Bhega passar a coletar óleo de cozinha, que seria descartado pelos moradores, para reciclagem.

A coleta continuou mesmo depois de Bhega se mudar para o Parque União, na favela da Maré, e em 2013, o dinheiro arrecado com a reciclagem possibilitou a criação do projeto social que faz brilhar os olhos de crianças nos becos escuros do complexo de favelas da Zona Norte: um cinema itinerante.

“Eu consegui gravar um CD com o dinheiro do óleo e divulgava com a minha bicicleta na comunidade. Em uma dessas voltas, um menino cutucou meu ombro e perguntou ‘tio, cadê o cinema?’. Ele se referia a uma ONG que passa filmes na Maré, mas que foi embora. Aquilo ficou martelando na minha cabeça por dias e eu decidi fazer algo a respeito”, relembra Bhega.

Uma vez por mês, aproximadamente 90 crianças se reúnem em um beco ou viela da Maré, e assistem juntas a filmes. Em 2019, o programa completou 148 exibições.

Entre animações e desenhos já conhecidos, Bhega garante também a transmissão de longas com mensagens de conscientização ambiental ou cidadania, como dicas para evitar a proliferação do mosquito da dengue e a importância das campanhas de vacinação.

“Antes de montar tudo e depois que acaba, a gente varre a rua e explica que o lixo pode ir para a Baía de Guanabara e matar peixe, baleia, tartaruga”, afirma Bhega.

Depois de 6 anos de Cineminha no Beco, o músico conta que percebe a emoção dos pais ao verem os filhos assistindo aos filmes. Bhega destaca também o interesse dos adultos pela sétima arte, já que muitos nunca entraram em uma sala de cinema.

“Lembro de uma senhorinha de 71 anos, dona Maria Vitória. Fiz um projeto na porta da casa dela e ela me falou: ‘seu Bhega, casei cedo, meus pais não me deixavam estudar ou trabalhar, tive filhos cedo e eles cresceram, nunca tive a oportunidade de ir ao cinema. Hoje, pela primeira vez, eu vejo o cinema na porta da minha casa. Muito obrigada’. Isso não tem dinheiro que pague”, relembra o artista.

‘No início, vão te chamar de doido’

O apoio da comunidade e a condição financeira, no entanto, não foram fáceis no início. Bhega diz que, para cada litro de óleo coletado, o retorno era de apenas R$ 1. Além da dificuldade de buscar tanto óleo, ele ainda precisava do transporte até o centro de reciclagem, que fica em Bonsucesso.

Depois de meses circulando pelas ruas da Maré para divulgar a ação, Bhega conseguiu comprar uma lona, algumas cadeiras e, com a ajuda de um comerciante, ganhou o projetor.

“Precisamos perseverar. No início, vão chamar você de doido. ‘Cara doido, fazer cinema na bicicleta?’. Às vezes, quem chama queria fazer a mesma coisa, mas não tem ideia, não tem noção do que é levar alegria. ‘O que você ganha com isso?’, respondo: amor, carinho, respeito. Ser cidadão, cuidar da minha comunidade”, diz.

A grandiosidade do gesto do artista, no entanto, contrasta com a estrutura simples do Cineminha. A rotina é a mesma: Bhega estaciona a Tuk Tuk, espécie de triciclo, que ganhou há anos em um programa de TV, ajusta as poucas cadeiras, muitas doadas, para a grande quantidade de crianças, e distribui pipoca, que ele mesmo faz, com a ajuda da esposa e da filha.

“Eu faço e elas enchem os saquinhos. Às vezes, vem um anjo que faz cachorro-quente ou dão bolo. Eu falo para as crianças: a gente não tem ar-condicionado e nem luxo. Mas tem amor. Quem sabe, amanhã, essas crianças não se tornam cineastas, artistas?”, conta.

Além da dificuldade de melhorar a estrutura do Cineminha, Bhega destaca a violência como outra grande preocupação.

“Quando chove, não tem cinema. Operação, nem pensar. São 80, 90 crianças. Imagina como é que vai ser? Todo mundo saindo correndo? Eu nem penso nisso”, diz Bhega.

Hoje, o artista busca comprar uma lona melhor para proteger as crianças da chuva e conseguir mais cadeiras para o projeto. Quem se interessar em doar, pode entrar em contato pela página do Facebook do Cineminha no Beco.

Arrecadação de óleo triplicou na Maré

Desde que começou a coleta de óleo de cozinha para reciclagem, em 2004, Bhega Silva diz a quantidade separada pelos moradores triplicou e a preocupação com a coleta foi expandida para fora da comunidade.

“Agora, tem gente que pede ao patrão ou à madame, no serviço, para separar o óleo, e aí eles pegam para me dar na Maré. Às vezes, a pessoa é tão humilde que me dá o óleo em uma tampinha de garrafa pet. Mas o gesto, a preocupação, isso é ser cidadão”, afirma.

O sucesso da coleta foi tão grande, que Bhega criou ecopontos em diferentes regiões da Maré e de Ramos para facilitar a arrecadação. “As pessoas espalham a ação, os donos de bares começaram a recolher para me dar também, virou uma rede de cidadania”, conclui o músico.

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